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Conflito entre Rússia e Ucrânia pode gerar escassez de trigo no mundo

Os dois países exportam cerca de 30% do trigo, 19% do milho e 80% do óleo de girassol consumido globalmente

Brasil de Fato | São Paulo (SP) |

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Guerra entre Rússia e Ucrânia dificulta safra de trigo, provoca recorde de preços e pode gerar escassez no mercado - Joseph Eid / AFP

O conflito entre Rússia e Ucrânia também movimentou o mercado global de commodities. A Rússia é o maior exportador de trigo do mundo e a Ucrânia ocupa a quarta posição. Juntas, são responsáveis pelas exportações de 30% do trigo global, 19% do milho e 80% do óleo de girassol.

Somente em 2021, segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), os russos produziram 88,9 milhões de toneladas de trigo, ficando atrás somente da União Europeia, China e Índia. Enquanto a Ucrânia foi o quinto maior produtor de trigo em 2021 com 29 milhões de toneladas.

Na última terça-feira (1º), o preço do trigo atingiu o valor mais alto dos últimos 14 anos. Os contratos com entrega em maio do trigo  tiveram elevação de 5,35% e estão cotados a US$ 9,84 (cerca de R$ 54) por bushel, que armazena entre 25 e 27kg. O milho teve alta de 5,06% e foi para US$ 7,25 (cerca de R$40), enquanto a soja subiu 2,55% e tem preço de US$ 16,78 (R$ 92) por bushel.

Os preços dos cereais já vinham em alta desde o ano passado por uma série de fatores: pandemia, aumento da demanda de bens, crise energética na Europa e aspectos climáticos.

O aumento de preços se deve à incerteza sobre a duração do conflito e a possibilidade de abastecimento do mercado. O período de plantio da safra de verão do trigo inicia neste mês de março, enquanto a colheita está prevista para julho. 

"Tudo vai depender do tempo que esse conflito vai se estender. A Rússia teoricamente terá a capacidade produtiva mantida, mas a Ucrânia corre o risco de não poder produzir e isso não vai beneficiar ninguém", analisa, em entrevista ao Brasil de Fato, o economista Francisco Pessoa.

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Se por um lado a guerra pode impedir a Ucrânia de plantar sua safra de trigo, as sanções impostas pelos Estados Unidos e União Europeia também podem impedir a Rússia de escoar sua produção.

"A Rússia vai enfrentar problemas até porque as duas maiores empresas de containers já suspenderam suas atividades no país, então há grande possibilidade de que a Rússia fique com trigo estocado e não consiga vender", observa o economista.


Meio Oriente pode ser a região mais afetada pela possível escassez do cereral; cerca de 85% do trigo consumido no Egito provem da Rússia e da Ucrânia / Khaled Desouki /AFP

Como retaliação à invasão da Ucrânia, a União Europeia e os Estados Unidos decidiram banir a Rússia do sistema SWIFT, plataforma de mensagens que conecta cerca de 70% das instituições financeiras em todo o planeta. 

"As sanções existem, mas também existe uma série de maneiras de triangular através de países não sancionados. E nessa triangulação o comprador paga mais barato, porque o país sancionado oferece seu produto com um bom desconto", comenta Francisco Pessoa.

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As regiões mais vulneráveis à possível escassez de cereais são Ásia Central, Oriente Médio e Norte da África. A Armênia, Mongólia, o Cazaquistão e o Azerbaijão abastecem praticamente toda a demanda nacional com o trigo vindo da Rússia. O Paquistão compra 47% da Ucrânia e 41% da Rússia, enquanto o Líbano compra 81%  do consumo nacional de trigo da Ucrânia e 15% dos russos. O Egito compra 60% do trigo que consome da Rússia e 25% da Ucrânia, a Turquia tem uma proporção similar: 66% das importações de trigo vem da Rússia e 10% da Ucrânia. Os dados são do balanço de 2020 da FAO.

"O que vemos é que as sanções não são suficientes para mudar regimes. Elas geram sofrimento para a população local e não a mudança de regime. O grande risco, pelo trigo ser um produto tão essencial na alimentação de muitos países, é o problema da fome", comenta Pessoa.

E o Brasil, que importa entre 6 a 7 milhões de toneladas de trigo por ano, o que corresponde a 50% do consumo nacional, também poderia ser afetado pela situação na Ucrânia com um aumento de preços em produtos básicos da mesa do consumidor.

Edição: Thales Schmidt