DESINFORMAÇÃO

Site bolsonarista espalha fake news na Amazônia e tem ligação com aliado de Bolsonaro

Portal de extrema-direita é financiado por plataforma que teve Terça Livre e Eduardo Bolsonaro como clientes

Brasil de Fato | Lábrea (AM) |

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Fundador do site trabalhou para ex-governador bolsonarista Mauro Carlesse (foto), do Tocantins - Governo do Tocantins

A população da Amazônia está exposta a uma organização especializada em divulgar notícias falsas e discurso de ódio em apoio ao presidente Jair Bolsonaro (PL) e à extrema direita. O site Novo Norte teve média de 2 milhões de acessos entre abril e junho deste ano e tem intensificado a divulgação de desinformação durante o período eleitoral. 

O Novo Norte é um dos três sites com maior número de acessos e que se autoidentificam como jornalísticos e propagam fake news na região Norte do país. Sua atuação foi identificada, estudada e revelada pelo Grupo de Trabalho (GT) de Combate à Desinformação e Discurso de Ódio na Amazônia Legal, uma iniciativa do coletivo Intervozes

Segundo o GT, os textos produzidos pelo Novo Norte são normalmente curtos, conspiratórios ou reproduzem declarações do presidente Jair Bolsonaro e aliados. Em um deles, o presidente acusa o Partido dos Trabalhadores de apoiar a pedofilia. 

Outra publicação noticia as orações de Michelle Bolsonaro para "salvar o Brasil do comunismo". Há também acusações sem provas a respeito da atuação de ONGs na Amazônia.

Fundador trabalhou para ex-governador bolsonarista

Os conteúdos do Novo Norte são assinados por "redação" ou por "Pablo Carvalho". Segundo o GT composto pelo Intervozes, Pablo Fernando de Carvalho é o fundador do site. Ele foi assessor especial do ex-governador de Tocantins, Mauro Carlesse (DEM), aliado de Bolsonaro.

Carlesse foi afastado do cargo pela Justiça e renunciou antes da votação na Assembleia Legislativa que poderia terminar em impeachment. Ele foi acusado de receber propina com o desvio de verbas do plano de saúde dos servidores estaduais, prática negada por Carlesse.  

De acordo com levantamento do GT e do Netlab (UFRJ), o Novo Norte já foi registrado em nome de outra funcionária do governo do Tocantins, Alessandra Leite, assessora na secretaria de educação. A reportagem não localizou o contato de Alessandra. 

Financiadora em comum com família Bolsonaro 

Uma das fontes de financiamento do Novo Norte é a Eduzz, que coleta assinaturas para o site. A empresa se identifica como uma "potencializadora de talentos", oferecendo ferramentas para aumentar o engajamento, clientes e divulgação de conteúdos.

Entre os clientes da Eduzz estão Eduardo Bolsonaro e o extinto Terça Livre, canal mantido pelo bolsonarista Allan dos Santos, que fugiu para os Estados Unidos após ter a prisão decretada no âmbito do inquérito das fake news no STF. 

A receita do Novo Norte também vem dos anúncios chamados programáticos, que funcionam de forma automatizada, sem exigir negociação direta entre o site e o anunciante. 

Site defendeu Bolsonaro durante pandemia 

Criado em 2019, o Novo Norte alcançou audiência superior a seis dígitos quatro meses após entrar no ar. A distribuição do conteúdo é feita principalmente pelo Whatsapp. O site tem contas no Facebook e Instagram, mas o número de seguidores não é compatível com a audiência, indicando que a maioria dos acessos é obtido por meio de aplicativos de conversa. 

O portal veicula conteúdo próprio e textos produzidos por outros sites de desinformação. Entre eles está o jornal A Cidade Online, já investigado por produzir fake news favorável a Bolsonaro. 

Ao longo da pandemia de coronavírus, o site propagou conteúdo com objetivo de blindar o governo federal das críticas recebidas pela atuação durante a crise sanitária. Defendeu ainda medicamentos e tratamentos comprovadamente ineficazes no combate à covid-19, como a cloroquina.

Tentativa de desmonetização 

No dia 5 de setembro, Dia da Amazônia, o Intervozes e o GT de Combate à Desinformação na Amazônia Legal notificaram o Novo Norte e a Eduzz. A notificação, que se baseia nos próprios termos de uso da empresa de viabilização de assinaturas, alerta que o Portal Novo Norte tem descumprido suas próprias diretrizes e propagado conteúdos desinformativos, discurso de ódio, calúnia e difamação.

A ação, além de cobrar a suspensão do serviço, reivindica também responsabilidade da empresa devido ao apoio à propagação de conteúdos nocivos à democracia, sobretudo em ano eleitoral, e que sejam responsáveis sobre sua cartela de clientes.

O GT identificou até agora 70 sites e blogs desinformativos, agrupados em veículos jornalísticos, movimentos sociais de direita e perfis de figuras públicas.

Outro lado

O Brasil de Fato procurou o portal Novo Norte, a Eduzz e o ex-governador Mauro Carlesse, mas não obteve resposta até a publicação desta matéria. 

Edição: Thalita Pires