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Erika Hilton: São Paulo vive crise humanitária sob gestão de Tarcísio e Ricardo Nunes

Deputada fala sobre medidas de secretário de Tarcísio para moradores de rua: "higienista e racista"

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"Populações em situação de rua têm carência educacional, afetiva, cultural, de participação na sociedade, de oportunidade de trabalho" - Pablo Valadares/Câmara dos Deputados
Tarcísio segue agenda e ideologia bolsonarista. Apesar de tentar colocar um verniz mais democrático

O plano do secretário executivo de Desenvolvimento Social de São Paulo, Filipe Sabará, de enviar moradores em situação de rua para trabalharem em áreas rurais do Estado não parece ter recebido apoio do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). 

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No entanto, a medida tem sido duramente criticada. Para a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), o plano “é elitista, higienista, racista e classista". "É uma medida asquerosa, lembra algo análogo ao colonialismo, aos períodos escravocratas, aos períodos de engenho, ou qualquer uma dessas fases tenebrosas da nossa história”.

“[Remete ao tempo] onde pessoas vulneráveis, negras, analfabetas, pobres, nordestinas, eram tiradas de seus territórios para irem trabalhar de forma braçal, porque a única oportunidade que essas pessoas tinham”, explica.

Sabará, que foi secretário de Assistência e Desenvolvimento Social na Prefeitura de São Paulo durante a gestão de João Doria (PSDB), foi duramente criticado por medidas similares na gestão tucana. Entre elas, a  adoção da “farinata”, ou “ração humana”, produto feito a partir de sobras de outros alimentos, que seria servida como merenda escolar nas escolas da capital. 

“É uma declaração que não é apenas desastrosa, cruel, covarde, ela é criminosa, porque é como se você fosse pegar essas pessoas, compulsoriamente, e tirar elas dos seus territórios. Essas pessoas têm história, essas pessoas têm amigos, essas pessoas têm bichos de estimação, convívio no lugar onde elas estão, não são almas vagantes, aleatórias”, completa a deputada.

Hilton é a convidada desta semana no BDF Entrevista e faz duras críticas às gestões de Freitas no Estado de São Paulo, que chegou aos 100 dias recentemente, e do prefeito Ricardo Nunes (MDB), prefeito da capital paulista. Hilton avalia que o Estado vive "uma crise humanitária".

“Eu avalio como desastroso [os primeiros 100 dias de Tarcísio de Freitas]. O governo do Tarcísio segue uma agenda e uma ideologia bolsonarista. Apesar de tentar colocar um verniz mais democrático, de se descolar, até ser mesmo um pouco menos voraz do que é o Bolsonaro, a agenda é a mesma”, diz a deputada. 

Hilton ingressou na política como deputada estadual, em um mandato coletivo da Bancada Ativista, pelo PSOL, e foi eleita vereadora da capital, em 2020, também pelo partido socialista. Durante sua gestão na câmara dos vereadores, presidiu a Comissão de Direitos Humanos da casa e tem levado ao âmbito federal questões como a situação dos moradores em situação de rua de São Paulo.

Para Hilton, as ações de Nunes, que determinou a retirada de pertences dos moradores em situação de rua como colchões, barracas, entre outros, e que são tratadas pela gestão como “zeladoria”, são, na verdade, “descaso com os pobres, os vulneráveis e com os precarizados”. 

“A zeladoria da cidade é uma pauta importante, mas ela não pode violentar os direitos humanos, não pode tratar pessoas humanas como lixo, não pode tratar desta maneira os pertences, as barracas, os cobertores, os colchões das pessoas, que vão enfrentar agora as baixas temperaturas”. 

“Eu fui pessoalmente, enquanto presidente da Comissão de Direitos Humanos visitar os abrigos da cidade de São Paulo. Eu entreguei ao ministro Alexandre de Moraes um relatório completo mostrando os percevejos nos colchões, fezes de pombos nos colchões e nos refeitórios, vasos sanitários transbordando, a falta de autonomia desses indivíduos que saem das ruas e vão ser tratados da forma como são pelos equipamentos da prefeitura”, completa Hilton.

