Memória

Vigília e marcha pela democracia: uruguaios realizam atos para recordar 50 anos do golpe

Última ditadura do país, que durou 12 anos, teve início no dia 27 de junho de 1973

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Ato pela memória no Uruguai, em | Crédito: Pablo Porciuncula / AFP

Diversos coletivos e organizações políticas e sociais do Uruguai realizam nesta terça-feira (27/06) diferentes atos para recordar uma das datas mais sentidas no país: o aniversário do golpe de Estado que deu início à última ditadura do país, que completa meio século este ano.

Os eventos tiveram início nesta segunda-feira (26/06), quando o Congresso Nacional realizou uma sessão especial, iniciada com um minuto de silêncio e seguida de por série de homenagens aos parlamentares que sofreram perseguição após a dissolução do parlamento, há 50 anos.

Ainda nesta segunda, diversos coletivos realizaram vigílias em frente aos edifícios do Congresso e do Palácio Estévez, antiga sede do Poder Executivo – atualmente usada para eventos protocolares e como museu histórico.

Na manhã desta terça, a aliança formada pelo Plenário Intersindical de Trabalhadores e pela Convenção Nacional dos Trabalhadores (PIT-CNT) realizou uma marcha pelo centro de Montevidéu. O evento, segundo os organizadores, serviu não só para relembrar o aniversário do golpe como também para reivindicar as principais demandas atuais do setor trabalhista, assim como a defesa da água, o fortalecimento das empresas públicas, e questões relativas aos direitos humanos.

O vice-presidente da PIT-CNT, José Lorenzo López, disse em comunicado à imprensa local que este será “um dia de memória e luta”, e recordou que o golpe de 1973 foi dado quando o Uruguai vivia um contexto de greve geral dos trabalhadores.

“A greve (de 50 anos atrás) não surgiu de um dia para o outro, pois já vinha sendo discutida e preparada há muito tempo. Nesse quadro, combinou-se algo semelhante ao que está acontecendo agora, pois em meio à situação que o país vivia, os sindicatos exigiam uma visão de país diferente da que tinha o governo da época”, afirmou o sindicalista.

A Universidade da República, maior universidade pública do Uruguai, também programou diversos atos, palestras e cerimônias, em seus diferentes campus, para recordar os 50 anos do golpe. O principal será o seminário "Partidos Políticos e Poder Judiciário durante o Golpe", que será organizado pelo Instituto de Ciências Políticas da casa de estudos.

Contexto histórico

Em 27 de junho de 1973, o então presidente Juan María Bordaberry decretou a dissolução do Congresso, com o argumento de que alguns parlamentares eram aliados de grupos considerados “terroristas”, como o Movimento de Liberação Nacional (MLN), mais conhecidos como “Tupamaros” – apelido que, com o tempo, levou a sigla a mudar para MLN-T.

“As ações delinquentes de conspiração contra a pátria, aliada à grupos políticos que carecem de sentido nacional, se encontram instaladas nas próprias instituições, de forma encoberta, camuflando-se em uma atividade formalmente legal”, afirma o texto do decreto.

A medida apontava não só a incrementar a perseguição aos tupamaros (grupo ao qual pertencia José “Pepe” Mujica, que seria presidente do país entre 2010 e 2015) como também a criminalizar políticos da então recém-nascida Frente Ampla de Esquerda, como Líber Seregni, Rodney Arismendi e Alba Roballo.

O decreto de Bordaberry foi um autogolpe. Eleito democraticamente em 1971, o líder do tradicional Partido Colorado passou a ser ditador do Uruguai, apoiado também pelo Partido Blanco (hoje chamado Partido Nacional, o mesmo do atual presidente Luis Lacalle Pou) e pelas Forças Armadas, aliança que permitiu a ele governar sem parlamento até 1976, auxiliado por um Conselho de Segurança Nacional (COSENA) dominado por militares.

Além das mais de 5 mil pessoas presas por motivos políticos, a ditadura uruguaia se caracterizou por seu forte aparato de tortura e pelo regime de isolamento imposto a alguns dos líderes tupamaros.

O filme “Uma Noite de 12 Anos”, do diretor Álvaro Brechner, retrata as violências sofridas por três desses presos políticos: Pepe Mujica, Eleuterio Fernández Huidobro (que seria ministro da Defesa do governo de Mujica) e Mauricio Rosencof. Este último foi o autor do livro que inspirou a película.

Ao deixar o poder, em junho de 1976, Bordaberry entregou o poder a outro político colorado, Alberto Demicheli, que governou interinamente por apenas três meses. O acordo entre os setores golpistas visava um revezamento na Presidência e o Partido Blanco exigia governar a partir de então. Em setembro daquele ano, o líder blanco Aparicio Méndez assumiu o poder, que manteve até 1981.

Para completar o acordo da tríade golpista e confirmar que se tratava de uma ditadura civil-militar, o último período da ditadura, entre 1981 e 1985, foi liderado pelo general Gregorio Álvarez, que comandou o COSENA nos anos anteriores.

O Uruguai só voltou a ter eleições em 1984, pleito vencido por Julio María Sanguinetti, do Partido Colorado, o mesmo que apoiou e iniciou o regime ditatorial.

A Frente Ampla de esquerda só chegaria ao poder em 2005, com Tabaré Vázquez. Seu sucessor, em 2010, seria o ex-tupamaro e ex-preso político Pepe Mujica.

* Com informações de La Diaria e TeleSur.

Conteúdo originalmente publicado em: Opera Mundi

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