Virada Cultural

Jovem obrigado pela PM a comer baseado vê racismo: 'Vários playboys fumando'

MC Guih da Norte, que também teve roupa rasgada e tomou socos, foi abordado junto com o influenciador Chavoso da USP

Brasil de Fato | São Paulo (SP) |
Manifestantes denunciam violência policial dos órgãos de segurança do estado, principalmente contra os jovens negros - Marcus Perez – CUT-RS

Domingo, início de noite. Na Virada Cultural paulistana, o rapper Emicida se apresentava em um palco no bairro da Brasilândia, bairro periférico da zona norte da cidade. O artista performava Ismália, música que denuncia o racismo presente na sociedade brasileira, para uma plateia mesclada, composta tanto de moradores da região como de gente de fora, muitos deles de classes mais ricas,  que aproveitaram a oportunidade para ver o astro de perto em um show gratuito.

Esse foi o cenário da agressão policial sofrida por dois jovens negros. O influenciador e professor Thiago Torres, conhecido como Chavoso da USP, denunciou ter sido vítima, junto com o artista MC Guih da Norte, de abordagem violenta, com agressão e tortura, enquanto assistiam, de longe, Emicida cantar:

Minha cor não é uniforme
Hashtags #PretoNoTopo, bravo!
80 tiros te lembram que existe pele alva e pele alvo
Quem disparou usava farda (Mais uma vez)
Quem te acusou nem lá num tava (Banda de espírito de porco)

Em entrevista ao Brasil de Fato, MC Guih da Norte - ou Guilherme, que preferiu omitir o sobrenome -, contou que a abordagem foi injustificada, pois eles não demonstraram qualquer comportamento que justificasse suspeitas. "Estávamos no show, o Thiago disse que estava cansado e fomos para a parte de trás sentar", explica.

"Pedi para ele tirar uma foto e estava olhando o celular quando fomos surpreendidos por três policiais, que já chegaram gritando e intimidando", ele conta. Gui alega que não viu a placa de identificação dos agentes e que, aparentemente, só um deles estava com a câmera no uniforme.

Os policiais teriam perguntado, aos gritos, se os jovens portavam alguma droga ilegal. A pergunta aconteceu sem qualquer evidência de uso de entorpecentes. Nenhum dos dois estava fumando sequer cigarros. Mas Gui tinha um baseado pronto no bolso, uma mistura de tabaco com haxixe, e, acostumado com esse tipo de abordagem, admitiu aos agentes que tinha o baseado. 

Ao saberem da existência do baseado, os PMs, alega o jovem, obrigaram-no a comer a mistura. "Eu falei que não ia comer, que podia me dar uma intoxicação, mas eles me agrediram e rasgaram e minha roupa. Tentei argumentar, mas tive que comer", conta Guilherme.

Sem que os agentes percebessem de imediato, Thiago gravou uma parte da abordagem. No vídeo, que ele postou em suas redes sociais, é possível escutar o policial agredindo Guilherme  verbalmente. Thiago e Guilherme alegam que foram agredidos fisicamente em diversos momentos da abordagem.

Em outro vídeo - que, na postagem de Thiago aparece após o primeiro - é possível identificar um dos policiais questionando a legalidade da gravação e exigindo que ele desbloqueasse o aparelho. De acordo com a legislação, o desbloqueio do celular só pode ser exigido mediante mandado judicial. A gravação de abordagem policial também é um direito de todo cidadão.

Na entrevista ao Brasil de Fato, Guilherme deixa transparecer o sentimento de injustiça. "Eles ficavam falando que tinha criança na região, que eu ia fumar na frente delas. Nem tinha criança lá na hora, mas eu não ia nem fumar. Só que no show dava pra ver um monte de 'playboy' fumando sem serem incomodados", afirma. 

O jovem tem dificuldade de terminar a descrição da abordagem policial, pois depois de comer o haxixe - um subproduto da maconha - ele passou a sentir os efeitos da droga. Mas lembra que ele e Thiago foram impedidos de retornar ao show. Os policiais chegaram, ainda, a jogar todos os pertences da mochila dele no chão.

Guilherme acredita que só se safaram de violência maior depois que Thiago afirmou aos policiais que era conhecido nas redes sociais. Chavoso da USP tem cerca de 180 mil seguidores no Instagram e mais de 170 mil no Twitter. "Quando ele falou isso para os policiais, eles mandaram a gente virar de costas. Não vi o que eles fizeram, mas acho que pesquisaram o nome dele. Depois, mandaram a gente sair andando".

Repercussão

A denúncia de Thiago repercutiu nas redes sociais. Apenas no Twitter, as postagem relacionadas à denúncia foram visualizadas mais de 2 milhões de vezes, com cerca de 16 mil curtidas e centenas de comentários de apoio. O próprio Emicida fez uma postagem de apoios aos agredidos. 

A viralização teve seu preço. Guilherme conta que a pior parte da violência sofrida foi ter sua mãe alertada por conhecidos do que aconteceu com ele. "As pessoas viram a postagem e foram mostrar pra ela", explica. "Ela ficou arrasada. Que mãe quer ver seu filho sendo agredido e humilhado daquele jeito?"

E, com o ônus, Guilherme não acredita que haja qualquer bônus. Ele já está acostumado com abordagens policiais de variados graus de violência. "Não foi a primeira, nem a segunda, nem a décima nem a vigésima", explica. Para ele, ainda que haja alguma punição a esses agentes específicos, ele vai seguir esbarrando com a polícia ao virar a esquina. Dessa vez, sem a companhia de um amigo famoso para protegê-lo.

Procurada, a Polícia Militar de São Paulo respondeu com uma nota curta:

O Comando de Policiamento atua para identificar os policiais envolvidos na ação relatada para esclarecimento dos fatos. A Corregedoria da Polícia Militar está à disposição para que o jovem formalize sua denúncia.

Edição: Rodrigo Durão Coelho