Na conversa, a deputada fala ainda sobre outros temas, como o trabalho do governo Lula (PT) para construir uma base de apoio no Congresso, que garanta a aprovação de emendas importantes, como o arcabouço fiscal e a reforma tributária. 

“Está começando a se consolidar. Claro, às vezes, o que transpassa da Câmara Federal é essa extrema direita barulhenta, antidemocrática, desrespeitosa, que pode passar a sensação de que o governo terá mais dificuldade do que ele já terá para colocar o seu programa em curso. Mas eu avalio que há, sim, uma disposição dos partidos de centro, não daqueles partidos fascistas, não aqueles políticos que, de fato, estão ali para serem uma oposição desleal e desonesta ao governo, a possibilidade de construção de um caminho para se aprovar essas políticas importantes”.

Hilton comenta ainda sobre a sucessão do ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, que deixou a corte no último dia 1º. Segundo a deputada, este é o momento ideal para que o governo Lula faça a nomeação de uma mulher negra para compor as cadeiras do STF.

“Nós precisamos de mais mulheres, negras e negros ocupando a corte. Nós precisamos que a corte reflita as mudanças da sociedade. Acho que seria grandioso ao Supremo Tribunal Federal, seria grandioso ao governo Lula, seria grandioso a nação brasileira, que nós tivéssemos, sim, uma mulher negra ocupando aquele lugar”. 

Confira a entrevista na íntegra:

Brasil de Fato: A senhora acredita que já existe um quórum na Câmara dos Deputados para aprovar projetos importantes para o governo, como o arcabouço fiscal e a reforma tributária? Como estão essas negociações?
 
Erika Hilton: Olha, eu acho que nós estamos conseguindo construir esse quórum. Eu estive afastada dos trabalhos há quase um mês, então eu perdi um pouco dessas movimentações dos últimos dias. Mas falando do momento que eu estava lá, eu acho que o governo tem conseguido abrir um canal de diálogo com - a esquerda, que já somos base do governo - o centro, que é uma parcela importante dos partidos políticos, para que a gente consiga transitar com essas políticas importantes de reformas tributárias, da modificação do teto de gastos por um novo arcabouço fiscal. 

Eu vejo que vai se construindo um clima, começando a se consolidar. Claro, às vezes, o que transpassa da Câmara Federal é essa extrema direita barulhenta, antidemocrática, desrespeitosa, que pode passar a sensação de que o governo terá mais dificuldade do que ele já terá, porque de fato o governo terá, sim, dificuldade com a configuração do Congresso Nacional, para colocar o seu programa em curso. 

Mas eu avalio que há, sim, uma disposição dos partidos de centro - não daqueles partidos fascistas, não aqueles políticos que, de fato, estão ali para serem uma oposição desleal e desonesta ao governo -, de construção de um caminho para se aprovar essas políticas importantes. 

Eu não posso te responder se eu acho que já exista esse quórum suficiente, porque nós estamos falando de uma questão quantitativa, um número específico de parlamentares que fariam caminhar essas propostas, mas me parece que sim. Porque o jogo da política, as peças no tabuleiro, se movimentam muito, todos os dias. 

O governo Lula completou, há pouco tempo, 100 dias. Como a senhora tem visto esse começo de gestão? As dificuldades são, de fato, maiores do que a gente já imaginava?
 
Olha, acho que as dificuldades estão na medida do que nós imaginávamos. Na verdade, nós sabíamos que haveria uma certa resistência, um certo enfrentamento, uma oposição desleal, cruel, desonesta, na tentativa de boicotar o governo e de não permitir que o governo avance, de convocar os ministros para o Congresso, para constrangê-los, ridicularizá-los, desrespeitá-los.

