ENTREVISTA

Relação do governo Bolsonaro com os estados é de “completo desrespeito”, afirma Fátima Bezerra

Única governadora do país critica presidente pela falta de respeito às instituições democráticas

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Em entrevista, Fátima Bezerra (PT), única mulher a frente de um governo estadual no Brasil, afirma que presidente não respeita relações institucionais - Ricardo Stuckert

Única mulher governadora do país, eleita pelo povo do Rio Grande do Norte, a petista Fátima Bezerra afirma que a relação do governo Bolsonaro com os estados é marcada pelo “completo desrespeito”. “Ele não tem o mínimo zelo pelos princípios republicanos, do ponto de vista das relações federativas”, disse ela ao jornalista Juca Kfouri, no programa Entre Vistas da última quinta-feira (17), na TVT. E esse tratamento, segundo ela, não se restringe às lideranças do Nordeste, região em que o presidente é majoritariamente reprovado. “Você conta nos dedos quais são os governadores que ele tem um mínimo de relação. Então é um horror, um retrocesso. É como se fosse uma volta à época da República dos coronéis”.

Fátima também atribui ao governo Bolsonaro a responsabilidade pelo agravamento da miséria, da fome e da desigualdade nos últimos anos. “Isso tudo em decorrência do governo que aí está. Não só pela política ultraliberal que eles adotam. Mas também as iniciativas do próprio governo de desmonte das estruturas do Estado”, disse.

Como exemplo, ela aponta o desmantelamento do Sistema Único de Assistência Social (Suas). Nos últimos três anos, Bolsonaro cortou em mais de 70% os recursos federais destinados ao órgão. A governadora compara o modelo de gestão do Suas à forma como deveria funcionar o pacto federativo, com articulação entre o governo federal, estados e municípios, com participação social.

“Mas esse governo que está aí não tem amor pela democracia. Muito menos pela participação popular. Ele desmontou tudo isso. Assim, a tradução de tudo isso é a precariedade cada vez maior nas condições de vida das famílias em situação de vulnerabilidade social”, criticou.


Consórcio do Nordeste

Diante desse cenário, Fátima Bezerra citou o Consórcio do Nordeste como exemplo de “resistência e cooperação coletiva”. É nesse colegiado, explica, que os governadores da região buscam soluções e alternativas para as questões mais relevantes da região. No consórcio, a governadora potiguar é responsável pela coordenação das câmaras temáticas da Agricultura Familiar e da Assistência Social.

“Sem dúvida nenhuma, essa iniciativa dos governadores, essa articulação que nós temos feito, tem sido muito importante. Na medida em que o Nordeste se une olhando para muitos e muitos dos desafios e problemas que são comuns”, afirmou.

Educação

A Juca Kfouri, Fátima também garantiu que vai cumprir com o Piso Nacional do Magistério em 2022. Os professores da rede estadual entraram em greve na última segunda-feira (14), reivindicando 33,24% de reajuste, de acordo com o piso. Ela disse que respeita a luta da categoria, e saudou o Piso Nacional como um dos “grandes avanços” obtidos nos governos do PT.

No entanto disse também que o Rio Grande do Norte enfrenta restrições orçamentárias e, por essa razão, apresentou uma proposta de parcelamento do reajuste. Ela lembrou que abriu seu mandato, em 2019, “com o cofre raspado”. Naquele momento, o funcionalismo estava com quatro meses de salários atrasados, que somavam cerca de R$ 1 bilhão. Ainda assim, afirmou, foi possível “arrumar a casa” garantido dignidade aos servidores.

Mulheres na política

Sobre a condição feminina e atuação política, Fátima Bezerra disse que “não é normal” ser a única mulher a governar um estado no Brasil de hoje. Ela destacou que a sub-representação feminina se repete também no Legislativo e no Judiciário. Ela atribui essa discrepância à “cultura patriarcal” e ao “machismo estrutural”, que impõem obstáculos às mulheres.

“Não é fácil de maneira nenhuma viver nesse mundo, nas mais variadas esferas. No setor público, na vida privada, não é fácil. Diante exatamente da carga violenta de preconceito que a gente enfrenta”, afirmou a governadora. Nesse sentido, disse enfrentar ainda outras formas de preconceito.

“Comigo, por exemplo, o preconceito começa pela questão de gênero, por ser mulher. Aí vem o preconceito da ordem de orientação sexual, e o preconceito de classe. Afinal de contas, eu não nasci num berço de ouro. Venho de uma família de origem simples, humilde, pobre. Então é uma carga de preconceito muito, muito grande.”

Por outro lado, disse que, para exercerem o poder, as mulheres têm “uma sensibilidade mais aflorada, associada ao mesmo tempo a muita determinação e coragem”. “Nós já vencemos muitas barreiras, sem dúvida nenhuma. Se for olhar do ponto de vista do direito à educação, do direito ao mercado de trabalho etc. Mas a gente tem uma estrada muito longa pela frente”, concluiu.