Cooperativismo

No 1º de Maio, conheça experiências de trabalho associativas e sem patrão

Do delivery na cidade à agroecologia no campo, coletivos se organizam para que o trabalho favoreça quem de fato o faz

Brasil de Fato | São Paulo (SP) |

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Os quatro fundadores da cooperativa de entregas com bicicletas (Naldinho à esquerda) - Raoni N. Dias

Naldinho Tranquilo, como é conhecido (“só minha mãe me chama de Ronaldo”), é de Jacarapaguá, Rio de Janeiro. Depois de terminar o mestrado em Filosofia em Porto Alegre (RS), voltou para a capital carioca e procurava um meio de ganhar dinheiro enquanto esperava ser chamado como professor concursado na rede de ensino estadual.  

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Marcita Amores também nasceu no Rio, mas ainda pequena foi para São Paulo. Costureira autodidata desde os 13 anos e estilista de formação, teve desde cedo a vida atravessada pelo cárcere, com familiares e amigos presos.  

Cristina dos Santos, economista paranaense, tinha quatro anos quando, em 1996, sua família — já militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) — se mudou para o Assentamento Santa Maria.  

Em comum entre os três, o fato de que desempenham atividades profissionais em cooperativas: experiências de trabalho associativas, autogestionadas e sem patrão.  

Naldinho integra a Ciclo Courier, cooperativa de entregadores ciclistas. Marcita faz parte da Libertas, cooperativa de costura voltada para o acolhimento e a autonomia de mulheres sobreviventes do sistema prisional. Cristina é da Cooperativa de Produção Agropecuária Vitória (Copavi), que trabalha coletivamente com leite, cana de açúcar e cultivo agroecológico. 

Nas três iniciativas as decisões são tomadas em assembleias e a remuneração pelo trabalho é igual para todas as pessoas associadas. 

Cooperativismo no Brasil  

No país existem 4.868 cooperativas, segundo dados levantados pela Organização de Cooperativas Brasileiras (OCB) e referentes às entidades a ela associadas em 2020. O Sudeste é a região que concentra a maior parte delas, com 756 em Minas Gerais e 614 em São Paulo.  

Com um aumento de 11% de 2019 para 2020, o último registro deu conta de pouco mais de 17 mil pessoas no Brasil trabalhando nessas iniciativas.  

O modelo surgiu durante o início da Revolução Industrial, em 1844, na cidade de Rochdale, região de Manchester, interior da Inglaterra. Como reação ao desemprego e os salários baixos, um grupo de 28 tecelões (27 homens e uma mulher) se juntou para comprar alimentos em grande quantidade a preços melhores e montou o próprio armazém. O lucro era dividido igualmente. Deu certo. 

Os princípios do coletivo inglês — entre os quais solidariedade, equidade e transparência — são considerados até hoje pilares do cooperativismo.  

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No Brasil, a primeira experiência similar que se tem registro aconteceu pouco tempo depois dessa, ainda sob a colonização portuguesa. Em 1889, em Minas Gerais, surgia a Cooperativa Econômica dos Funcionários Públicos de Ouro Preto, com foco na produção agrícola.  

Mas foi na segunda metade da década de 1980, com as crises econômicas do final da ditadura militar, a chamada reestruturação produtiva e a adoção de políticas neoliberais, que o cooperativismo ganhou mais força no Brasil. 

Costura para libertar

Marcita cresceu numa casa em que se falava de desigualdades e racismo, e viveu a tortura da cadeia enquanto familiar de pessoa presa. Mas foi num dia em que abriu uma revista e leu uma matéria sobre as condições das mulheres encarceradas que decidiu que era com isso que queria trabalhar.  

Por meio da Pastoral Carcerária, Marcita conheceu Geralda Ávila, que já atuava em defesa dos direitos de mulheres presas. Durante dois anos, emplacou um projeto de oficinas semanais de costura de calcinhas dentro do Centro de Progressão Penitenciária Feminino do Butantã e, a partir daí, surgiu a ideia. 

“Eu tinha muito essa coisa anticapitalista da gente poder ter autonomia, de não ter patrão. E a Geralda tinha muita angústia porque via as meninas saindo da prisão e voltando, a reincidência. Como uma mulher que sai da cadeia consegue emprego? É difícil”, conta Marcita. 

Ao longo do caminho, Bruna Cássia e Audrey Dorta se juntaram ao time de facilitadoras e em abril de 2019 surgiu a Libertas. Em processo organizativo, a cooperativa — que faz formações políticas e costura em tecido ecológico — está em Sapopemba, periferia da zona leste paulista.  