Eu acho que o cenário está dado da forma como estava previsto. Pelo menos na minha avaliação, nós teríamos uma legislatura muito difícil, muito dura e com a necessidade de fazer o melhor trabalho possível para que daqui a quatro anos, a gente não se depare com a extrema direita novamente no poder. 

Nós estamos vendo, nesses 100 dias de governo, o que representaram os retrocessos da ocupação de uma extrema direita fascista em um espaço de poder como é a Presidência da República. Daqui quatro anos, nós ainda não teremos oxigênio, fôlego, estrutura, musculatura para sustentar mais um novo mandato de partidos que tenham uma ideologia tão cruel, tão devastadora, tão desestruturadora como foi o governo Bolsonaro. 

Acho que o governo conseguiu avançar. Eu fiz, nas minhas redes sociais, um post de avaliação dos 100 primeiros dias de governo Lula, elencando ali pautas dentro da educação, da saúde, da previdência social, da redistribuição de renda, das mais diversas áreas de interesse da população e da sociedade brasileira, que o governo Lula já foi trazendo respostas. 

Claro que há uma narrativa, muitas vezes divulgada pelas mídias tradicionais, de que o governo não fez isso, que o governo não fez aquilo. Mas nós estamos falando de 100 dias de governo, de um governo que pega o Brasil devastado, de um governo que tem que enfrentar uma tentativa de golpe, ameaça aos Três Poderes, de um governo que tem que se desdobrar em mil para segurar a democracia de pé. 

Nós não estamos falando de uma transição natural de governos. Nós estamos falando de uma transição de um governo fascista, autoritário, ditatorial, antidemocrático, violento, desrespeitoso, para um governo que respeita e valoriza a democracia e os direitos da população brasileira. 

A senhora também tem atuado bastante junto às políticas de São Paulo, tem acompanhado o estado pelo qual a senhora foi eleita. Há um pedido ao STF para a interrupção da remoção dos pertences de moradores de rua em São Paulo. A cidade está completamente abandonada, o estado também não é muito diferente. Sobre a gestão de Tarcísio de Freitas, como a senhora avalia esses primeiros 100 dias em São Paulo?
 
Eu avalio como desastroso. O combo que São Paulo, capital, e São Paulo, estado, receberam com o prefeito Ricardo Nunes, que já fez uma das piores gestões que a cidade já viu… 

Eu já venho atuando na defesa da população em situação de rua, entre outras pautas, desde a presidência da Comissão de Direitos Humanos aqui em São Paulo, que eu presidi por dois anos. Atuamos fortemente com os movimentos sociais que defendem os direitos da população em situação de rua e com a própria população em situação de rua nas mais diversas audiências públicas. 

Fomos ao Supremo Tribunal Federal, quando ainda era vereadora, defender uma ADI (Ação Direta de Inconstitucionalidade) que, se não me engano, é uma ADI que está na mão do ministro Alexandre de Moraes, e agora nós tivemos, na última semana, mais uma ação que é colocada como zeladoria, mas nada mais é do que o descaso com os pobres, os vulneráveis, com os precarizados, e o abandono da cidade. 

Porque a zeladoria da cidade é uma pauta importante, mas ela não pode violentar os direitos humanos, não pode tratar pessoas humanas como lixo, não pode tratar desta maneira os pertences, as barracas, os cobertores, os colchões das pessoas, que vão enfrentar agora as baixas temperaturas. 

E quando essas pessoas são mandadas para abrigos…Eu fui pessoalmente, enquanto presidente da Comissão de Direitos Humanos visitar os abrigos da cidade de São Paulo. Nós tivemos inúmeras matérias que foram retratadas pelos veículos de televisão que demonstram o quão abandonada e o quão cruel é a cidade para essas pessoas. 

Eu entreguei ao ministro Alexandre de Moraes um relatório completo mostrando os percevejos nos colchões, fezes de pombos nos colchões, fezes de pombos nos refeitórios, vasos sanitários transbordando, a falta de autonomia desses indivíduos que saem das ruas e vão ser tratados da forma como são pelos equipamentos da prefeitura.

