Estratégia

Companheiro Tarcísio? Governador tenta se aproximar da centro-direita e se afastar da esquerda

Ex-ministro defendeu que direita deveria ser favorável à reforma tributária e foi criticado por bolsonaristas

Brasil de Fato | São Paulo (SP) |
André Janones e Tarcísio de Freitas após a aprovação da reforma tributária em primeiro turno na Câmara dos Deputados - Reprodução/Twitter

O deputado federal André Janones (Avante-MG) publicou uma foto ao lado de Tarcísio de Freitas (Republicanos) agradecendo ao governador de São Paulo pelo apoio na votação da Reforma Tributária no Congresso Nacional, aprovada na Câmara nesta quinta-feira (6).  

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Na legenda, o congressista chama o governador de “companheiro Tarcísio”, o que foi suficiente para despertar a ira bolsonarista contra o ex-ministro da Infraestrutura no governo de Jair Bolsonaro (PL). Nas redes sociais, Tarcísio está sendo pintado como “o candidato do sistema” para a eleição presidencial de 2026 e como responsável por trair o PL e Bolsonaro.  

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No mesmo dia da votação, Tarcísio foi alvo de críticas durante uma reunião do Partido Liberal sobre a reforma tributária. Enquanto o governador fez a defesa do projeto, o ex-presidente deu declarações contrárias. O deputado federal Ricardo Salles (PL-SP) chegou a dizer que ninguém “outorgou ao Tarcísio o direito de falar em nome dos deputados do PL”. Após a publicação de Janones, feita ainda nesta quinta-feira, as rusgas escalaram. 

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Diferente do que está sendo jogado aos quatro ventos por bolsonaristas, Tarcísio de Freitas ainda é um aliado de Jair Bolsonaro. Recentemente, o governador hospedou o ex-presidente no Palácio dos Bandeirantes. "Vocês precisam entender o seguinte: o ex-presidente Bolsonaro é meu amigo. Então, é uma visita de amigos. Ele tem uma questão pessoal para resolver em São Paulo, veio para São Paulo, vai ficar hospedado aqui porque é um grande amigo", disse. 

Tarcísio também declarou apoio ao ex-presidente após a decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em torná-lo inelegível por oito anos.  “A liderança do presidente Jair Bolsonaro como representante da direita brasileira é inquestionável e perdura. Dezenas de milhões de brasileiros contam com a sua voz. Seguimos juntos, presidente”, afirmou em publicação no Twitter. 

Durante a reunião do PL sobre a reforma tributária, Tarcísio afirmou que a “direita não pode perder a narrativa de ser favorável a uma reforma tributária, por que senão a reforma tributária acaba sendo aprovada e quem aprovou? A grande questão é construir um contexto”. Em seguida, Bolsonaro disse: “Pessoal, se o PL estiver unido, não aprova nada”.  

Joyce Luz, doutoranda em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora do Núcleo de Instituições Políticas e Eleições no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Nipe/Cebrap), acredita que as declarações de Tarcísio sobre a reforma tributária tiveram a intenção de dizer que a direta precisa “deixar a sua marca” no projeto. 

“Ele fala que a direita precisa se posicionar e participar da reforma tributária, que não se trata somente de fazer oposição, mas de não perder a oportunidade que a direita tinha de deixar a sua marca na reforma tributária. Quando ele fez essa fala claramente estava indicando para o eleitor que ele está caminhando para um lado mais independente”, afirma Luz. 

O posicionamento indica que o governador “não está caminhando nem muito para o lado do PT e também não muito para o lado do próprio Bolsonaro e do PL”, mas para o centro-direita. “Não posso afirmar que ele vai continuar sendo bolsonarista, porque ele precisa fazer o cálculo do quanto ele continuar sendo bolsonarista ou atrelado ao bolsonarismo vai garantir a sua reeleição como governador ou sua possível candidatura como presidente.” 

A cientista política defende que nos próximos quatro anos, o governador deve se movimentar em direção ao centro da política, com o objetivo de conquistar os eleitores que não se identificam nem com Bolsonaro nem com Lula. “Sua recente aproximação com o governo Lula para negociações em São Paulo já indica a estratégia que ele pretende adotar, buscando conquistar um eleitorado que não está totalmente alinhado com Bolsonaro nem com o PT.” 

Edição: Leandro Melito