Imersão para estudo sobre Justiça Restaurativa entre Libertas, Pastoral Carcerária e outras sobreviventes do sistema prisional / Arquivo Libertas

“O estigma é enorme para uma mulher sobrevivente do cárcere. Então iniciativas como a da Libertas são uma necessidade. É trazer essas mulheres para junto, fortalecer, ser uma rede de apoio”, defende Marcita. 

“E, ao mesmo tempo denunciar a barbárie que é o sistema prisional. Mostrar para o mundo que não se trata de crime: se trata de racismo, de manutenção da ordem, sabe? Essa ordem que a gente sabe que é da exploração de tudo o que é vida. Da terra, dos corpos das mulheres, que é onde o sistema capitalista mantém suas estruturas”, complementa.

"Defendemos a diversidade no cultivo e nas relações humanas"

Paranacity, no noroeste paranaense, está numa região dominada pela monocultura e grandes usinas de cana de açúcar. Foi ali no meio que, em um território de 234 hectares conquistado pela luta para a reforma agrária, a família de Cristina e outras 21 resolveram criar, por meio de trabalho coletivo, outro tipo de experiência produtiva. 

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A Cooperativa de Produção Agropecuária Vitória (Copavi) se organiza em quatro setores produtivos. O da cana e derivados (que produz melado, açúcar mascavo e cachaça); o da pecuária (que inclui laticínios, produção de campo e aves); o de sustento (com lavoura e hortaliças); e o de apoio (com as atividades administrativas, sociais e da padaria). 


Alguns dos produtos comercializados pela Copavi, que tem certificado de produção agroecológica / Wellington Lenon / MST-PR

Cristina, que é mestre em Agroecologia e Desenvolvimento Rural Sustentável, atua agora como tesoureira da cooperativa. “Quando a gente pensa a cultura da cana de açúcar na história do Brasil, ela sempre foi ligada à exploração do trabalho e a destruição do meio ambiente”, afirma. 

“Aqui mostramos que é possível ressignificar isso com a estratégia da reforma agrária popular. A gente produz cana de açúcar respeitando o ambiente, de forma sustentável, dentro do nosso agro-ecossistema, tentando criar relações de trabalho e vida dignas para as pessoas envolvidas”.  


Cultivo agroecológico no Assentamento Santa Maria, do MST / Wellington Lenon / MST-PR

“A agroecologia e a cooperação têm um potencial muito grande de andarem juntas e se retro-alimentarem”, avalia. “Quando defendemos a diversidade, não é apenas de cultivo, mas também de pessoas”, defende Cristina, ao contar que dos cinco membros da diretoria da gestão 2020-2023 da cooperativa, três são mulheres.  

Entregas na bike 

Foi quando vivia em Porto Alegre fazendo sua Pós-Graduação que Naldinho começou a usar a bicicleta como meio de transporte. Ali também que conheceu a Pedal Express, experiência pioneira de cooperativa de entregadores de bike, fundada em 2010. Ficou com isso na cabeça. 

Quando voltou para o Rio de Janeiro, dois anos depois, se juntou com mais três amigos que gostam de pedalar e criaram a Ciclo Courier. Em 2012, contexto em que as plataformas digitais ainda não dominavam o setor de entregas, a cooperativa encontrou um nicho de mercado principalmente no transporte de documentos, requisitado por empresas que optam por uma via mais ecológica que a contratação de motoboys.  

Agora já completam uma década de existência e são cerca de 20 ciclistas. “A gente sempre conseguiu fazer uma relação muito justa de trabalho”, avalia Naldinho. “A gente ganha por comissão, cerca de 60% do valor da entrega. O restante é para pagar aluguel do espaço, internet, conta de luz”, expõe. 


Os primeiro quatro entregadores da Ciclo Courier, que tem sede no bairro da Glória, no Rio de Janeiro / Raoni N. Dias

Naldinho, que atualmente divide o trabalho entre entregas na bike e docência de filosofia para estudantes do ensino médio, ressalta o quanto aprecia a flexibilidade que a dinâmica na Ciclo permite.  

“A gente tem compromisso com o horário. Mas é diferente. Se você está numa empresa tradicional e na sexta-feira você tem outro compromisso, você não consegue negociar de ter folga”, ilustra. 

“Além dessas questões práticas do dia a dia, é muito melhor em termos de ganho”, afirma. “A gente sabe que trabalhando numa empresa você oferece muito mais do que recebe. Que é uma relação injusta”, argumenta Naldinho, ao sintetizar: “Nosso objetivo é fazer um tipo de trabalho que favorece quem de fato o faz”. 

Edição: Felipe Mendes