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A virtude sem Deus

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Dela, da primeira-dama, só quero uma frase, que pode ser em português bem claro: de onde vieram os R$ 89 mil depositados em sua conta corrente - Evaristo Sá / AFP
Até hoje, circula por aí a falsa ideia de que a moral sem Deus gera ladrões e assassinos

A primeira-dama, dona Michelle, é fluente em línguas advindas do Espírito Santo. Ela deu pulinhos de júbilo e glória quando o amigo, André Mendonça, foi aprovado para o Supremo Tribunal Federal. A primeira-dama foi outorgada diretamente por Deus e por mais ninguém, com o da glossolalia: “falar em línguas”. As imagens correram a internet.

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Dona Michelle foi vítima de intolerância e zombaria. A internet é um deserto implacável. No espectro da visibilidade mediática, gravitam pessoas cegas de ódio, à esquerda e à direita, não importa a denominação política ou religiosa. Michelle sabe disso, mas aparenta não se importar com o fedor.

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Eu, que já entrevistei gente “incorporada”, não tenho problemas em aceitar uma Michelle abençoada pelo Espírito Santo. Dela, da primeira-dama, só quero uma frase, que pode ser em português bem claro: de onde vieram os R$ 89 mil depositados em sua conta corrente. Depósitos feitos em cheque por um dos assassinos de aluguel da família Bolsonaro.

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O escolhido para ingressar no STF, André Mendonça, pode igualmente se rasgar todo em cultos neopentecostais Brasil afora, desde que cumpra seu dever como ministro: deixe Deus porta afora do tribunal, pois lá, no tribunal, Ele não deve ter vez e nem voz.

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O que necessitamos é de uma moral autônoma, dissociada de uma dependência aos dogmas religiosos. Os mercadores da fé não falam em nome de Deus. Só querem encher as burras de dinheiro, independente de quantas línguas e pulinhos deem diante das câmeras.

Até hoje, circula por aí a falsa ideia de que a moral sem Deus gera ladrões e assassinos. Uma falácia discursiva em torno de Deus e “pessoas de bem”. Um tremendo papo furado.

Os maiores crimes são cometidos em nome de Deus. Eu conheço um montão de pessoas de bem que prega o fascismo, a homofobia e o racismo, inclusive na minha família “abençoada”, onde impera um patriarcado branco e misógino.

O caminho da vida ética está aberto a qualquer pessoa, independentemente de suas crenças e posições políticas, de esquerda ou direita. Isso nem precisaria ser dito, tamanha a obviedade. Contudo, parece que precisamos de um pouco de obviedade para manter a razão nesse país destruído pela lógica miliciana que nos desgoverna, temporariamente.

Os “valores” não desaparecem ao colocarmos Deus no quadradinho que lhe pertence. O que nos falta, de fato, é uma ética capaz de identificar e fortalecer o interesse comunitário, separar o interesse individual do interesse coletivo.

Não precisamos de altruísmo, não precisamos de Deus, não precisamos de salvadores da pátria e nem de mercadores da fé.

Carecemos de consciência ecológica e comunitária. Carecemos de escuta, de amor compartilhado, de educação, de entendimento de que a liberdade é um gesto compartilhado e não individual.

A composição comunitária da liberdade e dos direitos humanos é o que pode nos fazer melhores do que somos. A ilusão ideológica, política e religiosa requer um sepultamento digno de sua própria relevância.

 

*Marques Casara é jornalista especializado em investigação de cadeias produtivas. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP. Leia outras colunas.

**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Edição: Rodrigo Durão Coelho