INVASÕES AUMENTAM

Funai tenta impedir retomada da vigilância indígena no Vale do Javari, diz Univaja

Organização indígena apresentou novo coordenador que dará continuidade ao trabalho de Bruno Pereira, morto em junho

Brasil de Fato | Lábrea (AM) |

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Integrante da Univaja durante buscas por Dom e Phillips no Vale do Javari - João Laet/AFP

A União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) anunciou nesta terça-feira (25) a retomada dos trabalhos da Equipe de Vigilância da Univaja (EVU). O novo coordenador da EVU é o geógrafo e indigenista Carlos Travassos, que atua há 15 anos com povos isolados e de recente contato.

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Travassos era amigo do último coordenador da EVU, o indigenista Bruno Pereira, assassinado em junho deste ano junto com o jornalista britânico Dom Phillips. Os crimes foram cometidos por integrantes de uma quadrilha especializada na pesca ilegal na Terra Indígena (TI) Vale do Javari.

A retomada dos trabalhos da EVU foi anunciada em entrevista coletiva do procurador jurídico da Univaja, Eliésio Marubo. Ele afirmou que Fundação Nacional do Índio (Funai) tem tentado impedir a entrada das equipes de monitoramento da Univaja no território indígena. 

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"Identificamos três quadrilhas atuando nas proximidades de onde Bruno foi assassinado. Alguns deles são familiares dos algozes de Bruno e Dom. É exatamente esse tipo de delito que a Funai não quer que seja apresentado à sociedade", denunciou Marubo.

Marubo destacou que o desmonte da Funai promovido pelo governo Bolsonaro estimula a atuação dos invasores. "Vamos continuar com as atividades querendo a Funai ou não. [A Terra Indígena] é a nossa casa. Vamos continuar entrando, e a Funai não vai poder nos impedir", declarou o procurador da Univaja.

O Brasil de Fato aguarda resposta da Funai. 

Quem é novo coordenador da EVU

Carlos Travassos, que assume a coordenação da EVU no lugar de Bruno Pereira, tem 42 anos e atuava até recentemente no Maranhão junto aos Guardiões da Floresta, grupo de fiscalização formado por indígenas que lutam contra a invasão de madeireiros na TI Araribóia, habitada por indígenas Guajajara e Awá-Guajá.

"Para mim é uma honra assumir esse convite da Univaja", afirmou Travassos. "É um trabalho fundamental desenvolvido no momento em que as políticas públicas de proteção da Amazônia foram bloqueadas", acrescentou.

Travassos testemunhou o avanço do crime ambiental no Vale do Javari entre 2007 e 2009, quando atuou como auxiliar da coordenação da Frente de Proteção Etnoambiental da Funai no Vale do Javari. Depois, assumiu a Coordenação Geral de Índios Isolados e de Recente Contato (CGIIRC) do órgão indigenista.

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"O assassinato de Bruno foi claramente uma estratégia premeditada como forma de tentar desmobilizar essa agenda indígena de autodefesa do seu território, de denúncia das ações que estão ocorrendo", disse na entrevista coletiva.

Entenda o trabalho de vigilância da Univaja 

O papel da Equipe de Vigilância da Univaja (EVU) é levantar dados sobre a movimentação das quadrilhas e abastecer as autoridades federais com informações qualificadas, viabilizando e otimizando operações de fiscalização dos órgãos estatais.

Composta majoritariamente por indígenas da região, a EVU foi criada em 2021 com objetivo de conter o aumento das invasões de quadrilhas armadas especializadas em saquear os recursos naturais dos indígenas, como o pirarucu e o tracajá (espécie de tartaruga).

Edição: Nicolau Soares