INTEGRAÇÃO

Com "produção, inclusão e sustentabilidade", Cepal aprova plano econômico para América Latina

Lítio é destaque na elaboração de politica regional; Argentina assume presidência rotativa e defende multilateralismo

Brasil de Fato | São Paulo (SP) |
Argentina assume presidência da Comissão Econômica para América Latina e Caribe (CEPAL) pelos próximos dois anos - CEPAL

A Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal) aprovou um novo plano de desenvolvimento econômico para a região com foco na produção, inclusão e sustentabilidade. O 39º período de sessões da Cepal encerrou nesta quarta-feira (26) em Buenos Aires com a participação de 630 representantes de 33 países membro da Comissão, assim como chanceleres e representantes das Nações Unidas.

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O documento de 304 páginas analisa o cenário econômico global, identificando que o retorno da inflação é um fenômeno mundial. Nesse contexto, outro destaque é que a América Latina enfrenta um processo de desindustrialização prematura. A variação da produtividade e do emprego na América Latina teve uma variação quase nula entre 2005 e 2019, na contramão de outras regiões como a Ásia, que chegou a ter um crescimento de 40% na produtividade. 

Na América Latina, a taxa de crescimento do PIB regional per capita passou de 2,4% entre 1980 e 1990 para 1,8% em 2021. Da mesma forma, a taxa de exportação de bens e serviços caiu de 6,1% em 2010 para 5,2% em 2020.

O desemprego também é uma realidade em toda a região, com uma taxa de 11,5% de desocupação entre as mulheres e 8% entre os homens. Cerca de 70% dos postos de trabalho criados nos dois últimos anos são no setor informal, que em 12 países emprega 50,4% da população.

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O lítio como fator importante

O documento da Cepal também identifica a emergência climática como um fator decisivo para pensar um novo plano de desenvolvimento da indústria e da agricultura sustentável. 

Um ponto de destaque na agenda da organização é a proposta de integração de várias etapas para industrializar a cadeia do lítio localmente, potencializando a extração no Triângulo do Lítio (em Argentina, Bolívia e Chile) e desenvolvendo a indústria automobilística do Brasil e México para oferecer protótipos de carros e ônibus elétricos. A América Latina concentra 51,3% das reservas globais do mineral.

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A demanda global por lítio deve aumentar 22,5% entre 2020 e 2030, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE). De acordo com as previsões da Cepal, até 2025, a venda de automóveis elétricos deverá representar 23% do total de exportações da indústria automobilística.

O secretário executivo da Comissão regional, o costarriquense José Manuel Salazar-Xirinachs, salientou que o processo de globalização vivido nos últimos 30 anos parece ter se encerrado. Agora o mundo caminharia para a consolidação de uma geopolítica do regionalismos. 

"É importante que os países da América Latina e Caribe trabalhem em conjunto por um sistema multilateral robusto. Nossa convicção é que o objetivo compartilhado desta época pós-pandemia e para 2023 não pode ser apenas acabar com os danos causados pela covid-19 e reativar a economia. É momento para que os países cumpram seu legítimo sonho de ser socialmente inclusivos", ressaltou o secretário executivo da Cepal. 

O encontro foi presidido pelo ministro de Relações Exteriores da Argentina, Santiago Cafiero, que assume a presidência da Cepal pelos próximos dois anos. "Ninguém se salva sozinho", disse o chanceler argentino sobre os objetivos de fortalecer o diálogo e a integração na América Latina e Caribe.

Já Costa Rica, Cuba, Jamaica e Peru assumem as vice-presidências da Cepal no período 2022-2024 e a próxima sessão bienal será realizada em Lima, em 2024. O chanceler peruano, Cesar Landar, destacou que a maior tarefa para os próximos dois anos é fortalecer as instituições dentro de um novo plano internacional de cooperação.

"Brasil tem clara a importância de manter forte o multilateralismo. Mais que apontar a uma refundação da cooperação internacional, o que necessitamos agora é uma cooperação efetiva", disse o ministro de Relações Exteriores, Fernando Meirelles de Azevedo Pimentel.

"Contem com a Cepal para seguir refletindo sobre estratégias regionais de saúde desta crise, para a busca de consensos transformadores para o desenho de políticas públicas e para a rápida implementação da Agenda 2030 sobre o desenvolvimento sustentável", disse o atual secretário executivo, Salazar-Xirinachs, ao final da reunião.

A tônica dos discursos foi a integração da região para uma inserção na geopolítica global como um bloco. "A aposta do governo do presidente Gustavo Petro é a reinserção, tanto política como socioeconômica, na América Latina. Nossa visão de sociedade é de paz total, mas a paz não é possível sem desenvolvimento sustentável", disse a vice-ministra de Relações Exteriores da Colômbia, Laura Gil. 

A Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal) foi criada em 1948, após a Segunda Guerra Mundial, com a proposta de gerar projetos de integração e desenvolvimento econômico regional.

Edição: Arturo Hartmann