na cadeia produtiva

Carrefour e Pão de Açúcar: campanha exige que supermercados respeitem direitos humanos

Oxfam Brasil quer garantir cumprimento de direitos de trabalhadores de cadeias de fornecimento das redes

Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ) |

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Representantes da Oxfam entregaram cópias de abaixo-assinado a representantes das maiores redes supemercadistas do país - Divulgação

Um abaixo assinado com mais de 130 mil assinaturas foi entregue a representantes de algumas das maiores redes supermercadistas do país para defender maior responsabilidades das empresas em relação aos direitos humanos de pessoas envolvidas nas cadeias de fornecimento. Coordenada pela Oxfam Brasil, a campanha "Por trás do Preço" trata do tema há três anos.

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As cópias das assinaturas foram entregues nesta quinta-feira (15) a representantes dos grupos Carrefour e Pão de Açúcar, dois dos maiores do país. A entrega aconteceu na semana do Dia Internacional dos Direitos Humanos (10 de dezembro).

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Segundo a Oxfam, milhares de trabalhadoras e trabalhadores do campo que atuam na produção de frutas e verduras vendidos nas grandes redes passam por situações que chegam ao trabalho escravo. Em uma fazenda fiscalizada, agrotóxicos são armazenados no mesmo ambiente em que os trabalhadores guardam o almoço. 

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Mais de metade dos trabalhadores rurais da cadeia produtiva de manga, por exemplo, estão entre os 20% mais pobres do Brasil, enquanto cerca de 60% dos trabalhadores rurais do café estão na informalidade.

"São empresas muito grandes, então a expectativa para o nível de estrutura, de compromissos corporativos, políticas, práticas, deveria ser muito maior. Uma prática básica, que a campanha inclusive questionava, é a auditoria dos fornecedores. Essas empresas nem cumprem auditoria total dos seus fornecedores do campo. A gente tem um sistema de controle muito enfraquecido", alerta Gustavo Ferroni, Coordenador de Justiça Rural e Desenvolvimento da Oxfam Brasil.

Durante os últimos anos, representantes da Oxfam estiveram em contato direto com as empresas. No início da campanha, a análise levava em conta também as empresas do Grupo Big, que em junho deste ano foi incorporado pelo Carrefour. A ONG destaca que houve avanços, mas ainda há muito a se fazer. 

O Grupo Pão de Açúcar, por exemplo, lançou em 2021 uma política de Direitos Humanos e Cadeia de Valor, que incluiu pontos recomendados pela Oxfam, como a importância de salário digno para garantir a qualidade de vida dos trabalhadores e suas famílias.

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Ainda em 2021, o Carrefour chegou a se comprometer a divulgar dados sobre toda sua cadeia de fornecedores diretos de frutas e verduras até este ano; além de dados sobre os fornecedores indiretos até 2025. Entretanto, alegando dificuldades relativas à incorporação do grupo Big, adiou a primeira etapa da divulgação para o primeiro semestre de 2023.

"A gente achou isso uma resposta muito ruim, sem dados completos, sem compromissos específicos, sem prazos específicos. O Carrefour na França tem uma série de compromissos, tem parcerias com organizações muito sérias, tem a federação internacional de Direitos Humanos. A gente falou 'poxa, por que essas coisas não existem aqui no Brasil?'. A gente percebe um tratamento diferenciado, como se aqui não precisasse investir tanto em controle, estabilidade", lamentou Ferroni.

A campanha, aliás, foi realizada simultaneamente nos Estados Unidos, no Reino Unido, na Alemanha e na Holanda. Tendo essa base de comparação, a Oxfam Brasil afirma que, de maneira geral, os maiores supermercados brasileiros estão atrasados na comparação com as empresas de outros países em relação aos compromissos pelos direitos humanos dos trabalhadores das cadeias de fornecimento.

"Infelizmente quando a gente compara os supermercados daqui, eles avançaram bem menos. Eles já saíram inicialmente de condição pior e avançaram menos. São empresas que atuam no Brasil, mas são ligadas a grandes empresas multinacionais. E são empresas, aqui no país, gigantescas. De mais de 100 mil funcionários", destacou o coordenador da Oxfam.

O grupo Carrefour Brasil afirma que tem como compromisso "a promoção do trabalho digno e dos direitos humanos em suas cadeias de fornecimento". A empresa disse que mantém diálogo com organizações da sociedade civil para melhoria dos processos.

Em nota, o Grupo Pão de Açúcar informou que tem uma política interna de direitos humanos na cadeia de abastecimento, e que desde 2018 realiza trabalho de mapeamento de setores críticos sob aspectos socioambientais. A empresa destacou que mantém contato com entidades como a Oxfam para discutir novas práticas.

 

Edição: Rodrigo Durão Coelho