Cúpula no Japão

Lula encerra participação no G7 e contesta poder geopolítico de países ricos

Lula criticou alianças excludentes entre países, que dificultam superação da fome e das mudanças climáticas

Brasil de Fato | São Paulo (SP) |
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante fotografia oficial dos chefes de delegação dos países membros e dos países convidados do G7. - Ricardo Stuckert/PR

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) finalizou a sua participação na cúpula dos líderes do G7 com uma postura considerada de contestação e crítica ao poder dos países mais industrializados do mundo, que integram o grupo. No encerramento, Lula criticou o modo como as potências lidam com as crises geopolíticas e afirmou que é “preciso romper com a lógica de alianças excludentes e de falsos conflitos entre civilizações”. 

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“A multipolaridade que o Brasil almeja é baseada na primazia do direito internacional e na promoção do multilateralismo. Reeditar a Guerra Fria seria uma insensatez. Dividir o mundo entre Leste e Oeste ou Norte e Sul seria tão anacrônico quanto inócuo. É preciso romper com a lógica de alianças excludentes e de falsos conflitos entre civilizações”, declarou o presidente em seu último discurso na cúpula. 

O encontro ocorreu em Hiroshima, no Japão, e teve início última sexta-feira (19). Participaram líderes e representantes do G7, composto por Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido.

“O mundo já não é o mesmo. Guerras nos moldes tradicionais continuam eclodindo, e vemos retrocessos preocupantes no regime de não-proliferação nuclear, que necessariamente terá que incluir a dimensão do desarmamento. As armas nucleares não são fonte de segurança, mas instrumento de extermínio em massa que nega nossa humanidade e ameaça a continuidade da vida na Terra”, disse. 

Ao falar da Ucrânia, Lula declarou que “nenhuma solução será duradoura se não for baseada no diálogo” e que é necessário “trabalhar para criar o espaço para negociações”. “Repudiamos veementemente o uso da força como meio de resolver disputas. Condenamos a violação da integridade territorial da Ucrânia. Ao mesmo tempo, a cada dia em que os combates prosseguem, aumentam o sofrimento humano, a perda de vidas e a destruição de lares.” 

Este posicionamento do presidente chamou a atenção de especialistas em política externa, porque contestou o poder dos países do G7 sobre o mundo. É o que defende o professor de Relações Internacionais e Economia da Universidade Federal do ABC (UFABC), Giorgio Romano Schutte, que é também membro do Observatório da Política Externa e da Inserção Internacional do Brasil (OPEB). 

“Lula deixou claro, por exemplo, que o fórum de debate deveria ser o G20, onde os países do Sul global participam em pé de igualdade, e que as decisões deveriam ser tomadas no fórum multilateral das Nações Unidas”, analisa Schutte. 

Na avaliação do professor, Lula "questionou a legitimidade dos países do G7 de se colocarem como líderes do mundo" e criticou a criação de "alianças excludentes e de falsos conflitos entre civilizações", que por sua vez dificultam a criação de alianças necessária para resolver os problemas globais como às crises ambientais, a segurança alimentar, as pandemias e a paz. 

“Lula falou o que tinha de falar de forma explicita, nas entrelinhas e nos gestos não verbais. Ficou a impressão, porém, que os líderes do G7 fizeram ouvidos moucos enquanto a opinião púbica nos países do G7 é chamada a se indignar com uma suposta indisposição do Lula de se encontrar com Zelensky. Todos os mandatários do G7 gostam de Lula, reconhecem sua liderança e carisma, gostam de estar na foto com o presidente, mas esperam que ele se limite à agenda que interessa também a eles”, conclui Schutte. 

Ao contrário do que foi inicialmente comunicado, Lula não se encontrou com o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelensky, para uma conversa bilateral durante a cúpula por desencontro de agendas, conforme foi informado. 

Diferente de outros países ocidentais, o Brasil não concordou com a imposição de sanções financeiras à Rússia e tenta, nesse sentido, se colocar como um ponto de mediação entre os dois países, assim como a China.

Edição: Sarah Fernandes