Então, eu avalio que os 100 dias do governo estadual - que inclusive fechou políticas como o Bom Prato, faz falas desastrosas - do governo do Tarcísio, ele é um governo que segue uma agenda e uma ideologia bolsonarista. Apesar de tentar colocar um verniz mais democrático, de se descolar, até ser mesmo um pouco menos voraz do que é o Bolsonaro, a agenda é a mesma. 

E aí nós temos retrocessos inúmeros. Nós temos fechamentos de equipamentos importantes, nós temos ataques aos servidores públicos do nosso estado, nós temos uma série de atitudes que já foram tomadas nesses 100 dias de governo que são desastrosas, e que comungam com as ações da cidade de São Paulo. Aí a gente vê esse caos generalizado.

Tem também uma outra questão, uma reportagem recente revelou um plano do secretário-executivo de Desenvolvimento Social do governo Tarcísio, Filipe Sabará - que, inclusive, já foi duramente criticado na gestão Dória - de levar para o interior do estado moradores em situação de rua de São Paulo. É um claro processo higienista na cidade. A ideia do projeto é que essas pessoas sejam subsidiadas pelo governo para trabalharem em estabelecimentos rurais. Como a senhora avalia essa medida, deputada? 

Ela é asquerosa, ela me lembra algo análogo ao colonialismo, aos períodos escravocratas, de engenho, ou qualquer uma dessas fases tenebrosas da nossa história, onde pessoas vulneráveis, negras, analfabetas, pobres, nordestinas, eram tiradas de seus territórios para irem trabalhar de forma braçal, porque a única oportunidade que essas pessoas têm são o trabalho braçal. 

Quando nós falamos em populações em situação de rua, nós não podemos nos restringir a pensar que essa população só tem frio e fome, porque essa é a primeira urgência, mas essa população tem carência educacional, afetiva, cultural, de participação na sociedade, oportunidade no mercado de trabalho. Tem uma série de demandas de carência. 

A postura do secretário do Tarcísio é de olhar para essa população como pessoas que devem ser alijadas dos seus direitos e jogadas para fora da sociedade e, quando forem vistas, serem vistas apenas para receber qualquer tipo de assistencialismo. Essa é uma ação higienista, criminosa, desastrosa, de quem não entende nada de direitos humanos, de gestão de pessoas e de como resolver a crise humanitária que tem tomado conta da cidade de São Paulo.

Nós temos uma crise humanitária na cidade, quiçá no estado de São Paulo. Eu acompanhei mais de perto a capital, por isso falo com propriedade, porque fui vereadora aqui, mas basta a gente ir para os interiores para vermos o aumento das populações em situação de rua em todo o estado, em todo o país, para ser mais específica. Porque a miséria, o desemprego, a pobreza e as desigualdades sociais foram completamente aprofundadas no governo Bolsonaro, as pessoas perderam a perspectiva de futuro, as pessoas foram deixadas à própria sorte. 

Ao falar de tudo isso que eu elenquei agora é que nós vamos tratar com respeito, com humanidade, com dignidade a população em situação de rua. Um secretário que se preste a dar um tipo de depoimento como esse não deveria sequer ser secretário. É secretário porque é de um governo alinhado ao governo Bolsonaro. E qual é a visão do governo Bolsonaro? Uma visão elitista, uma visão higienista, uma visão racista, uma visão classista, é tudo isso que está em torno dessa discussão.

É dizer: “nós, a elite paulista, a elite paulistana, não queremos conviver com essas pessoas que nos incomodam, que incomodam nossos olhos. Nós queremos fingir que a miséria e a pobreza que nós estruturamos, que nós causamos, não existem. Como nós fazemos isso? Nós matamos essas pessoas, nós tiramos elas daqui. Nós não damos condições delas se abrigarem da chuva, do frio, da fome, dos bichos, do espaço urbano”. 

