Disputas seculares

Rivalidades históricas marcam os confrontos deste sábado na Copa do Mundo

Marrocos x Portugal e Inglaterra x França: confrontos têm componentes que vão muito além das quatro linhas

Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ) |
Franca, Inglaterra, Marrocos, Portugal: quem seguirá vivo na Copa? - AFP

A disputa do troféu mais cobiçado do futebol mundial, muitas vezes, ultrapassa os limites dos gramados. E as partidas pelas últimas duas vagas nas semifinais da Copa do Mundo do Catar, neste sábado, são prova disso. Os confrontos do dia, Marrocos x Portugal e Inglaterra x França, reúnem componentes históricos que fazem a rivalidade ir muito além das quatro linhas.

O primeiro jogo do dia é entre marroquinos e portugueses, às 12h (de Brasília). Assim como nas quartas de final, quando eliminou a Espanha, Marrocos encontrará um país quase vizinho. Apenas o estreito de Gibraltar separa o país da Península Ibérica, onde ficam Portugal e Espanha. O confronto esportivo remonta à expansão islâmica, que teve um de seus movimentos mais importantes no ano 711, quando a península foi conquistada.

"Posteriormente houve processo reverso, de conquista do território da Península Ibérica por reinos cristãos. E foi uma conquista, e não 'reconquista', já que esses reinos não existiam na época da conquista islâmica. Depois houve um processo de conquista ultramarina, que levou à expansão das formações sociais europeias para outros continentes", destaca o professor Flavio Campos, do Departamento de História da USP e coordenador científico do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas sobre Futebol e modalidades Lúdicas (Ludens/USP).

Franceses e ingleses, que entram e campo às 16h (de Brasília) são "inimigos íntimos". Neste caso, estão separados (ou unidos) pelo Canal da Mancha, por onde passa o Eurotúnel, que conecta os dois países em viagens de trem que duram cerca de 35 minutos. Se hoje são grandes parceiros comerciais e políticos (mesmo com a saída do Reino Unido da União Europeia no processo do Brexit), já foram adversários em conflitos como Guerra dos Cem Anos, na Idade Média, ou as batalhas do período napoleônico, no início do século XIX.

"A rivalidade entre franceses e ingleses marca um pouco a História, a constituição, primeiro desses estados monárquicos, na Idade Média e na Idade Moderna, e depois a configuração desses estados nacionais, nos séculos XVIII e XIX, mas atenuado, pois nos dois últimos grandes conflitos, franceses e ingleses estiveram do mesmo lado, que foram a I e II Guerra Mundial", destaca Campos.

Nos dias de hoje

Para o professor da USP, o encontro entre França e Inglaterra na Copa do Mundo de 2022 é mais um ingrediente em uma relação de parceria alimentada por uma rivalidade que hoje em dia é simbólica, cultural e até estereotipada em meio a brincadeiras entre os dois países.

O historiador Alexandre Nicolino, pesquisador das relações entre futebol e história na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), complementa, destacando que britânicos e franceses são vizinhos "que amam se odiar".

"Eles buscam sempre ter um embate, ter uma desavença, para continuar alimentando isso. Em uma Copa do Mundo a gente pode ter isso mais forte, este é o primeiro confronto entre os dois no 'mata-mata', numa fase importante da Copa do Mundo. Vai ter essa rivalidade sendo inflamada, mas eu creio que em escalas não alarmantes, sem chegar a níveis de violência, mas sim da provocação", destacou.

As provocações, aliás, já começaram por parte da imprensa dos dois países. Logo que ficou definido o confronto de quartas de final entre as potências europeias, jornais dos dois países usaram referências das culturas dos rivais para ilustrar suas capas.


Jornais da Inglaterra e da França põem fogo na rivalidade entre os países antes do confronto decisivo pela Copa do Mundo / Reprodução

O tabloide britânico Metro usou a expressão "here oui go" em sua capa, em uma referência à frase em inglês "here we go" (aqui vamos nós) usando a palavra francesa "oui" ("sim", em português). Já o diário esportivo francês L'Équipe chamou o atacante Kylian Mbappé, um dos grandes destaques da Copa, de "nosso rei" - ao contrário dos britânicos, a França já não tem um rei desde o século 18.

Tensão entre Portugal e Marrocos?

Se entre França e Inglaterra a disputa promete ficar só na brincadeira, no caso de Marrocos e Portugal, a tensão é um pouco maior. Os marroquinos e descendentes não são tão numerosos em Portugal quanto na Espanha, mas há receio de que haja novos episódios racistas. Em meio à crise de migração na Europa, pessoas dos países do norte da África - como Marrocos - têm sido vítimas cada vez mais frequentes de ataques xenófobos.

Em um dos casos registrados antes da partida entre marroquinos e espanhóis pelas oitavas de final, um javali morto foi deixado em frente a uma mesquita na cidade espanhola de Vitória, na região do país basco.

"Não dá para separar futebol e política, e não dá para separar esse conteúdo histórico quando as equipes entram em campo. A rivalidade entre as nações é carregada, sim, para dentro de campo. A saber como a torcida, como a mídia está lidando com esse jogo", disse Nicolino. 

Para Flavio Campos, outros grupos de imigrantes que vivem em Portugal, vindos de países como Angola, Moçambique e Argélia, podem se juntar aos marroquinos em busca de uma "revanche" simbólica após séculos de devastação.

"Agora a questão que se coloca ali, com respeito ao Mediterrâneo, é também uma questão que passa pelos refugiados, por séculos de dominação e exploração das potências europeias sobre o continente africano, e muitos dos problemas do continente africano são decorrentes dessa dominação, dessa conquista, dessa exploração que ocorreu ao longo dos séculos", complementou Campos.

Edição: Rodrigo Durão Coelho