reflexão materna

Relato | Amamentação: tão particular e tão universal

"Relactação não é simples, exige paciência da parte minha e dela, e também ajuda de outras pessoas"

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG) |
Ah, e claro: ajude a defender o direito de amamentar em qualquer lugar, numa boa, porque já tem confusão demais nisso - Reprodução

Eu engravidei aos 38 anos, por decisão e vontade. Tive tempo e condições de pesquisar bastante, de me abrir para um mundo novo, que envolve mil vocabulários, conceitos, comunidades, frases repetidas, uma gramática particular que vou aprendendo aos poucos, ora com empolgação, ora com certa distância, confesso. Vivi o mundo das tentantes – os relatos, a torcida pelo tão esperado “positivo”. Depois, vivi o universo do primeiro trimestre de gestação, o segundo, o terceiro – a tal linguagem mágica das semanas que comentei no primeiro texto aqui da coluna.

Aí tem o gigante-mega capítulo do parto. Eu passei por alguns livros, vários perfis na internet, e me segurava sempre no seguinte pensamento: quero o que for melhor para mim e para a bebê. O que quer dizer, lógico, que quero um parto normal, a não ser que estejamos ali entre os 20% dos casos em que a cesárea salva vidas.

Eu sou do tipo racional, me baseio ainda no ideal iluminista de que a informação consciente nos ajuda a tomar melhores decisões. E no caso do parto faz sentido querer o normal, que é melhor para a recuperação da mãe e para a saúde imediata do neném. É um raciocínio que me parece até simples, mas talvez não seja, visto a indústria da cesárea e todos os males que ela pode causar, já que ela – a indústria – não está muito interessada nos direitos das mulheres e das crianças. Não só nesse caso, não só nesse público, indústrias de consumo não gostam muito de gente.

Tentei falar um pouco disso no texto "Será que existe parto normal?". Porque percebi que todo parto é intenso, transformador e único. E que quem teve um parto via cesárea também teve um parto com essas características, e que nem sempre as mulheres têm reais condições de escolha e de decisão de como querem lidar com esse momento.

O caso é que no universo da maternidade, além da ciência, dos fatos, da informação, tem também tantos componentes emocionais, de tantas esferas, que haja transdisciplinaridade e conhecimento holístico para dar conta. E cruzar tudo e chegar a denominadores que façam sentido pode ser uma tarefa mais árdua do que parece. Para mim, com certeza, tem sido.

Porque achar que gerar, dar à luz e aprender a manter vivo e saudável um novo ser é simplesmente uma questão de técnica e de cartilha, não dá certo. A gente fica em frangalhos. Mexe com certezas, com os sonhos (os literais mesmo, aqueles que produzem mil metáforas quando dormimos). A solidão ou barulho de muitas vozes o tempo todo. A insegurança e a sensação que é preciso dar conta. Nesse caso, não tem como correr nem por cinco minutos, nem cinco segundos, nem um segundo, enfim, a dependência total e absoluta do filhote. E também um tipo muito diferente de amor – aliás, deveria haver outra palavra para diferenciar mesmo –, de encantamento e de responsabilidade.

E eis que chegamos em outra seção gigante, com suas centenas de capítulos: a amamentação. Antes de contar um pouco da minha saga – vai que você se identifica ou lembra de alguém – dois comentários. Uma mulher puérpera está insegura ou muito doida e quase sempre as duas coisas. Se você quiser de fato ajudar, tente ouvi-la primeiro. Especialmente se o assunto for sensível como esse.

O outro comentário: parto do princípio de que todas estamos realmente fazendo nosso melhor. Ao contar um pouco da minha experiência, quero dividir para aprender junto, para doer menos, para lembrar que muitas vezes passamos por coisas parecidas. E que entendo que há outras variáveis, que cada história é uma e que tudo bem se a amamentação não foi o caminho para algumas ou se foi supersimples para outras.

A saga da amamentação

O roteiro de ouro deve ser: parto normal, bebê no peito, amamentação na primeira hora de vida, livre demanda daí em diante, aleitamento materno exclusivo até os seis meses, e, segundo a Organização Mundial da Saúde, manutenção da amamentação até os dois anos ou mais.

Assim como no parto, eu queria o melhor, racionalmente o melhor, ou seja, aleitamento materno exclusivo. E se existem mil perfis na internet, cursos, livros para os diversos assuntos ligados ao universo da parentalidade, aqui ainda existem profissões e ramificações de profissões (as consultoras em amamentação) destinadas a ajudar no roteiro que seria tão natural. O que mostra que não é tão natural assim. Aliás, já não somos naturais há um bom tempo. É claro que o instinto fica mais presente ao sermos tão mamíferos quanto no ato de dar de mamar, mas, eu ouvi mais relatos de pessoas com dificuldades do que aqueles em que tudo correu simplesmente 100%, beleza pura, mamão com açúcar.

Tem uma coisa aí. Tem um nó que ainda não entendi completamente e por isso venho aqui dividir a reflexão. Por um lado, é inegável o avanço na defesa do aleitamento materno, o incentivo que vem do SUS, das mensagens nas caixas de fórmula, nos mil perfis na internet e daí em diante. Por outro, por que é tão difícil, meu deus? E, no meu caso, não ajuda em nada um tipo de pressão que vem da outra esquina.

