Interesse de classe

Pesquisa Quaest mostra que interesses do 'mercado' vão contra os da população, diz economista

Instituto ouviu 82 executivos dos maiores fundos de investimentos do país, que desconfiam dos rumo do governo

Brasil de Fato | Curitiba (PR) |

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Avenida Faria Lima, centro financeiro de São Paulo (SP) - Wilfredor/WikiCommons CC0

Oitenta de 82 executivos de grandes fundos de investimentos do país acreditam que a política econômica do país está indo na direção errada. Isso é o que aponta uma pesquisa divulgada nesta quarta-feira (15) pelo instituto Quaest, patrocinada pelo banco Genial.

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O levantamento foi o primeiro realizado pelo instituto para medir a opinião do chamado mercado financeiro sobre política e economia. Revelou o extremo pessimismo e a desconfiança da classe com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), além de uma simpatia do segmento com políticos de direita e extrema-direita.

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A pesquisa mostrou ainda que a opinião do dito mercado financeiro difere de forma contundente da opinião da população em geral.

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Segundo o Quaest, 40% da população consideram o governo de Lula positivo; entre os executivos, esse percentual é zero. No mercado, 90% consideram o governo negativo; na opinião pública, são 20%.

No mercado financeiro, 94% confiam pouco ou nada no presidente Lula. Entre os executivos, 40% confiam muito no governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo); 41% confiam muito no governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), ex-ministro do governo de Jair Bolsonaro (PL); e 68% confiam muito em Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central (BC) nomeado por Bolsonaro.

Campos Neto tem sido criticado por Lula por conta de sua gestão no BC, que levou o Brasil a ter a taxa básica de juros reais mais alta do mundo – 13,75% ao ano. Segundo Lula, isso atrapalha o crescimento do Brasil, a geração de empregos e de renda.

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Para 59% dos executivos ouvidos, 13,75% é a taxa ideal para o país.

Mercado vs Brasil

Para o economista Daniel Conceição, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), os resultados da pesquisa Quaest relevam como os "interesses dos grandes operadores do mercado financeiro são contrários aos interesses da maioria da população".

"Para quem vende empréstimos, o ideal é que a renda do cidadão médio esteja sempre deprimida, de modo que ele precise sempre recorrer a empréstimos. Para quem especula, não pode haver estabilidade macroeconômica e financeira porque isso elimina as oportunidades de ganhar com variação de preços", afirmou Conceição.

Segundo o professor, é por fazer oposição aos juros altos, por exemplo, que esses executivos criticam Lula e seu ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT). A gestão de Haddad é negativa para 38% e positiva por 10%.

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André Roncaglia, economista e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) também vê "interesse de classe" na avaliação do mercado financeiro sobre o governo.

Já Mauricio Weiss, economista e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), disse que a pesquisa demonstra como a visão de mundo dos executivos de mercado é parecida e limitada.

"Eles têm essa visão de economia neoclássica que só olha para o lado de custos. É lamentável", disse Weiss.

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O economista Miguel de Oliveira, diretor-executivo da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), afirmou que há dúvidas entre o mercado sobre o compromisso do governo com as contas públicas e quanto a sua capacidade de aprovar seus projetos no Congresso Nacional. Ainda assim, ela acha que isso não justifica um pessimismo como o expressado na pesquisa da Quaest.

"O mercado já via Lula como ruim ainda antes das eleições", ressaltou. "Tecnicamente, não há uma explicação para tanto pessimismo."

Edição: Nicolau Soares