memória

Capela dos Aflitos: a luta para salvar um símbolo da história negra do centro de São Paulo

Restauro de espaço de devoção ao santo popular Chaguinhas foi conquistado, mas ainda aguarda parecer da Prefeitura

Brasil de Fato | São Paulo (SP) | |
Espaço destinado à devoção a Chaguinhas na Capela dos Aflitos - Pedro Stropasolas

No bairro da Liberdade, centro de São Paulo, uma rua sem saída guarda um pedaço da história negra na capital paulista: a Capela dos Aflitos. A construção foi feita em 1779 e é até hoje um espaço de adoração ao santo popular Francisco José das Chagas, o Chaguinhas. Apesar da importância do espaço, ele sofre com o abandono do poder público. 

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Rachaduras, estruturas de madeira com cupim, e a escada que dá acesso ao sino sem condições de uso. É assim que se encontra o local.

"Nós fazemos uma luta diária pela preservação dessa memória e para acabar com esse processo de apagamento. É muito difícil. O que nós temos aqui na nossa são porta luminárias japonesas, lanternas japonesas, que tiram a visibilidade da capela. A Alameda do cemitério se transformou em um estacionamento, carga e descarga de material", lamenta Eliz Alves, coordenadora da União dos Amigos da Capela dos Aflitos (Unamca)

O restauro do espaço religioso tem sido uma luta da organização desde sua criação, em 2018. A capela resiste em um bairro que sofreu gentrificação na década de 1920 e ficou conhecido pela cultura oriental. 


Capela dos Aflitos resiste em uma viela sem saída, com luminárias orientais em frente à fachada, e caminhões descarregando materiais / Pedro Stropasolas

Cemitério dos Aflitos

A capela foi construída quatro anos depois do Cemitério dos Aflitos, em 1983. O cemitério integrava o conjunto de dispositivos de punição, tortura e morte construídos na capital paulista no Brasil Colônia. 

"Como naquele momento esses corpos poderiam ser abandonados em córregos, em vales era preciso ordenar, racionalizar sobre essa questão. Então é construído um pouco abaixo da forca do Morro da Forca, onde hoje é o metrô Liberdade, o Cemitério dos Aflitos, destinado a indígenas, negros, negras, escravizados e condenados à forca, condenados à morte”, explica Wesley de Souza Vieira, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) e professor da Rede Municipal de ensino. 

Em 1858, quando o Cemitério dos Aflitos é desativado e é fundado o Cemitério da Consolação, foi permitido pela igreja católica o loteamento da área, passo que iniciou o processo de urbanização da Liberdade.

As ossadas e túmulos, no entanto, não foram removidos do local, e permaneceram embaixo da terra em meio à expansão do bairro.

"Esse Cemitério dos Aflitos hoje seria compreenderia as ruas Galvão Bueno, rua da Glória, rua dos Estudantes. Essa capela ficava no centro dele. Então, tudo que hoje são construções dentro desse quarteirão estão sobre o Cemitério dos Aflitos", conta Vieira. 

"A Justiça determinava que o entorno da capela fosse preservado para o embelezamento da capela, mas isso não foi respeitado. A Cúria (Cúria Metropolitana de São Paulo) vendeu todos os lotes, e foram cada vez espremendo a capela. Ela só foi tombada em 1978. Então, tudo que já tinha sido feito, não tinha como voltar atrás", explica Eliz.


O pesquisados da USP Wesley Vieira indica no mapa onde estavam localizados os dispositivos de punição, tortura e morte construídos na capital paulista no Brasil Colônia / Pedro Stropasolas

Chaguinhas

No cemitério dos Aflitos estava enterrado Francisco José Chagas, o Chaguinhas, um cabo negro do primeiro Batalhão dos Caçadores de São Paulo. Ele foi um dos líderes de uma revolta por melhores salários. À época, os militares portugueses recebiam salários maiores do que os negros. 

A revolta nativista foi reprimida pelas forças do Estado. Seus líderes, Chaguinhas e José Joaquim Cotindiba, foram condenados à forca. No dia da execução, a corda que mataria Chaguinhas arrebentou por três vezes. 