Pode ser polêmico o que vou falar, mas sinto que ficamos espremidas entre o discurso consumista, mercadológico e pragmático do combo cesárea-mamadeira-chupeta-fórmula – esquina um. E a outra esquina, que diz todo o poder está em mim, no meu corpo, no meu instinto, na minha natureza feminina que fica correndo com lobos. Que meu coração sabe o que é certo, sendo que meu coração, coitado, não sabe direito nem se é noite ou dia, tem que cuidar do meu corpo em recuperação, aprender a cuidar de outro corpinho e ainda lidar com a emoção de se apaixonar todos os dias pelo par de olhos mais lindos do mundo, os da minha filha.

Enfim, em linhas gerais minha saga. No dia seguinte ao nascimento da minha menina, ela foi internada na UTI, onde ficou longos sete dias. Ali ela tomou fórmula no copinho, apesar de eu sempre tentar garantir um pouco de amamentação antes. Teve alta com a recomendação de mamadeira. Eu sabia dos perigos da confusão de bicos, procurei ajuda e fiquei uns dias numa luta danada na técnica para ela voltar ao peito. Deu certo. Mas fiquei bem machucada, doeu pra danar, fiquei exausta. Mas pronto, voltamos à possibilidade de amamentar, ainda que não exclusivamente.

Então teve a maratona de ordenha – uma bombinha que fica sugando a mama por minutos ou horas para estimular a produção de leite. Teve indicações de remédios para esse fim – mas nenhum com eficácia comprovada, visto que não há remédio especificamente para aumento da produção de leite, apenas isso como efeito colateral. (Como pergunta minha amiga Dafne Melo, será que tem algo a ver com o machismo na indústria farmacêutica? Leiam o texto dela sobre a amamentação, me ajudou demais! Inclusive as indicações que ela deixa são boas demais)

Nesse tempo seguimos com a complementação com fórmula, dessa vez ministrada numa colher dosadora. Mas eu nunca desisti da amamentação, pois entendo que se há leite meu e se há condições de sugar dela, podemos conseguir. Procurei outras consultorias. Ouvi indicações que mais me pareceram conselhos, não tanto fatos. Afinal, a ordenha é indicada ou não? Existe baixa produção de leite? Sei que existe a pega correta do bebê – depois de sentir tanta dor, tenho certeza que existe a pega correta –, mas existe posição correta de eu segurar o bebê? Não ficar tensa é uma opção minha?

Fui também no banco de leite do SUS em BH, na maternidade Odete Valadares, onde fui muito respeitada e bem orientada. (Aliás, parêntesis: é preciso defender o SUS com unhas e dentes. Que sistema incrível, imagina com mais recursos!). Lá me passaram a técnica da relactação, que é uma maneira de dar a fórmula estimulando ainda a sucção (uma sonda fica acoplada no peito). Não é uma coisa muito simples, exige paciência da parte minha e dela, e também ajuda de outras pessoas, porque tem todo um aparato envolvido (copinhos, sondas, higienização etc.).

Agora, estamos ainda nessa luta, combinando o aleitamento materno com a fórmula na sondinha. Inclusive neste momento, em que ela se recupera dos desconfortos das vacinas dos dois meses. Essa é outra maravilha da amamentação, o aconchego que proporciona. Com isso não estou dizendo que não se formam vínculos de outra forma. Acho que precisamos sempre nos apoiar e entender os motivos e lutas de cada mãe. A mamadeira também salva, tenho a minha aqui de reserva e sei bem que cada história é uma história. Estamos todas – imagino – bem cansadas de julgamentos e, quando digo que amamentar tem muitos pontos positivos, é apenas isso que quero dizer.

Bom, compartilhei toda essa história para contar que não é fácil, mas que por aqui tem valido a pena. Se é seu caso também e você quer uma palavrinha de apoio, vamos juntas tentando. Se não é, e você foi por outro caminho e quer contar, escreve também.

E se você nem mãe é, aproveita esse relato para puxar assunto com alguma. Se abra para ouvir, para tentar entender e acolher. Falar sempre ajuda. Ouvidos atentos podem mudar uma história. Ah, e claro: ajude a defender o direito de amamentar em qualquer lugar, numa boa, porque já tem confusão demais nisso para a gente ainda ter que se preocupar com olhares tortos por aí.

Esta coluna está aberta a colaborações. Os textos podem ser enviados para [email protected]

Um abraço e até as próximas.

(Às vezes, me questiono qual o sentido destes textos, se estou me expondo demais. Mas acredito no potencial da conversa coletiva que este espaço pode conter, tanto na perspectiva de trazer os assuntos da parentalidade para um veículo de comunicação de esquerda, colocar o tema no meio de outros, na roda da conversa; como no sentimento de que outras pessoas que passam por coisas parecidas possam se sentir menos sozinhas e terem também vontade de partilhar. Enfim, talvez a necessidade deste parágrafo seja nula, mas me senti instada a justificar, como, aliás, é o que nós mulheres costumamos sentir em muitos aspectos. Mas aí é outro assunto, né?)

*Joana Tavares é jornalista, militante por um projeto popular para o Brasil e adora comunicação popular, boas perguntas e conversa fiada.

**Este é um artigo de opinião e a visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.

**Leia mais textos como este na coluna Parentalidades possíveis, do Brasil de Fato MG.

Edição: Larissa Costa