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Em meio à repressão policial, arte e solidariedade resistem e modificam vidas na "Cracolândia"

Coletivos passaram a ocupar o espaço deixado pelo Estado após o desmonte sistemático dos equipamentos de saúde e lazer

Brasil de Fato | São Paulo (SP) | |
Pagode na lata surgiu em 2017 e hoje gera renda para usuários - Luca Meola/@lucameola1977

“Hoje eu sou um músico, sempre fui músico, eles acreditaram em mim, eu toco cavaco, violão, baixo, teclado, tô dentro do time. Tenho o meu mensal, entendeu?”

Rogério Silva teve a oportunidade de "sonhar” depois de conhecer o Pagode na Lata. O barbeiro vive no chamado fluxo da Cracolândia, e estava nas operações recentes marcadas pela violência das forças do estado na região da Luz, centro de São Paulo (SP).

Em todas elas, o trabalhador perdeu seus instrumentos de trabalho, como tesouras e máquinas de barbear. O pagode é o que lhe dá renda para voltar a comprar tudo de novo.

“Os meus amigos são todos de dentro, tanto usuários, como todos os tipos de pessoa que cortam o cabelo lá. É minha profissão”, comenta.

Atualmente, além das rodas no fluxo, o grupo recebe convites para se apresentar em museus, instituições e centros culturais.  A iniciativa surgiu em 2017 como uma articulação entre usuários e ex-trabalhadores do território.

“Não consigo nem dizer que a gente estava levando cultura para o território, o que a gente fazia era basicamente levar os instrumentos. Todo mundo recebe de R$100 a R$150 reais por tocada. O pagode se estrutura assim, é um projeto de economia solidária com base na redução de danos”, pontua Raphael Escobar, um dos fundadores.

“É isso, né? Quando cê tá tocando, cê deixa o cachinho de lado. No máximo o cachimbo vai virar a baqueta de tamborim", completa o artista e educador social, que atuou no Programa de Braços Abertos.

Além do Pagode na Lata, outras iniciativas buscam dar vida e esperança a uma região que vive em constante cenário de guerra por conta das ações das polícias Militar (PM), Civil e da Guarda Civil Metropolitana (GCM).

São coletivos que passam a ocupar o espaço deixado pelo Estado após o desmonte sistemático dos equipamentos de saúde e lazer.

Birico

O Birico é um coletivo de 30 artistas de diversas linguagens e condições sociais. A proposta é gerar uma economia colaborativa por meio da venda de artes impressas em fine art e em formato de pôster.

Os recursos arrecadados vão para os próprios artistas e também são voltados para ações emergenciais desenvolvidas na Cracolândia.

“Nós não somos o estado, nós não queremos ser o estado, o que a gente tá fazendo de alguma forma é resistindo para que tudo que foi construído não seja destruído, né? E nesse sentido, nesse momento enquanto sociedade civil”, avalia João Leoci, fotógrafo e integrante do Coletivo.  

Os artistas e suas obras podem ser acessados por meio da página do projeto no Instagram , e o catálogo através deste site.

Protagonismo feminino

O Coletivo Tem Sentimento, por sua vez, foi criado em 2016. E com a força feminina. O intuito é gerar renda para mulheres cis e trans que vivem na região.

Através da costura e confecção de calcinhas, bolsas e camisetas, o coletivo de 11 mulheres consegue garantir uma sobrevivência financeira neste momento de crise.

Além disso, costuram voluntariamente para quem precisa. Rotineiramente, elas percorrem a região da Luz, doando máscaras e casulos, que é uma espécie de cama térmica voltada para quem vive em situação de rua.


Atuação do Coletivo Tem Sentimento é voltada para mulheres cis e trans que vivem no território / Luca Meola/@lucameola1977

"Hoje a gente tem uma sede, a gente não tá mais na rua, então a procura de ajuda aumenta. É isso que a gente sente nessa situação que está o território. A procura de ajuda aumenta e a gente não tem como ajudar essas pessoas”, explica Carmen Lopes de Almeida, que está desde o princípio na iniciativa.

Atualmente, todo o trabalho de Carmen é fundamentado no que desenvolveu na época em que o programa De Braços Abertos ainda estava em execução.

“O que atinge essa população é o entendimento a partir das políticas públicas. Então não tem como a gente também fantasiar. O que a gente faz é o que dá para fazer, mas a gente entende que a solução é através de política pública”, analisa Almeida.

Redução de danos 

Criado na gestão do ex-prefeito Fernando Haddad (PT), de 2013 a 2016, o programa instituiu a política de redução de danos, com o foco no controle do uso do crack e em ações de inserção social — como a oferta de cultura e a criação dos hotéis sociais.

