Lançamento

De onde vem? Livro investiga raízes da LGBTQIA+fobia em lares cristãos do Brasil

Discurso fundamentalista alimenta ciclo de exclusão que começa em casa e se amplia na sociedade

Brasil de Fato | São Paulo (SP) |

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O Brasil é um dos países mais perigosos do mundo para pessoas LGBTQIA+, como é amplamente provado por dados, estudos e pesquisas. Um livro lançado recentemente revela que esse ciclo de exclusão e marginalização começa em casa e está muito presente nos lares cristão brasileiros.

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Semente de Vida: rejeição e aceitação de filhos/as/es LGBTI+ em lares cristãos nasceu de um estudo que juntou especialistas e ativistas em torno de um intenso processo de escuta. A obra reúne histórias de filhos, filhas e filhes, mas também de pais, mães, cuidadores e cuidadoras.

“O livro é um mergulho para investigarmos de forma cuidadosa e corajosa esse tema tão complexo. Fomos olhar para o que acontecia dentro desses lares cristãos, entender relação e esse processo de revelação, onde tantos sentimentos controversos estão envolvidos”, afirma o comunicador social e ativista Gut Simon, idealizador e diretor executivo do projeto.  

Além de olhar para as experiências, dores e superações dos dois lados do conflito, a obra traz o trabalho de especialistas em teologia, saúde mental, ciências políticas, família e estudos comunitários. Os múltiplos olhares observaram que o discurso fundamentalista religioso impulsiona a violência. 

“Pudemos reconhecer ou revelar, para nossa surpresa, o que temos compreendido como a raiz da LGBTfobia ou a raiz de todo esse sofrimento comum da maioria das pessoas LGBTs - que no livro chamamos de ciclo de rejeição e violência. Identificamos que esse ciclo de rejeição começa na família, dentro dos lares."

"Ele é impulsionado por um discurso que cria a ideia de pecado, de que não merecemos o Reino do Céu, de que há algo errado e de que isso não é natural aos olhos de Deus", alerta Simon.

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Ainda que encontre no ambiente familiar e doméstico a origem da opressão, a obra também identifica a solução dentro de casa. Experiências pautadas pelo princípio de que Deus é amor revelam esperança de uma mudança urgente e totalmente necessária para manutenção da democracia brasileira e das garantias previstas na Constituição.

Essa urgência fica explícita em dados que apontam uma morte por homofobia a cada 29 horas no Brasil. O país é também a nação com mais assassinatos de transexuais no mundo. O cenário pode ser ainda pior, já que a maior parte dos estados e municípios não compila e não apresenta informações sobre o tema. 

O pastor Bob Luiz Botelho, cofundador da organização Evangélicxs Pela Diversidade, que foi responsável pela coordenação teológica e assessoria curatorial do livro, afirma que o processo de construção da obra também revelou “sementes de afeto” capazes de reverter o ciclo de exclusão.

“Eu aprendi nessa caminhada que os pais e as mães rejeitam porque estão sofrendo, e essa é uma coisa importante de ser dita. Se tem um algoz ou um vilão nessa história, o vilão é o discurso fundamentalista religioso, que manipula e coloca os meus pais contra mim. E me coloca contra os meus pais porque me coloca numa posição de acreditar que eu nunca vou ser amado por eles.”

Segundo ele, o livro vai além da sistematização do problema. “Essas discussões mostram para nós que existe uma semente de afeto, de potência. Primeiro mostramos esse cenário complexo e difícil, mostramos as disputas no campo cristão, as falas institucionais de grandes igrejas. Mas depois, fomos para um lugar de pensar que isso não é o fim. Temos um problema aqui, mas nós também temos sementes plantadas nessa terra arrasada.”

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Além de Gut Simon e Bob Luiz Botelho, Semente de Vida– Rejeição e Aceitação de filhos/as/es LGBTQIA+ em lares cristãos, também tem autoria da jornalista e teóloga, Ana Ester e de Tania Afonso, mestre em Linguística e doutora em educação pela Universidade Federal de Minas Gerais.A obra já está disponível para aquisição e mais informações sobre o projeto podem ser acessada no Instagram.

A entrevista na íntegra com Simon e Botelho pode ser escutada no tocador de áudio abaixo do título desta matéria 
 

Edição: Rodrigo Durão Coelho