DIREITOS HUMANOS

Vozes Populares | Criado em Pernambuco, Vale PCD é o primeiro projeto voltado para PCDs LGBTs

Iniciativa oferece serviços de psicoterapia, acessibilidade para eventos, orientação profissional, entre outros

Ouça o áudio:

Iniciativa se engaja politicamente e visibiliza vivências de pessoas com deficiência - Foto: Divulgação/Instagram
As pessoas não veem pessoas com deficiência como pessoas que tem uma sexualidade

"Eu sou Priscila, eu sou uma mulher com deficiência física, eu tenho nanismo, tenho 1,22 de altura. Sou uma mulher branca, tenho cabelo preto curtinho, uso óculos de grau com armação roxa e nesse momento eu tô usando uma camisa preta, uma calça jeans e um tênis estilo All Star."

É com a audiodescrição da psicóloga recifense Priscila Siqueira que se inicia a edição do Vozes Populares desta semana. Priscila, junto a outras pessoas com deficiência do Recife e do Brasil, viram a necessidade de criar um coletivo que acolhesse e desse visibilidade às causas das pessoas com deficiência que são LGBTQIA+. Assim, em meio a pandemia, surgiu o coletivo Vale PCD, o primeiro projeto voltado para o protagonismo PCD LGBT no Brasil.

Priscila relata que, inicialmente, o projeto surgiu com a ideia de mapear os espaços LGBTQIA+ acessíveis no Brasil, descrevendo o que as pessoas encontrariam nele. "Um medo muito grande de pessoas com deficiência é de sair de casa e encontrar muita barreira no espaço que vai frequentar. Eu sempre tive muita ansiedade de ir num lugar novo, porque eu não sabia como ia ser pra mim", relembra.

Contudo, com as restrições impostas pela pandemia da covid-19, não era possível sair de casa, então não foi possível prosseguir com aquela ideia naquele momento. Mesmo assim, esse obstáculo não deu fim a ideia do Vale PCD. Afinal, milhares de pessoas com deficiência e que eram LGBTQIA+ ainda sentiam a necessidade de se verem representados, de terem um espaço para discutir questões em comum. Por isso, o Vale PCD se adaptou e conseguiu pensar em outras ações. 

Priscila conta, com orgulho, que foi nessa época que conseguiu botar seu diploma em prática, algo que era bastante difícil. Antes da pandemia, os atendimentos terapêuticos aconteciam presencialmente, o que dificultava seu deslocamento. A modalidade remota deu à Priscila a oportunidade de criar o projeto Vale PCD Psicoterapia, que atende pessoas com deficiência e LGBT por um valor social ou mesmo gratuitamente, a depender da disponibilidade da equipe.

Com o tempo, pessoas de outras regiões do Brasil começaram a agregar, como em Fortaleza, Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Joinville e outros locais. A partir disso, conseguiram oferecer serviços de acessibilidade em eventos e festas, projeto de orientação profissional e também de consultoria para empresas. A ideia é ampliar a quantidade de voluntários e começar 2023 ainda com mais força, porque os desafios ainda são muitos. 

"O maior desafio é a invisibilidade ainda. As pessoas não veem pessoas com deficiência como pessoas que tem identidade de gênero, que tem uma sexualidade. Sempre vê a deficiência na frente", afirma. Além disso, ela ressalta a dificuldade de estar presente em espaços diversos pela falta de acessibilidade. "A gente quer participar de uma comunidade e às vezes a gente não consegue porque não estão pensando que a gente vai estar ali", critica.

Por fim, Priscila ressalta a importância da interseccionalidade, isto é, buscar compreender a interação entre vários marcadores sociais, como a própria deficiência, gênero, etnia, raça e diversos outros aspectos. No Vale PCD, existe uma diversidade de PCDs LGBTs produzindo conteúdo! Para encontrar, acesse o Instagram: @pcdvale.

Edição: Elen Carvalho