Direto da Terra

Muito além do consumo: há 28 anos agricultor e consumidor dialogam sobre alimentação saudável

A Feira Ecológica Menino Deus em Porto Alegre oferece alimentos a preço justo e sem agrotóxicos

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Feiras orgânicas promovem comercialização direta com a agricultura familiar - Divulgação Feira Ecológica Menino Deus
Diálogo entre quem planta e quem consome é fundamental para superar o alimento só como mercadoria

As feiras são espaços históricos de troca e diálogo entre o campo e a cidade. É lá que o consumidor sabe de onde vem os alimentos, a sazonalidade de cada fruta, legume ou hortaliça, onde ele consegue um preço justo e pode fazer a compra direta, sem intermediários. 

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Nas últimas décadas cresceram no Brasil as feiras orgânicas, agroecológicas e ecológicas.  De acordo com o Mapa das Feiras Orgânicas do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), existem no Brasil 846 feiras orgânicas ou agroecológicas. 

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Segundo Laércio Meirelles, integrante do núcleo executivo da Articulação Nacional de Agroecologia, quando há essa aproximação entre quem produz e quem consome, um passa a compreender melhor a realidade do outro, valorizando o trabalho e os desafios envolvidos na produção e no consumo de alimentos. 

“Nesse encontro o agricultor estende a sua mesa ao consumidor, que é uma característica da família agricultora ecologista que vende o que ela consome. Tem consumidores que frequentam a feira desde o início dela e estabelecem esse diálogo entre quem planta e quem consome durante anos e isso é fundamental para superar esse modelo de distribuição em que o alimento é só uma mercadoria”. 


Caminhando lado a lado com o movimento agroecológico desde 1980, as feiras agroecológicas tem crescido e cumprindo um papel essencial na segurança alimentar e nutricional da população. / Divulgação Feira Menino Deus

O agrônomo ressalta que, ao frequentar uma feira ecológica ou agroecológica, por exemplo, o consumidor não compra apenas o alimento sem agrotóxico, mas também incentiva a continuidade de um modelo de produção que tem como característica o cuidado com a terra e o meio ambiente, geração de renda para pequenas famílias agricultoras e também saúde.

“Isso vai fazendo com que os consumidores ampliem a sua percepção sobre a origem dos alimentos e sobre a importância de quem produz do alimento que chega à sua mesa. Sem essa aproximação fica difícil a percepção do consumidor sobre a realidade da família agricultora. 

::Cerca de 80% dos alimentos agroecológicos chegam até feiras, supermercados e escolas::

Um dos exemplos é a Feira Ecológica do Menino Deus, em Porto Alegre, que completa 28 anos neste ano. Laércio é um dos frequentadores e escreveu dois livros - Vozes da Agricultura Ecológica II e II - que trazem a história de 35 famílias agricultores e também das feiras agroecológicas de Porto Alegre. 

A Feira Ecológica Menino Deus nasceu em 1994 ainda com lonas de caminhoneiro, com madeiras doadas. A apicultora Claudia Bos Wolff engenheira agrônoma agroecologista é uma das fundadoras da iniciativa. 

“Quando nós começamos com a Feira de Agricultores Ecologistas (FAE) e Cooperativa Ecológica Coolméia que já buscava expandir o conhecimento e a agricultura ecológica, porque no início eram poucos produtores. Além disso, a ideia de criação da Ecológica Menino Deus tinha também a intenção de criar novos espaços de comercialização para os produtores venderem a sua produção”, conta.

Em 2001, foi construída uma cobertura multiuso em substituição às lonas que protegiam o espaço da Feira Menino Deus. Hoje o local foi ampliado e reúne 500 famílias agricultoras com 53 bancas nos dois dias de feiras, às quartas e aos sábados.

A feira funciona em um galpão o que possibilita o seu funcionamento mesmo em dias de chuva. Os alimentos são cultivados na região rural e interior do Rio Grande do Sul como a Serra, Litoral Norte, Vale dos Sinos, Vale do Caí e Região Metropolitana. 


Com quase três décadas de existência, os produtores se organizam em associações e cooperativas de diversas regiões, incluindo Serra, Litoral Norte, Vale dos Sinos, Vale do Caí e Região Metropolitana. / Divulgação Feira Menino Deus

Claudia, também apicultora, tem uma produção de mel e própolis, além de ovos orgânicos. Ela explica que a feira é um espaço de troca, de outras formas possíveis de comercialização e o consumidor pode compreender alguns aspectos, como por exemplo, o impacto do clima e a sazonalidade dos alimentos. 

Além disso, segundo ela, a feira ecológica viabiliza o comércio das famílias agricultoras, oferecendo ao consumidor uma variedade maior de produtos direto da terra. 

“Na feira a comercialização é diferente dos supermercados em que o produtor precisa ter uma grande produção de um só tipo de alimento, o que acaba virando uma monocultura, que é o contrário do que acreditamos", afirma.

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Cláudia salienta que é necessário manter a agrobiodiversidade, ou seja, ter diferentes tipos de cultivo, evitando doenças e pragas, comuns à monocultura. 

O agricultor ecologista e feirante Mauri Fernandes Martins, 51 anos, participa da Feira Menino Deus desde a sua criação. Para além da geração de renda, ele entende que é importante oferecer qualidade de vida aos consumidores ao vender frutas como banana, goiaba e morango 100% orgânicos.

Ele ressalta que as feiras ajudam o consumidor a ter mais consciência sobre o alimento. “Tem gente que não sabe como é plantada a banana porque só vê a prateleira e nem o leite, não sabe que vem a vaca, por exemplo. O pessoal fica admirado quando a gente conta que a banana leva dois anos desde o plantio até a colheita, a gente fica pasmo, mas acontece”. 

::Café agroecológico é saudável, sustentável e proporciona autonomia para quem produz::

Apesar dos preços dos alimentos orgânicos nestas feiras serem mais baixos que nos supermercados, Mauri conta que notou nos últimos meses uma queda nas vendas, principalmente para as famílias de baixa renda, que deixaram de consumir por conta da situação econômica do país. 

“No início da pandemia até que foi empolgante, houve um impulso e um aumento nas rendas e logo em seguida caíram as vendas até 40% por conta da inflação e nosso público alvo é a classe média baixa”, diz o feirante.

As feiras orgânicas ou ecológicas também valorizam as produções locais e ainda estimulam a conservação da natureza por meio do modelo de produção agroecológico.

Edição: Douglas Matos