É uma declaração que não é apenas desastrosa, cruel, covarde, ela é criminosa, porque é como se você fosse pegar essas pessoas, compulsoriamente, e tirar elas dos seus territórios. Essas pessoas têm história, essas pessoas têm amigos, essas pessoas têm bichos de estimação, convívio no lugar onde elas estão, não são almas vagantes, aleatórias.

A senhora também tem falado bastante sobre a disseminação de discursos de ódio nas redes sociais, principalmente no caso dos recentes ataques às escolas no Brasil. O governo tem tido contatos com plataformas como Twitter, por exemplo, e as primeiras respostas foram muito negativas, quanto ao controle e a regulação destas plataformas. É possível fazer essa regulação para que elas atuem de acordo com a legislação brasileira?

Olha, possível tem que ser, Zé. Nós não podemos acreditar que essas plataformas internacionais usem o território brasileiro e sejam mecanismos, canais, portadoras de mensagens de ódio, de violência, de estigma, de ataques, etc. Nós não podemos compactuar com isso.

Recentemente, após as eleições, o próprio ministro Alexandre de Moraes teve uma reunião com representantes das plataformas. Houve uma outra reunião recente, no âmbito do Supremo Tribunal Federal com esses representantes para tratarem dessa questão da regulamentação das plataformas no Brasil.

O governo tem feito agora essas ações, através do ministério da Justiça, do ministério dos Direitos Humanos. Há uma certa resistência, porque a gente sabe o quanto o ódio e a violência geram dinheiro, geram like, geram compartilhamento. Mas nós precisamos, enquanto sociedade, enquanto humanidade, nos comprometermos a fazer com que, de fato, essas plataformas possam ser regulamentadas e possam agir dentro da legislação. 

O que nós temos assistido nos últimos dias, referente aos ataques nas escolas é algo que transborda qualquer limite democrático, humano, civil. Ler aquelas notícias é algo que dá nó na nossa garganta. Deixa pais, alunos, professores, todo mundo extremamente preocupado com o futuro das nossas escolas, das nossas crianças e fica cada vez mais claro que é através das redes sociais, das plataformas de comunicação como WhatsApp, Telegram, etc, que essas máfias se utilizam para fazer esse tipo de diálogo.

Nós temos visto nos últimos dias um fenômeno muito assustador, que é o da mentira, da fake news, nomeando escolas, territórios, dizendo que serão atacados. Isso gera caos. Então eu acredito que esta é, sim, uma discussão difícil e não será fácil, porque se fosse, nós já teríamos avançado em instâncias como o Supremo Tribunal Federal.

Mudando um pouco de assunto, para falar sobre a sua trajetória. A senhora já foi deputada estadual na Assembleia Legislativa de São Paulo, em um mandato coletivo. Também foi vereadora, já passou por cargos legislativos importantíssimos. E agora está na Câmara dos Deputados, que é um desafio muito maior, os temas são muito maiores, a pressão é muito maior. O número de votos que a senhora recebeu também é muito maior. Como tem sido esse começo de trabalho no Congresso e se adaptar a essa nova rotina?
 
Olha, é tudo muito maior. Tem sido um aprendizado, porque eu tenho que reaprender o que é o espaço do legislativo, a partir da ótica do Congresso Nacional, que abarca ali a Câmara Federal e o Senado. Nós temos um grupo muito maior, estamos falando de 55 vereadores em São Paulo, para 512 deputados federais. Então, de fato o desafio é bem grande. 

Eu fiquei quase um mês afastada, agora no início da legislatura. Eu participei da minha Comissão de Direitos Humanos uma única vez, que foi na composição da presidência da mesa, e logo depois já fiquei doente. Estava conversando com a deputada Maria do Rosário (PT-RS) ontem, por WhatsApp, que também está adoecida, e nós falávamos exatamente sobre o quanto aquele espaço nos adoece e o quanto nós temos que nos cuidar para nos mantermos firmes, saudáveis, sadias.

