VIDA DAS MULHERES

Artigo | Nossa vida de volta

Com Bolsonaro, as mulheres voltaram a ser os demônios do passado, um quase nada, aquelas que podem ir às fogueiras

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Na última década, país se tornou palco de frequentes protestos envolvendo mulheres que levam pauta feminista às ruas | Crédito: Mídia Ninja

A poucos dias da eleição de nossas vidas e que pode trazer de volta a democracia, as mulheres brasileiras olham para trás, para o presente e para frente.

São três tempos em duas décadas: a primeira marcada pela construção do arcabouço de políticas para a igualdade fruto das lutas históricas, quando avançamos no reconhecimento como parte da cidadania; a segunda manchada pelos impactos de um golpe contra a primeira mulher presidenta do país, a destruição de direitos, e que se mantém até o momento, assombrando nossas vidas com perdas, a insegurança econômica e social, o ódio e o feminicídio; e o futuro.

Nunca foi fácil para as mulheres, mesmo nos tempos de maiores conquistas. Pois as desigualdades no Brasil têm raízes de classe, são patriarcais e racistas, se entrecruzam numa difícil trama a ser desfeita. Há um sistema simbólico em permanente disputa, que ora nos empurra para frente e ora para o passado.

Mesmo assim, e convivendo com isso, a partir de 1988, se reconheceu a violência baseada no gênero, as diferenças salariais, educacionais e de oportunidades no mundo do trabalho. Uma série de medidas para reduzir o descompasso nos espaços de poder e de decisão, algo que persiste e é uma barreira para a igualdade.

São nos governos democráticos a partir deste milênio, que os movimentos populares de mulheres e feministas acessam lugar de protagonismo. Legislações, políticas públicas, mecanismos de gestão e participação e até mesmo os orçamentos para que essa engrenagem funcione.

No entanto foi na esfera simbólica que se situou, na percepção de muitas feministas, o campo da maior disputa: a ideia de que as mulheres pertencem ao mundo e que o mundo também lhes pertence; a divisão das esferas pública e privada como uma invenção a ser explodida; nossos corpos nos pertencem, por eles decidimos e não podem ser violados. Disputa só possível nas sociedades mais democráticas. O fascismo é imposição do ódio e do silêncio.

Quando a tônica do discurso público é a demonização das mulheres, sua restrição ao espaço privado e sua admissão ao público condicionada à defesa do dominante, enquadrando-as na estrutura da família patriarcal, desmontando as estruturas das políticas públicas e esvaziando os espaços de poder da presença das mulheres, destrói-se não só o arcabouço, mas também o imaginário e a narrativa.

Além de termos perdido, com Bolsonaro, os direitos sociais, os empregos, as vidas na pandemia, a educação, a segurança alimentar, as políticas para enfrentar a violência, voltamos a ser os demônios do passado, um quase nada, aquelas que podem ir às fogueiras, que são culpadas pelos próprios sofrimentos e violações, incapazes do pensar, do agir e do produzir. Para as mulheres, armas apontadas e o abandono.

O que podemos ganhar com a democracia? A vida de volta.

* Jornalista e cientista política.

** Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Editado por: Katia Marko

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