Setembro Amarelo

Pandemia agravou um quadro já crítico de ansiedade e depressão no Brasil e no mundo

A afirmação é do coordenador da pesquisa desenvolvida pela UFPEL que busca identificar os efeitos indiretos da pandemia

Brasil de Fato | Porto Alegre (RS) |
Estudos mostram que as pessoas relataram mais sintomas de ansiedade e depressão especialmente na fase mais aguda da pandemia - Foto: Anthony Tran/Unsplash

Desde 2020 a Universidade Federal de Pelotas (UFPel), através de um estudo coordenado pela Escola Superior de Educação Física (Esef), busca abordar a saúde mental e física da população adulta do Rio Grande do Sul no contexto de pandemia. Inicialmente previsto em três etapas, devido a chegada da vacina, mais três coletas de dados foram incluídas no programa. A quarta etapa recentemente foi concluída restando mais duas etapas, uma em 2023 e outra em 2024.

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De acordo com os resultados obtidos até o momento, no período pré-pandemia, os resultados do estudo indicam que a prática de alguma atividade física estava na rotina de cerca de 70% da população adulta do Rio Grande do Sul. No entanto, as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), 30 minutos diários ou 150 semanais, alcançavam 40% desse público, percentual considerado insuficiente. Com a pandemia, o início das medidas restritivas provocou queda nesses números em aproximadamente 50%. Após, com as flexibilizações ao distanciamento social, recuperam-se os índices, mas sem alcançar o período anterior à pandemia. 

Em entrevista ao Brasil de Fato RS, o coordenador da pesquisa, Eduardo Caputo, aponta que, de forma similar, os indicadores de ansiedade e depressão aumentaram de forma significativa, nos meses iniciais, apresentando uma queda ao longo da pandemia. “Porém, tal queda ainda inspira preocupações, tendo em vista que os valores seguem mais altos que os de pré-pandemia”, frisa. 

Atualmente, o prognóstico da pesquisa é de que a prática de atividade física segue deficitária, o que implica em diversos prejuízos à saúde: “A prática segue insuficiente no Rio Grande e isso é preocupante. Quem faz política pública precisa estar atento. Quanto pior o cenário, maior a carga sobre o serviço de saúde”, alerta o coordenador. 

Confira a entrevista

Brasil de Fato RS - Gostaria que o senhor começasse falando da pesquisa sobre os efeitos indiretos da pandemia. O que motivou? Quais são esses efeitos? Que impactos eles trazem para a vida dessas pessoas?

Eduardo Caputo - As motivações para esse estudo se encontram relacionadas aos desafios e mudanças que a pandemia da covid-19 impôs na vida das pessoas. Quando iniciamos a primeira coleta de dados, não havia expectativa de suspensão das medidas de restrição social, vacinas, etc. Dessa forma, era possível imaginar que os impactos indiretos da pandemia na saúde da população seria de médio a longo prazo. Inatividade física, problemas de saúde mental (ansiedade e depressão), dor lombar e dificuldades no acesso a serviços de saúde, já eram problemas enfrentados pela população no pré-pandemia. Contudo, as medidas de restrição e a recessão econômica, entre outros fatores de vida diária, afetaram esses indicadores de forma negativa.

BdFRS - Como a pandemia acentuou esses efeitos?

Eduardo - Inicialmente, é importante deixar claro que as medidas de restrição social foram de extrema importância. Sua prática é baseada em evidências científicas, indicando que são necessárias para frear a propagação do vírus. Contudo, como outras intervenções em saúde, essa não é livre de efeitos colaterais. As pessoas foram pegas de surpresa, por um vírus de propagação rápida, e de repente tiveram que passar mais tempo em casa. Adiciona-se a isso os medos e as incertezas do futuro com relação ao cenário pandêmico, e isso acaba desencadeando em problemas indiretos de saúde, ou seja, sem relação direta com a infecção por covid-19.

BdFRS - A pesquisa está em sua quarta etapa, quais os resultados obtidos até o momento?

Eduardo - Ao longo da pandemia foi possível observar que alguns indicadores oscilaram. Atividade física, por exemplo, apresentou uma queda nos primeiros meses. Contudo, conforme as medidas foram sendo suspensas, foi observado um aumento, mas ainda distante dos valores pré-pandemia, que já eram baixos. 

De forma similar, os indicadores de ansiedade e depressão aumentaram de forma significativa, nos meses iniciais, apresentando uma queda ao longo da pandemia. Porém, tal queda ainda inspira preocupações, tendo em vista que os valores seguem mais altos que os de pré-pandemia. Com relação a dor lombar, observamos uma estabilidade nos valores de prevalência, porém aumentos importantes na intensidade da dor e na incapacidade gerada pela mesma.

BdFRS - Setembro é o mês da prevenção do suicídio. Com base na pesquisa realizada até o momento, é possível fazer um panorama de como a pandemia afetou a saúde mental?

Eduardo - A pandemia de fato agravou um quadro já crítico de alta prevalência de ansiedade e depressão no Brasil e no mundo. Estudos mostram que as pessoas relataram mais sintomas de ansiedade e depressão especialmente na fase mais aguda da pandemia. No entanto, evidências recentes apontam um declínio desses sintomas. 

Por outro lado, pessoas que viviam com alguma doença crônica como depressão tiveram acesso aos serviços de saúde comprometidos durante a pandemia, o que dificultou o manejo da doença. Desta forma, garantir acesso a atendimento e medicamentos para essas pessoas é crucial, especialmente depois de um longo período com esse acesso prejudicado.

As consequências da pandemia nessa população podem ser mitigadas se estratégias de cuidado e tratamento foram amplamente disponibilizadas. Por fim, os achados da Coorte Pampa refutam a hipótese de que pessoas que ficaram em casa teriam maiores sintomas depressivos e de ansiedade do que aquelas que não seguiram as recomendações para ficar em casa durante os primeiros meses da pandemia. 


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Fonte: BdF Rio Grande do Sul

Edição: Katia Marko