CENSURA

Em Pernambuco, estudante de universidade federal é processado por questionar gastos da reitoria

De acordo com Portal da Transparência, o reitor da federal gastou cerca de R$ 150 mil em 56 viagens nacionais

Brasil de Fato | Recife (PE) |
O movimento estudantil realizou um protesto em frente à reitoria no mês de janeiro para pedir esclarecimentos sobre os gastos em viagens e cortes nas diretorias - Glícia Lopes/ DCE Univasf

Foi com surpresa que o estudante de Artes Visuais e presidente do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), Bruno de Melo, descobriu que estaria sendo alvo de um processo administrativo por calúnia e difamação.  

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O motivo: uma nota publicada pelo diretório, em 2021, que denunciava um corte de verbas da Diretoria de Assuntos Estudantis da Univasf. Além disso, o DCE denunciou um uso exagerado de verbas para viagens por parte do reitor pro tempore Paulo César Fagundes Neves.

“Então, ele extinguiu a diretoria com essa desculpa de que não tinha dinheiro, e ao mesmo tempo autoriza fazer um repasse financeiro para um servidor, que é um cargo comissionado dele, um cargo de confiança dele. A gente fez esse questionamento e alguém, anonimamente, a gente não sabe, me denunciou por calúnia e difamação, dizendo que uma coisa não tem nada a ver com a outra e que eu quero manchar a imagem do reitor e da reitoria”, aponta Bruno.

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Paulo César Fagundes Neves foi indicado ao cargo de reitor em 2020 pelo então ministro da educação Abraham Weintraub em caráter temporário, ignorando o processo habitual de eleições feito a partir de lista tríplice; porém, o servidor permanece no cargo já fazem 2 anos. 

Segundo o Portal da Transparência, o servidor gastou cerca de R$ 150 mil em 56 viagens nacionais em 2021, entre passagens e diárias, sendo considerado o servidor com mais viagens do tipo no ranking veiculado em um blog ligado ao Correio Braziliense.

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“Enquanto os bolsistas estão com as bolsas atrasadas, passaram os meses de dezembro e janeiro sem saber quando iam receber, receberam no meio do mês uma bolsa de R$400, R$200 de bolsa que já foi reduzido, o reitor está gastando quase R$200 mil em viagens”, critica Bruno.

A Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) está presente nos estados de Pernambuco, Bahia e Piauí com quase 7 mil estudantes em cursos de graduação e pós-graduação. Ela é uma instituição de ensino pública e mantida pelo governo federal.

Apesar das viagens fazerem parte do trabalho dos servidores em cargos de gestão, como a reitoria, o valor deixa questionamentos não só para o movimento estudantil, mas também para especialistas como Leandro Lopes, especialista em contabilidade pública e transparência, e professor da Universidade Federal de Alagoas (UFAL). “Esse volume de gastos deve ser precedido por um volume grande de reuniões e viagens, mas nem sempre isso é concentrado na mão do reitor. Então, eu acho que faltou, é claro, um planejamento melhor até para isso”,aponta Leandro.

O especialista destaca a importância do debate, principalmente no que diz respeito à transparência: “A gente está em um período de cortes desde 2015, cortes severos nas universidades. Quando a gente destaca que foi gasto um valor tão alto com diárias e passagens, aí a universidade questiona por que não destinou isso para outras finalidades. Então, a gente precisa dessa transparência até para saber se aquilo é necessário, se precisava ser feito daquela forma, se não podia ter sido uma reunião virtual como a gente está fazendo até hoje”.

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O processo administrativo está ouvindo depoimentos dos envolvidos e o diretório se prepara para apresentar as provas. A equipe do Brasil de Fato Pernambuco entrou em contato com a Univasf para pedir esclarecimentos sobre o processo, mas até o momento não obteve resposta.

Em seu site, a instituição se pronunciou sobre o ranking e apontou que todas as despesas com passagens e diárias são regulamentadas por lei e destinadas à cobertura de custos com passagens, hospedagem e alimentação de servidores que se deslocam a serviço da administração.
 

Fonte: BdF Pernambuco

Edição: Vanessa Gonzaga