Com a eleição de João Doria (PSDB), o norte passou a ser outro. Inaugurado com uma megaoperação policial, em 2017, o programa Redenção impôs aos usuários a medicação e a internação pela abstinência. 

“Com a chegada do Dória, daí passa para o Covas, agora Ricardo Nunes, vai tendo um desmonte desse serviço, desses projetos. O pagode é bem simbólico. A hora que a prefeitura demitiu todos os trabalhadores de um serviço, de diversos serviços, que faziam samba no fluxo, os trabalhadores falam ‘não vamos deixar de largar o pessoal aqui’. E as coisas hoje em dia são na raça, a gente vai inventando um jeito de estar aqui, de manter o que a gente construiu”, avalia Raphael Escobar, que também é um dos organizadores do Blocolândia, o bloco de carnaval do território.

Tortura coletiva

O cenário atual é a falta de continuidade de ambos os programas.  Nos primeiros meses da crise sanitária, a Prefeitura chegou a fechar a tenda do Atende, o único serviço municipal a oferecer água, comida e torneira para a lavagem das mãos na região da Luz.

Em entrevista recente ao Brasil de Fato, Daniel Mello, integrante do coletivo A Craco Resiste, que atua na região desde 2012 contra a violência do Estado, analisa que a violência é hoje a única política adotada na região. 


Homem recebe tiro de bomba de policiais, em flagrante feito pela Craco Resiste / Foto: Reprodução

“Vemos algo muito parecido com a chamada “Operação dor e sofrimento” aplicada ali em 2012 sob a gestão municipal do Gilberto Kassab, que você espalha as pessoas pela região em grupos, uma estratégia de tortura coletiva”, analisa. 

“As pessoas não podem ficar no mesmo lugar durante muito tempo. Não podem sentar, não conseguem receber alimentação de doação”, completa o ativista.

Laços rompidos

Desde o surgimento do território, em meados dos anos 1990, a imposição do terror como modo de ação contra os usuários tem sido historicamente usada no local — especialmente contra a população negra. 

Essas práticas surgem no berço das políticas antidrogas que tiveram suas bases na ditadura militar e que ganharam corpo com a eleição de Jair Bolsonaro (PL). 

É o que avalia Amanda Amparo, doutoranda da Universidade de São Paulo, que estuda a região desde 2014. 

“O que a gente encontra hoje no território da Luz é um território de guerra porque é um território de laços rompidos. Esses laços foram construídos com os moradores e com os profissionais. E de uma certa forma até com a dinâmica da segurança pública. Porque a segurança pública estava no território enquanto ele estava mais pacífico”, aponta.


A última edição do Blocolândia aconteceu em 2019 / Pedro Stropasolas

Para ela, pensar o território a partir do cuidado e da atenção é um caminho para construir a mudança. 

“Então ali em 2014 você tinha toda uma rede formada de atenção, de cultura, de cuidado, de promoção de redução de danos, que atuava e que isso ia garantindo uma relação destes profissionais com as pessoas que estavam no fluxo e também com o território que está de volta, todos os moradores dos prédios da casas. Essa relação era muito bacana, porque as pessoas conseguiam interagir.”

“Então tinha então tinha cinema, então tinha teatro, tudo isso promovido ali mais dentro do circuito do fluxo mas que também abarcava os moradores, muitos moradores desciam para um pouco comungar dessa relação, né? E o que que a gente tem de neste momento. Há muitos usuários falando da redução deles do uso, por exemplo, da pedra”, pontua a pesquisadora. 


O psiquiatra Flávio Falconi, palhaço-médico, atuou no programa De Braços Abertos e no Recomeço. Hoje, ainda permanece no território / Luca Meola/@lucameola1977

Ajuda emergencial continua

Atualmente, os coletivos de arte e cultura se reúnem no espaço do Teatro Mungunzá, onde organizam as ações e distribuem marmitas diariamente, além de máscaras e kits de higiene. 

A ideia é continuar a oferecer itens básicos de sobrevivência como foi feito nos meses mais duros da pandemia.

“Esse lugar aqui, esse container, essas pessoas, assistentes sociais, Birico. Todo esse trabalho aí é magnífico, é sobrenatural, é redução de danos, entendeu? O fato de eu saber que eu ainda não uso, eu não sou discriminado, entendeu? Eu sou aceito e sou feliz, entendeu? Eu me aceito do jeito que eu sou, e ninguém, não é Birico que vai me obrigar a parar, não é ninguém, é o amor que eles estão vivendo por mim”, finaliza Rogério Silva.

Edição: Thales Schmidt