VALE DO JAVARI

Bruno e Dom: soltura de mais um suspeito é "descaso das autoridades", dizem indígenas

Tensão aumenta no Vale do Javari com soltura de suspeitos, novas ameaças de morte e lentidão nas investigações

Brasil de Fato | Lábrea (AM) |
Após seis meses, mandante das mortes de Bruno e Dom não foi indiciado - Nelson Almeida/AFP

A União dos Povos Indígenas do Vale do Javari chamou de "descaso das autoridades" a soltura de um suspeito de envolvimento nas mortes do indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips ocorridas em junho deste ano em Atalaia do Norte (AM).

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O pescador Laurimar Lopes Alves, conhecido como Caboclo, suspeito de ajudar a ocultar os corpos na mata, teve a liberdade provisória determinada nesta semana por uma decisão da Justiça Federal do Amazonas, que estipulou fiança de R$ 2 mil.

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Caboclo está preso desde agosto e é apontado como um dos mais ativos integrantes de uma quadrilha de pescadores especializada em saquear recursos naturais da Terra Indígena Vale do Javari (TI). O monitoramento promovido por Bruno e os indígenas dava prejuízo aos invasores. 

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A participação de Caboclo no duplo homicídio é apontada por indígenas desde os primeiros dias do desaparecimento de Bruno e Dom. Laurimar é cunhado de Amarildo Costa de Oliveira, conhecido como Pelado, acusado de disparar os tiros que mataram a dupla.

"Já são 5 meses desde a morte de Bruno e Dom. A morosidade dos órgãos responsáveis para solucionar é alta! Nos parece que as investigações estão sendo feitas de forma paliativa ou que estão simplesmente paradas", escreveu a Univaja. 

Até agora, as investigações identificaram suspeitos de participar diretamente nas mortes, mas não houve indiciamento de mandantes, nem desarticulação dos grupos de pescadores ilegais que atuam no território. 

Indígenas cobram promessa de Aras

A organização indígena, que representa cinco povos do Vale do Javari, afirmou que a falta de providências para desarticular as quadrilhas coloca em risco de vida as lideranças que tentam proteger o território. 

A Univaja lembrou que em junho, logo após os assassinatos, lideranças indígenas se reuniram com o procurador-geral da República Augusto Aras, que prometeu criar uma força-tarefa com todos os órgãos de Estado que atuam na região. "Passados mais de cinco meses, nada foi feito", diz a nota da Univaja. 

Desde as mortes do jornalista e do indigenista, indígenas colecionam ameaças de morte. Na mais recente, uma liderança ficou sob a mira da arma de um homem que admitiu ser da "equipe" que praticou o duplo homicídio. "Você será a próxima", disse o invasor à liderança indígena. 

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A soltura em outubro do suposto mandante das mortes, o empresário da pesca ilegal Rubens Villar Coelho, conhecido como Colômbia, já havia aumentado a sensação de insegurança na região. Ele é apontado pelos indígenas como líder da quadrilha de pescadores ilegais. 

"Não exigimos nada além do que todos têm direito: viver com segurança, sem medo e com dignidade. Para isto: investigação, presença do Estado e punição aos acusados", pediu a Univaja. 

Entenda a decisão 

A soltura de Caboclo contrariou o Ministério Público Federal (MPF), que se manifestou pela manutenção da prisão.

O juiz Fabiano Verli argumentou que não foram produzidas novas provas contra o suspeito, que está detido com base no depoimento de uma testemunha e na apreensão de uma arma de fogo na sua casa.   

"Essa prisão já dura algo como três meses e prisões preventivas não podem ser mantidas por longos períodos sem motivos bem fortes", argumentou o magistrado que concedeu a soltura a Caboclo. 

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Beneficiado pela liberdade provisória, Caboclo terá que comparecer mensalmente a uma sede do poder judiciário. Ele será obrigado a permanecer em casa durante todo o dia, com exceção de quatro horas diárias destinadas ao trabalho. 

Outro Lado

O Brasil de Fato não localizou a defesa de Laurimar Lopes Alves, conhecido como Caboclo. O texto será atualizado caso haja manifestação. 

Edição: Thalita Pires