discurso histórico

Três anos de Lula livre: veja o que o presidente eleito falou ao deixar prisão em Curitiba

Petista falou para integrantes da vigília Lula Livre e, no dia seguinte, discursou no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC

Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ) |

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Ao lado da hoje esposa Janja, de aliados e militantes, Lula posa após deixar a sede da Polícia Federal em Curitiba há exatos três anos - Gibran Mendes

Há exatos três anos, em 8 de novembro de 2019, o ex-presidente e agora presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva deixava a sede da Polícia Federal em Curitiba após 580 dias preso, beneficiado por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que derrubou a prisão de condenados em segunda instância.

Ao sair, fez um rápido pronunciamento em que agradeceu o apoio dos integrantes da Vigília Lula Livre, que o acompanharam durante todo o tempo de encarceramento. No dia seguinte, fez um discurso histórico na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo (SP). O Brasil de Fato relembra trechos da fala do agora presidente eleito. Na ocasião, ele sequer era elegível.

Leia aqui a íntegra do discurso na sede do Sindicato.

Moro e Dallagnol

Lula dedicou parte de seu discurso ao ex-juiz Sérgio Moro e ao então procurador da república Deltan Dallagnol, integrantes da operação Lava Jato. Desde que foi decretada a prisão, ele decidiu que não fugiria para o exterior e que se entregaria até que sua inocência fosse provada.

"Eu poderia ter ido a uma embaixada, eu poderia ter ido a um outro país, mas eu tomei a decisão de ir lá, porque eu preciso provar que o juiz [Sérgio] Moro não era juiz, era um canalha que estava me julgando. Eu precisava provar que o [Deltan] Dallagnol não representa o Ministério Público, que é uma instituição séria. O Dallagnol montou uma quadrilha com a força-tarefa da Lava Jato, inclusive para roubar dinheiro da Petrobras e das empreiteiras. E eu tinha certeza que os delegados que fizeram o inquérito contra mim mentiram em cada palavra que escreveram", disse na ocasião.

Quando deixou a prisão, Lula não era considerado elegível. Apesar de ter sido solto, a decisão da época não anulava os processos. No discurso no Sindicato dos Metalúrgicos, ele deixou claro que sua luta dali para a frente seria para que a parcialidade do então ministro de Jair Bolsonaro (PL).

"Olha, nós ainda não ganhamos nada, porque o que nós queremos agora é que seja julgado um habeas corpus que nós demos entrada no Supremo Tribunal Federal, anulando todos os processos feitos contra mim. Porque agora já existem argumentos suficientes pra provar, e falo isso sem nenhum rancor, o Moro é mentiroso. O Dallagnol é mentiroso. Não é por causa do Intercept, é por causa do que eles escreveram na minha defesa. Tudo que o Intercept tá falando agora já tá escrito na minha defesa há quatro anos atrás. E só tem uma explicação para que eles façam esse processo, foi pra me tirar da disputa eleitoral", destacou Lula.

Em março e abril de 2021, decisões do Supremo Tribunal Federal confirmaram a parcialidade de Moro. Lula, enfim, se tornava elegível e começava a pré-campanha visando as eleições presidenciais deste ano.

Mais amor, menos ódio

Lula surpreendeu aqueles que imaginavam que ele sairia demonstrando ódio e rancor da prisão. Demonstrando bom humor, declarou estar apaixonado e disse que ia se casar com a socióloga Rosângela da Silva, a Janja, tão logo fosse possível.

"E eu quero dizer pra vocês, que aos 74 anos de idade, eu não tenho o direito de ter ódio em meu coração. Eu, na verdade, não sabia que ia me apaixonar aos 74 anos de idade. Então agora que eu tô com 74 anos de idade, energia de 30 e tesão de mais ou menos 20 anos, eu não tenho, não tenho por que ficar nervoso. Eu tô de bem com a vida, e vou lutar nesse país. 

A promessa de casamento se concretizou em 2022. Em cerimônia fechada, mas altamente "instagramada", o casal trocou alianças e celebrou o amor. "Ninguém mais feliz que eu e você. Hoje é dia de celebrar o nosso amor. Que o vento venha nos abençoar e carregar todo mal para longe de nós!", disse Janja.

Disposição para lutar

Aos 74 anos, na época, Lula mostrou disposição e anunciou que estava pronto para ir à luta. Sem falar abertamente em se candidatar à presidência - até por estar inelegível àquela altura - ele deixou claro que trabalharia para garantir dignidade e recuperar o orgulho da população.

"A única coisa que eu tenho certeza é que eu estou com mais coragem de lutar do que estava quando saí daqui. Lutar para tentar recuperar o orgulho da gente ser brasileiro, lutar para que as mulheres possam levar os seus filhos num supermercado e comprar o suficiente para eles comerem. Lutar para que o trabalhador possa ter um emprego com carteira assinada e leve para casa no final do mês o dinheiro para garantir a alimentação da sua família", pontuou. 

"Lutar para que o trabalhador possa ter o direito de ir a um cinema, de ir a um teatro, de ter um carro, de ter uma televisão, de ter um computador, de ter um celular, de ir num restaurante, e de poder, todo final de semana, reunir a família, fazer um churrasco, tomar uma cervejinha gelada, sabe? Que é, na verdade, o que deixa a gente feliz".

Trechos desse discurso foram repetidos durante os três anos de lá para cá. Um dos momentos mais emblemáticos foi quando ele subiu em um carro de som na Avenida Paulista, já como presidente eleito, e falou para uma multidão. "A nossa luta não começa e não termina com a eleição. A nossa luta por um país justo, em que todos os brasileiros possam trabalhar, estudar, comer, será pelo resto da nossa vida", afirmou, no último dia 30 de outubro.

Percorrer o país

Livre após 580 dias, Lula prometeu que voltaria a caminhar pelo país. A promessa foi cumprida já na pré-campanha, e reforçada desde que a candidatura à presidência foi formalizada. Especialmente após o primeiro turno, quando a disputa ficou formalmente restrita a ele e a Bolsonaro.

"Eu, eu tô disposto a voltar a andar por este país. Eu tô disposto, junto com Haddad, com Freixo e com a Luciana, do PCdoB, com a Benedita, com a Gleisi, com dirigentes sindicais, a percorrer esse país. Tô disposto a percorrer esse país com os dirigentes sindicais, porque não é possível que a gente viva nesse país vendo cada dia mais os ricos ficarem mais ricos, e os pobres ficarem mais pobres", disse. E cumpriu.

Edição: Thalita Pires