Tem sido, para mim, uma experiência agradável, de entender também que é um desafio maior, mas o impacto que eu posso gerar nas comunidades que defendo, nos direitos que eu acredito, nas políticas que eu desenvolvo, também é muito maior. É a saída de um âmbito territorial, para um âmbito mais macro de país mesmo.

Tem seus sabores e dissabores, porque a gente tem que enfrentar episódios como, por exemplo, um deputado que, após uma fala minha, coloca uma peruca na cabeça e usa a tribuna para deferir ódio e violência contra um grupo extremamente precarizado. E esse é um episódio entre tantos outros episódios de desrespeito, de ataque, de violência. 

Nós temos que enfrentar uma extrema direita completamente fascista, porque aqui em São Paulo nós tínhamos os fascistinhas, fantoches do fascismo, que faziam uma encenação muito blasé. Lá não, nós estamos falando de homens muito perigosos, de pessoas que realmente acreditam naquilo que defendem e defendem com unhas e dentes, são capazes de tudo.

É intimidador, mas a minha trajetória de vida também é uma trajetória que foi intimidadora e eu nunca pude me acovardar diante dela. Eu sempre precisei ter ousadia, coragem, resiliência, então eu avalio como algo muito positivo. Eu quero, como fiz nos meus dois anos de mandato como vereadora, e ao final dos quatro anos de mandato como deputada estadual, deixar qualquer tipo de legado que eu consiga construir.

Porque também ali a construção é mais difícil, porque os enfrentamentos são muito maiores, mas tem sido uma experiência da qual eu tenho aprendido, gostado, e da qual eu acho que o meu papel é fundamental naquele espaço. Fazendo parte das primeiras deputadas travestis e transexuais eleitas, em uma Câmara de 512 deputados, que nunca contou com uma representação como a minha e da deputada Duda Salabert (PDT-MG). 

O desafio é maior, mas nós também temos potencial e capacidade de pensar políticas maiores, e com certeza deixaremos um lindo legado, mostrando que a nossa participação e a nossa presença naquele espaço tem um propósito. Nós fomos eleitas pelos gritos das minorias, pela necessidade da representação, pela necessidade de mudanças, de transformação, de um novo olhar sobre a política, pela renovação daquele espaço que ainda é muito masculino, muito branco, muito sexista. 

Representar tudo isso é algo que me engrandece, me enche de orgulho e me faz ter certeza do papel constitucional que o meu corpo e o meu mandato representam naquele espaço. E mesmo com os desafios, mesmos com os enfrentamentos, mesmo muitas vezes tendo nós na tripa quando vejo uma cena ou outra, eu sei do meu papel. 

E tem sido, de fato, um mandato histórico. A senhora, inclusive, presidiu uma sessão solene em homenagem à vereadora Marielle Franco...

A primeira travesti a presidir uma sessão solene na Câmara Federal. Eu mesma não tinha me dado conta disso, só fui me dar conta através da imprensa, que começou a noticiar “Erika Hilton faz história, a primeira travesti a presidir uma sessão solene na Câmara dos Deputados”. 

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E quando eu li essa matéria, eu já tinha gravado o vídeo para as minhas redes, já tinha feito o Twitter, já tinha feito uma série de coisas, e não tinha notado, não tinha me atentado a isso, até porque às vezes eu fico um pouco resistente com essa história de primeira, porque por mais que seja bom, ainda é uma denúncia de um estado que nos nega espaços.

Mas quando eu vi isso, eu me senti muito agraciada porque, de fato, não é só sobre ser a primeira, mas é sobre fazer história para um grupo que foi negado de ocupar esse espaço. Ser a primeira é dizer que nenhuma que tombou na ditadura, que nenhuma que tomba todos os dias nas esquinas, tombaram à toa. 

