SUSTENTO DE LUTAS

Comer bem é muito mais do que acessar alimentos

Ajuembó e Frente Parlamentar pela Alimentação Saudável permitem ver novos horizontes para o direito mais básico

Brasil de Fato RS | Porto Alegre |
"Aprendemos que a comida é direito sagrado e sustento de sonhos e lutas"
"Aprendemos que a comida é direito sagrado e sustento de sonhos e lutas" - Foto: Periferia Viva

Na quinta-feira, 3 de agosto de 2023, dois eventos na Assembleia Legislativa do RS permitiram ver novos horizontes para o direito mais básico da humanidade: o direito a comer, e comer bem. Primeiro o lançamento de "Ajeumbó, Cooperativa do Povo", que nasce da união de forças entre a agricultura familiar e as organizações religiosas e sociais do povo negro no Rio Grande do Sul.

Esta "cooperativa do povo" se apresenta como uma organização catalisadora de diversos projetos. Reúnem as comunidades e territórios quilombolas, as comunidades religiosas afro-brasileiras, territórios sagrados (terreiros e casas), pessoas que produzem alimentos saudáveis na agricultura familiar, o Movimento de Trabalhadores e Trabalhadores Rurais sem Terra, e pessoas que atuam como ativistas de políticas públicas de direitos humanos, inclusão e justiça social, na política institucional e popular.

:: Lançamento da Frente Parlamentar de Combate à Fome com Alimentação Saudável lota plenarinho da Assembleia gaúcha ::

Nesta proposta o "comer" é muito mais do que acessar alimentos. Comer é vencer a exclusão, a invisibilidade, a exploração, a discriminação, a segregação e tantos outros males que atingem principalmente às pessoas negras e pobres das periferias. Do outro lado, produzir alimentos para se alimentar, e alimentar outras pessoas, é muito mais do que plantar e colher, é criar espaços de troca e aprendizado mútuo, de crescimento e de superação de barreiras econômicas, políticas, sociais, culturais e religiosas.

A Frente Parlamentar pela Alimentação Saudável emerge impulsionada pela reconstrução e abertura de políticas públicas de produção, comercialização e acesso aos alimentos por parte das pessoas excluídas e forçadas a se alimentar prejudicando sua saúde e sua vida. Sinal de um novo tempo que foi construído na luta contra os governos golpistas, reacionários e antipopulares de Temer e Bolsonaro. Enfim, uma oportunidade ímpar de retomar o que Paulo Freire chama de "esperançar" e reafirmar a capacidade das organizações populares de transformar a realidade em que vivem e de construir uma sociedade mais justa e igualitária para todas as pessoas.

No meio disso tudo, graças a Deus, estávamos nós. Nós somos aquelas pessoas que, independentemente de nossas tradições religiosas, temos a fé que vem do agir solidário, da entrega transformadora, dos sonhos semeados na terra fértil de história da libertação dos povos e da superação de todas as formas de injustiça, discriminação e exclusão.

Estava ali com Babá Omi Luciano – um dos promotores de Ajeumbó, que me convidou a estar junto –, Frei Luis Carlos Lunardi – companheiro de muitas lutas e de muitos sonhos – e diversas autoridades religiosas afro-brasileiras. Ali vimos que a fé – quando não é usada como arma discriminatória, excludente, justificadora da opressão e o preconceito – é uma poderosa ferramenta aglutinadora do que temos de melhor como humanidade e fermentadora de sonhos concretos, de ações poderosas e de partilhas generosas. Ali, desde minha matriz religiosa judaico-cristã, lembrava que, em um dos mitos da criação, o ser humano (Adam) que emerge da terra fértil da roça (Adamáh) se completa com a Vida (Eva) para encontrar sua plenitude.

:: Combate à fome: Lula sanciona PAA e cozinhas solidárias com orçamento de R$ 500 milhões ::

Deveríamos ter aprendido que a terra não é nossa; é nós que somos da terra, e que a Vida é o maior dom – dom feminino – que vem da Divindade Criadora. Há tempo deveríamos ter aprendido que as bênçãos vêm do dom de Deus que é a terra, do dom humano que é partilha. Aqui isso foi ensinado mais uma vez, em comunhão com a fé que veio através de pessoas sequestradas e escravizadas, que ainda sofrem o racismo e a exclusão social, política e econômica; e de pessoas que abraçam a terra, não como negócio, mas como mãe e sustento da vida.

Aprendemos que a comida é direito sagrado e sustento de sonhos e lutas. Esta aula, que começou no 3 de agosto na Assembleia Legislativa do RS, com Ajeumbó e a Frente Parlamentar pela Alimentação Saudável, apenas está começando! Ali mesmo se ouviu a profecia de que deve se tornar uma política pública para todo o país.

Resta apenas agradecer por ter aprendido tanto, e reafirmar nosso compromisso de seguir na marcha com todas as pessoas que alimentam sonhos e constroem vidas, porque um mundo melhor é possível.

* Humberto Maiztegui Gonçalves é presidente do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do RS, membro do Fórum Inter-religioso e Ecumênico do RS e referencial para Incidência Pública, Direitos Humanos e Combate ao Racismo da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil.

** Este é um texto de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Fonte: BdF Rio Grande do Sul

Edição: Marcelo Ferreira