Coluna

O renminbi nas relações comerciais entre Brasil e China

Imagem de perfil do Colunistaesd
Cédular de dólar e renminbi, a moeda nacional da China. - Fred Dufour / AFP
A China cresce e invariavelmente continuará com os esforços para a internacionalização de sua moeda

* Por Ana Luísa da Cunha, Emanuela Almeida, Filipe Porto, Flávia Mitake Neiva e Laís Pina.

Continua após publicidade

Desde a crise financeira de 2008, é observado o avanço da internacionalização da moeda chinesa, o renminbi (RMB). Em transações comerciais, o RMB representa hoje mais de 50% do comércio exterior chinês. Em relatório publicado pelo SWIFT, em novembro de 2022, a moeda chinesa ocupa a quinta posição como moeda mais ativa em valor na lista de pagamentos globais, com uma participação de 2,13% no mercado internacional, mas ainda segue bem abaixo do dólar e do euro. Mesmo assim, países emergentes têm buscado fechar transações em RMB, seja para driblar sanções ou por não terem reservas significativas em dólar. No caso do Brasil, o Banco Central tem incrementado as reservas em RMB nos últimos anos. Diante do peso comercial da China para o Brasil, avalia-se os benefícios e barreiras para o uso do RMB nas transações comerciais. 

A entrada da China na Organização Mundial do Comércio (OMC) em 2000, a necessidade de buscar alternativas à hegemonia do dólar e a crise financeira de 2008 podem ser considerados elementos motivadores do governo chinês para promover a internacionalização do RMB. Desde então, a China se tornou a segunda maior economia do mundo, e em 2021 contou com um PIB de U$17,7 trilhões, além de ser o país que mais importa e o segundo que mais exporta no mundo, o que contribui para um cenário favorável para o crescimento da aceitação da moeda chinesa internacionalmente. 

Outro passo importante foi quando, em 2009, a China autorizou suas empresas a fazerem comércio exterior pelo sistema de RMB cross-border settlement. No mesmo ano, começou a firmar acordos de SWAP com bancos centrais estrangeiros (41 acordos atualmente) como forma de aumentar a utilização da moeda chinesa através de acordos bilaterais. Com o Brasil o acordo foi assinado em 2013, com prazo de três anos, mas desde sua expiração, em 2016, não foi renovado. 

Em 2015, houve a inclusão do RMB na cesta de moedas do FMI (SDR), o que motivou países a considerarem fazer reservas internacionais da moeda chinesa. O BACEN divulgou em 2021 que o Brasil aumentou a participação de ativos de RMB em suas reservas internacionais para 4,99%, um aumento de mais de três vezes em relação aos 1,21% do ano anterior. Ao mesmo tempo, a proporção de dólares estadunidenses representou cerca de 80% no período, o menor valor desde 2014. Esses movimentos sugerem a existência de oportunidades a serem exploradas pelo Brasil na relação com a China em matéria de comércio, investimentos e integração financeira, valendo-se do fato que em 2020, a China se tornou o primeiro parceiro comercial do Brasil a ultrapassar a marca de U$ 100 bilhões, com as exportações brasileiras totalizando U$ 67,7 bilhões e as importações US$ 34 bilhões.

Entraves

Como parte dos esforços para internacionalizar o RMB e trazer maior previsibilidade na precificação do comércio global de commodities, a China tem incentivado suas empresas a utilizarem sua moeda nas transações comerciais, principalmente para bens estratégicos, como commodities energéticas, produtos agrícolas e metais raros. A título de exemplo, a chinesa Baosteel e a brasileira Vale concluíram, em 2020, um acordo para pagamento de minério de ferro em RMB.

Contudo, uma grande barreira para o uso do RMB nas trocas comerciais é a tradição do comércio exterior do Brasil, hoje feito em mais de 90% em dólar, seguido do Euro, que representa apenas 5% das transações internacionais do Brasil. Em mesa de debate no CEBRI, Sérgio Quadros, ex-gerente geral do Banco do Brasil em Xangai, apresentou um estudo sobre a percepção das empresas brasileiras e o uso RMB elencando ainda três principais entraves para o uso da moeda chinesa, a saber: (i) liquidez; (ii) confiança; (iii) cultura. Em suma, caberia à China garantir que sua moeda não tenha precificação dificultada, demonstrar que é uma moeda segura com menor intervenção estatal, e que responde a livre oferta e demanda.

No que tange à cultura, o estudo destaca a comodidade/facilidade de empresas brasileiras obterem acesso a produtos financeiros em dólar; logo, elas têm interesse na moeda chinesa, mas não há tantos canais no exterior para usar o RMB assim como existem em dólar. Outro fator é a precificação das commodities no mercado internacional, negociadas majoritariamente em dólares.