Que nós chegamos para ocupar e mudar esse lugar e que, sim, em 2023, por mais tardio que seja, nós tivemos uma travesti negra que saiu das esquinas também, que ocupou e conseguiu conquistar um lugar dentro da Câmara Federal, presidiu pela primeira vez uma sessão solene e que muito provavelmente não será a única, porque caminhos que se abrem, são muito mais difíceis de serem fechados. E isso é grandioso, porque cria perspectivas de um futuro melhor para essas meninas. 

Se eu, quando fosse criança, tivesse visto a travesti não só como chacota, como ridícula como piada, como drogada, prostituta, talvez quando eu tivesse sido expulsa da minha casa e ido para uma esquina, eu acreditaria que era possível ter um futuro melhor. Eu me vejo nesse espaço como alguém que pode construir, para essa geração que me olha com uma inspiração, a possibilidade, não necessariamente de que elas sejam deputadas, vereadoras ou senadoras, mas que elas possam ser alguém na sociedade.
 
O ministro Ricardo Lewandowski deixou o STF e muitos nomes já surgiram no horizonte para fazer a sucessão dele na corte. A senhora acha possível que os deputados da base aliada do governo estudem apresentar um nome ao presidente? Esse, talvez, seja o momento ideal para que uma mulher negra assuma a cadeira da corte, não é?
 
Com certeza, é o momento ideal para que uma mulher negra assuma a cadeira da corte. Nós precisamos de mais mulheres, negras e negros ocupando a corte. Nós precisamos que a corte reflita as mudanças da sociedade. Inclusive, há uma pressão de juristas negros, uma grande movimentação no próprio Congresso, de pessoas que estão querendo se colocar como candidatas à essa vaga. 

Eu acho que este é um momento crucial para o governo dar uma resposta. Acho que seria grandioso ao Supremo Tribunal Federal, seria grandioso ao governo Lula, seria grandioso a nação brasileira, que nós tivéssemos, sim, uma mulher negra ocupando aquele lugar. Que seria a primeira. Nós tivemos um negro até hoje, que foi o ex-ministro Joaquim Barbosa. Depois que o ministro saiu, nós não tivemos nenhuma outra pessoa negra e isso não é uma discussão menor. 

Isso não é uma discussão só sobre identidade, isso é uma discussão de enfrentamento ao racismo, de demonstração de pessoas negras em espaços importantes de poder e de tomada de decisão. É uma discussão que está na mesa, que está pautada, que espero muito que o governo possa acatar. 

Nós teremos duas vagas, porque na sequência, a ministra Rosa Weber também. Acho que o governo tem condições de colocar ali alguém que possa, de fato, não só ser um bom ministro e defender a Constituição e os direitos do povo, mas também representar as transformações e as mudanças da sociedade. 

Com relação à indicação da base do governo, nós sabemos, há rumores, de que o presidente Lula não gosta muito dessas interferências para a indicação de nome de ministros, que é ele quem fará a indicação, que ele já indicou vários ministros, que ele sabe fazer essa indicação. 

Então, talvez não sei se é um momento amigável para que se faça esse tipo indicação. Acho que as pessoas mais próximas ao presidente podem soprar um nome ao presidente, mas é claro, essa é, sem sombra de dúvida, uma decisão do Presidente da República e o Lula, o único presidente com três mandatos, com certeza saberá fazer uma boa indicação. E isso não significa que ele não possa errar na sua indicação, mas nós esperamos que ele faça uma boa indicação. 

Cabe a nós fazer um debate sobre a importância de que haja mais mulheres, em especial mulheres negras, ocupando esse lugar e que o presidente possa escutar esses clamores da base e possa escutar esses clamores da sociedade, do próprio meio jurídico. Há muitas mulheres negras capazes, competentes, eu mesma falei com algumas na própria Câmara, que estavam ali fazendo suas campanhas.

Edição: Rodrigo Durão Coelho