Bruno e Dom Phillips

Bolsonaro ofendeu Bruno Pereira e Dom Phillips ao falar em "aventura" e "malvisto"; relembre

Declarações feitas pelo presidente se adiantaram às investigações e questionaram trabalho de indigenista e jornalista

Brasil de Fato | Brasília (DF) |
“Você tem que entender que a Amazônia não é de vocês”, respondeu Bolsonaro ao ser questionado por Dom Phillips sobre o desmatamento, em 2019 - Marcos Corrêa/PR

O presidente Jair Bolsonaro (PL) fez uma série de declarações ofensivas ao indigenista Bruno Pereira e ao jornalista inglês Dom Phillips. Os dois sumiram no último domingo (5), na região do Vale do Javari, na Amazônia.

Nas últimas semanas, entidades, jornalistas, políticos e ativistas denunciaram as declarações do presidente. Em diversas falas, Bolsonaro tentou ponderar a comoção em torno das buscas por Bruno Pereira e Dom Phillips.

Em uma delas, se adiantou a investigações ao citar "indícios de maldade" antes de qualquer confirmação da PF. Leia, ao final desta reportagem, reações ao comportamento do presidente.

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Em entrevista ao SBT, na terça-feira passada (7), Bolsonaro definiu a viagem dos dois como uma "aventura não recomendada". A fala foi intensamente repudiada por organizações jornalísticas e indigenistas.

"Realmente, duas pessoas apenas num barco, numa região daquela completamente selvagem é uma aventura que não é recomendada que se faça. Tudo pode acontecer", afirmou.

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O relator especial para a Liberdade de Expressão da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), Pedro Vaca, se manifestou sobre a declaração nas redes sociais.

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e outras organizações dedicadas à defesa dos direitos da liberdade de expressão e de imprensa também se posicionaram sobre o tema.

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Na sexta-feira (11), nos Estados Unidos, onde foi para participar da Cúpula das Américas, Bolsonaro disse que as Forças Armadas e a Polícia Federal estariam se destacando na busca por Bruno Preira e Dom Phillips. No mesmo momento, organizações indígenas, como a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), denunciavam a falta de pessoal e proatividade nas buscas por parte do governo.

"Desde o último domingo, quando tivemos a informação de que dois cidadãos, um britânico, Dom Phillips, e o brasileiro Bruno Araújo [Pereira], desapareceram na região do Vale do Javari, as nossas Forças Armadas e a Polícia Federal têm se destacado na busca incansável para alcançar essas pessoas", afirmou, em pronunciamento em Los Angeles.

No sábado (12), disse que Bruno Pereira e Dom Phillips não teriam autorização da Fundação Nacional do Índio (Funai) para fazer a expedição. A informação, contudo, já foi desementida por servidores do órgão. "Eles, quando partiram, as informações que temos é que não foi acertado com a Funai. Acontece, né. As pessoas abusam, né", disse o presidente.

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De volta ao Brasil, na manhã de segunda (13), Bolsonaro se adiantou às informações oficiais da Polícia Federal ao citar, em entrevista, que via indícios de que o jornalista e o indigenista foram submetidos "a alguma maldade".

"Os indícios levam a crer que fizeram alguma maldade com eles, porque já foram encontrados boiando no rio vísceras humanas que já estão em Brasília para fazer DNA. Pelo prazo, pelo tempo já temos hoje, oito dias, indo para o nono dia, que isso aconteceu. Vai ser muito difícil encontrá-los com vida. Peço a Deus que isso aconteça", disse.

Na mesma data em que dois suspeitos teriam admitido o assassinato de Bruno Pereira e Dom Phillips, nesta quarta (15), o presidente fez um de seus mais duros ataques, direcionado, desta vez, especificamente ao jornalista inglês.

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"Esse inglês era mal visto na região, porque fazia muita matéria contra garimpeiros, questão ambiental, então, naquela região lá, que é bastante isolada, muita gente não gostava dele", disse Bolsonaro.

"Ele tinha que ter mais que redobrada atenção para consigo próprio e resolveu fazer uma excursão. A gente não sabe se alguém viu e foi atrás dele, lá tem pirata no rio, lá tem tudo que possa imaginar", acrescentou.

O chefe do Executivo também falou que Bruno e Dom deveriam andar armados na região. "É muito temerário você andar naquela região sem estar devidamente preparado fisicamente e também com armamento devidamente autorizado pela Funai, que pelo que parece não estavam."

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Leia algumas reações à fala do presidente:

Edição: Nicolau Soares