Benefícios

Em contrapartida, uma maior adesão da moeda chinesa nas relações sino-brasileiras poderia ocasionar a diminuição dos custos de transação, uma vez que a utilização do dólar como moeda intermediária as tornam mais caras, principalmente pelo hedge, além de expor as operações a um risco cambial adicional.

Mas, para que uma diminuição dos custos de transação ocorra, é necessário que se use sistemas de pagamento e compensações que facilitem o uso do RMB. Nessa direção, a China tem permitido o estabelecimento de Clearings offshore de RMB (centro offshore de compensação da moeda chinesa), que em 2021 totalizou 27 países. A adoção desse mecanismo pelo Brasil poderia aumentar a oferta para liquidez em transações financeiras BRL-RMB, somado às outras iniciativas, como a renovação do acordo de swap e o aumento das reservas em RMB pelo BACEN. O relatório divulgado em 2021 pelo Centro Empresarial Brasil China (CEBC) aponta que o estabelecimento de uma clearing de RMB no Brasil reduziria os custos de transação em até US$1,5 bilhão em 10 anos, promovendo maior familiarização com os parâmetros do sistema financeiro chinês, além de reduzir o risco ao operar com o dólar de forma intermediária.


O presidente da China: Xi Jinping  / Noel Celis / AFP

Outra vantagem apontada pelo relatório do CEBC inclui facilitar o acesso de empresas médias brasileiras, que não possuem acesso a linhas de crédito em dólar, ao mercado chinês, aprofundando o comércio bilateral entre empresas que hoje não exportam para a China. O aumento do volume de comércio, impulsionado pelo uso da moeda única nas transações, poderia aumentar o leque de mercados alcançados, dando ao Brasil uma brecha para aumentar a gama de produtos exportados para além das commodities.

Experiência de outros países

Atualmente, os compradores que se oferecem para pagar em RMB são principalmente de países que têm menos divisas em dólares estadunidenses, que são sancionados pelos Estados Unidos, ou que buscam alternativas à valorização do dólar, resultado do esforço do Fed de elevar as taxas de juros, que aumentou a pressão sobre a dívida externa dos países emergentes. Embora já em 2016 mais de 100 países já usassem o RMB para pagamentos com a China e Hong Kong, é válido destacar a experiência de países cuja situação econômica é similar a do Brasil: grandes exportadores de commodities para a China e cuja moeda nacional apresenta tendência de desvalorização frente ao dólar, como Argentina, Paquistão e Cazaquistão.

Para esses países, o uso do RMB é uma forma de evitar a dependência do dólar, a tendência de deterioração de suas reservas cambiais e, dado o peso da China em suas balanças comerciais, diminuir os custos e facilitar as transações, além de incentivar investimentos chineses, o que é fundamental considerando que os três países fazem parte da Belt and Road Initiative (BRI). Mesmo que o Brasil não faça parte da BRI, os investimentos chineses são um elemento importante para o país.

Além desses países, há um uso crescente do RMB entre os grandes exportadores de petróleo para a China, como Rússia, Irã, Emirados Árabes e Angola, denominado petro-yuan ou petro-rmb. Em março deste ano foram amplamente noticiadas as negociações entre China e Arábia Saudita para o uso do RMB nos acordos de petróleo. Vale destacar que o país é o principal exportador de petróleo para a China.

A internacionalização da moeda chinesa pode ser vista como um processo que resulta da crescente importância comercial da China, porém só conquistou cerca de 2,88% da participação das reservas internacionais, segundo dados do FMI. Mesmo em um contexto de relevante participação econômica chinesa e queda nas reservas internacionais de dólar, que chegaram à sua menor taxa em 25 anos no fim do último trimestre de 2021, o RMB patina para conquistar pequena parcela nas transações internacionais.

O moroso processo de confiança na utilização da moeda chinesa é respaldado pela comodidade de seguir dentro de um sistema que possibilita maiores funcionalidades pelo uso massivo do dólar, bem como pelo modelo estratégico de internacionalização adotado pela China. O segundo é mais fundamentado em movimentos pragmáticos, pautado nos acordos bilaterais do que em uma estratégia de abertura e liberalização. O modelo chinês com conta capital fechada gera ao mercado financeiro certa descrença no que tange à regulamentação da moeda chinesa, como uma moeda que não responde à livre oferta e demanda.

Para o Brasil, o aumento das reservas em RMB poderia contribuir para a diversificação das reservas internacionais. Além disso, um possível aumento na utilização da moeda chinesa levaria ao estreitamento de laços com nosso atual maior parceiro comercial, validando as chances de aumento do comércio e investimentos chineses.

Mas há algo simbólico em todos esses movimentos: a China cresce e invariavelmente continuará com os esforços para a internacionalização de sua moeda. Assim, o aumento nas transações em RMB pelo Brasil seria um movimento muito mais estratégico do que um movimento de substituição entre dólar vs renminbi ou vice-versa, uma vez que teria como principal objetivo a diversificação das divisas.

*Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Edição: Thales Schmidt