O público então se comoveu, e clamou por sua absolvição, que foi negada.  Uma das teorias para a nomeação do bairro da Liberdade é esta liberdade pedida pelo povo para Chaguinhas.

Emília Ribeiro, a ministra da Capela dos Aflitos, defende que ele seja canonizado pela Igreja Católica. A aposentada auxilia o padre nas missas, cuidando do altar, do santíssimo e do sacrário onde se guardam as hóstias. 

"Ele foi um exemplo e para mim é muito sagrado. Depois de estudar a história, tudo que aconteceu, a corda que três vezes não funcionou. Então pra mim ele já é um santo, mesmo não sendo canonizado. Tudo que eu peço para ele, vem", conta Emília, que é a guardiã da imagem do santo popular.


A ministra Emília Ribeiro prepara a missa na Capela dos Aflitos / Pedro Stropasolas

201 anos de devoção

Dentro da capela, a cela de espera para os condenados à forca, onde permaneceu Chaguinhas antes de sua porta, hoje foi transformada em um velário de devoção. 

"Atrás dessa porta, que era a porta da cela de Chaguinhas, as pessoas colocam pedidos, batem três vezes e acendem a vela no velário. Esse é o ritual de Chaguinhas, feito há 201 anos e para o qual estamos com um processo de reconhecimento como patrimônio imaterial. Francisco José das Chagas, então, é um herói de uma revolta nativista, ele é um mártir e ele é um santo popular", explica Wesley. 

O historiador acredita que a Igreja Católica ainda tem muito a elaborar sobre os processos racistas que a constroem, a começar pelo reconhecimento dos mártires negros, como Chaguinhas.

"A gente tem todo um processo que precisa ser desenvolvido para o reconhecimento de Chaguinhas como santo pela Igreja Católica. Mas se tratando de uma pequenina capela, de um cantinho de São Paulo, a gente já sabe que a batalha será bastante grande".

"O reconhecimento de um um santo negro que fez uma revolta, que foi condenado por uma revolta e que historicamente temos pouquíssimos dados sobre ele, mas muita devoção. São 201 anos. Então vai ser um processo difícil, vai ser um processo longo e vai ser um processo importante porque a própria igreja pode reelaborar seu processo, suas visões com a questão racial dentro desse Brasil colônia", completa.


Rachaduras nas paredes construídas em taipa de pilão na Capela dos Aflitos, símbolo da história negra da Liberdade / Pedro Stropasolas

Memorial dos Aflitos

A mobilização para salvar a Capela dos Aflitos voltou há 4 anos, com a derrubada de um sobrado ao lado para a construção de um shopping, o que mudaria a história do local. 

A obra passou a abalar a estrutura da capela erguida em taipa de pilão, e que está dentro de uma área tombada.

"Cada vez que se batia uma estaca no terreno ao lado, a capela tremia, era uma coisa muito perigosa. A gente temia até pela segurança de quem estava aqui. Porque a gente tinha medo da parede ao lado tombasse, era bem na divisa. Começamos o processo de pedir pelo restauro da capela a partir desse momento", lembra Elis.

Com a denúncia por parte da Unamca, foi descoberto no terreno vizinho um sítio arqueológico com 9 remanescentes humanos. São os primeiros vestígios de corpos enterrados no cemitério dos Aflitos.

A obra, então, foi embargada. A mobilização fez a área passar a pertencer a Secretaria Municipal de Cultura para abrigar o futuro Memorial dos Aflitos, que tem previsão de ser entregue até 2025. 

"Processo precisa ser acelerado"

Quanto à restauração da Capela dos Aflitos, a Unamca aguarda agora o parecer final do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo. Só aí pode iniciar a fase de captação de recursos para o projeto.

"Precisa de pintura nova, precisa recompor mesmo. As portas estão muito desgastadas, precisa de um trabalho urgente antes que isso se perca. Chega em um ponto em que não adianta mais restaurar. Então, para nós esse processo precisa ser acelerado", conta Eliz.

"A gente recebe até hoje uma população muito grande de pessoas negras, de religiões de matrizes africanas, porque é que acolhe a todos, todos são bem-vindos", conclui. 

Edição: Thalita Pires