Economia

Na briga entre EUA e China, México sai vencedor

Multinacionais estão investindo como nunca no país latino-americano, apesar de problemas de violência e infraestrutura

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López Obrador anunciou em fevereiro a construção da fábrica da Tesla no país - AFP

Em meados de julho, uma delegação empresarial liderada pelo embaixador alemão no México, Wolfgang Dold, viajou para o estado de Sonora, no norte do país. Várias empresas alemãs estavam representadas, incluindo a Siemens Energy, a gigante do setor de gases industriais Linde, a companhia de energia RWE e a Daimler Trucks, que fabrica caminhões.

"A Secretaria da Economia de Sonora nos convidou para apresentar o Plano Sonora", diz Edwin Schuh, diretor para o México e o Caribe da Germany Trade & Invest (GTAI), a agência alemã de comércio exterior. Trata-se de um ambicioso projeto de infraestrutura do governo central que visa promover a construção de parques solares e a mineração de lítio.

Sonora abriga os maiores depósitos de lítio do país, que foram nacionalizados no ano passado. "No médio prazo, o governo planeja produzir baterias para carros elétricos em Sonora", diz Schuh. Isso poderia ser interessante para as empresas automobilísticas alemãs.

A montadora norte-americana Ford já opera uma enorme fábrica em Hermosillo, e algumas empresas alemães de autopeças também estão no local. A depender da vontade do governo, novas companhias chegarão. Foi criada uma autoridade especial para atender empresas que desejam se instalar na região, a Ventanilla de Nearshoring.

Nearshoring é a nova palavra mágica no México. Em vez de trazer mercadorias do outro lado do mundo em contêineres, muitas empresas agora tentam transferir a produção para perto dos mercados mais importantes.

Vários fatores confluem para isso. A pandemia revelou a vulnerabilidade das cadeias de suprimentos, e os lockdowns e interrupções de produção e entrega, bem como o aumento drástico dos custos de transporte, criaram problemas para muitas empresas. Além disso, a disputa comercial entre os EUA e a China se intensificou nos últimos anos. E ainda há o aumento dos custos salariais na China.

Isso beneficia muito o México, devido à sua proximidade com os EUA. A revista britânica MoneyWeek escreveu neste mês sobre o "momento do México". O título da matéria de capa diz que os investidores "deveriam participar da fiesta" mexicana. E os números mostram que eles estão fazendo isso.

Cerca de 18,6 bilhões de dólares em investimentos estrangeiros diretos fluíram para o México no primeiro trimestre de 2023 – quase 50% a mais do que no mesmo período do ano passado. O jornal Washington Post também informou que os EUA estão importando cada vez menos produtos da China, e que o México é agora o parceiro comercial mais importante dos EUA.

Essa tendência é favorecida pelo Acordo de Livre Comércio Estados Unidos-México-Canadá, ou USMCA, renegociado por iniciativa do então presidente dos EUA, Donald Trump, e que entrou em vigor no verão de 2020.

Companhias realocando produção

"O importante é que as empresas estão produzindo aqui no México", diz Schuh. Muitas estão se instalando na região central do país ou em regiões próximas à fronteira norte, como no estado de Nuevo León, considerado uma boa opção devido à proximidade com o Texas e à infraestrutura disponível.

Em março, a fabricante de carros elétricos Tesla anunciou a construção de uma nova fábrica em Nuevo León, onde planeja investir cerca de 5 bilhões de dólares nos próximos anos. A Microsoft, por sua vez, está investindo centenas de milhões de dólares em um centro de dados em Querétaro, na região central do México.

"Mas também há muitas empresas chinesas chegando, que produzem aqui no México para o mercado americano", diz Schuh. Ele cita como exemplo a empresa de eletrônicos Hisense, que está construindo uma segunda fábrica no país latino-americano. Companhias do Japão, Coreia do Sul e Taiwan também estão investindo no México, "por um lado, para se aproximar do mercado dos EUA", diz Schuh. "Mas também por causa do conflito entre a China e Taiwan. As empresas querem minimizar o risco se o conflito piorar."

Nesse processo, algumas empresas estão tendo dificuldades para obter terrenos industriais disponíveis conectados à rede elétrica e de água, diz. "No norte do México, mais de 95% dos terrenos dos parques industriais estão ocupados. O governo está planejando construir um novo parque industrial em Sonora."

Montadoras alemãs investindo no México

Da Alemanha, são principalmente os fabricantes de automóveis e autopeças que estão investindo. O acordo de livre comércio Nafta fez do país um dos locais mais importantes do mundo para o setor automotivo. Uma parte significativa da produção de automóveis dos EUA foi terceirizada para o México, e o país também se tornou um importante local de produção para as montadoras alemãs, como Volkswagen, Audi, BMW e Daimler.

Desde o USMCA, que sucedeu o Nafta, há requisitos mais altos para que as montadoras agreguem valor na própria América do Norte, ou seja, a parcela obrigatória de peças produzidas na região, o que contribui para a expansão da produção. "A maioria das empresas já está aqui, mas está expandindo sua produção no México", diz Schuh. Além disso, há uma "tendência de mudança para a mobilidade elétrica".

No início de fevereiro, a BMW anunciou um investimento de mais de 800 milhões de dólares no México para integrar sua fábrica em San Luis Potosí à sua rede de eletromobilidade. A Audi também anunciou um projeto para produzir veículos elétricos no México. E a Volkswagen está investindo mais de 700 milhões de dólares, inclusive na construção de um novo setor de pintura em sua unidade de Puebla. A maior empresa alemã no México, com 25 mil funcionários, é a fornecedora de autopeças ZF Friedrichshafen, e também está investindo pesado.

O problema da segurança

Mas também há pontos negativos. O México tem há anos uma brutal guerra contra o narcotráfico, e áreas do país são controladas por gangues. "A situação da segurança é um problema", diz Schuh. Há estados no norte, como Tamaulipas, "que já são áreas relativamente proibidas" por causa do narcotráfico.

Um fornecedor alemão de autopeças está atualmente transferindo sua fábrica de Tamaulipas para o estado vizinho de Nuevo León, porque em Tamaulipas os gerentes só podem circular acompanhados por seguranças armados. Em Tijuana, há empresas alemãs cujos gerentes moram na cidade americana de San Diego e atravessam a fronteira todos os dias para trabalhar, "devido a tentativas de extorsão ou sequestro", diz Schuh.

Outro problema é a mão de obra, diz o diretor da GTAI. É difícil encontrar pessoal qualificado, e as empresas geralmente têm programas de treinamento próprios ou trabalham com a Camexa, a Câmara de Indústria e Comércio Alemanha-México. "Mas há escassez de funcionários. Não é incomum que as empresas 'roubem' empregados umas das outras quando eles concluem o treinamento", diz.

Falta de água e de energia verde

Especialmente no norte, o México também tem um grande problema de escassez de água, que levou inclusive a racionamento e a restrições de uso. A nova fábrica da Tesla quase foi cancelada por esse motivo. O governo de López Obrador também cancelou a licença concedida por gestões anteriores para uma nova cervejaria em Mexicali devido à escassez de água.

Além disso, há problemas com o fornecimento de eletricidade, em particular a oriunda de fontes renováveis, diz Schuh. Isso é uma questão, "porque as empresas alemãs estão comprometidas com as metas de energia da matriz na Alemanha, ou seja, elas querem consumir mundialmente uma determinada porcentagem de energia renovável até 2030. Se elas não conseguirem cumprir isso no México, há um problema para a empresa em todo o mundo."

No México, as empresas precisam comprar eletricidade da CFE, a estatal que fornece energia. E a CFE tem principalmente usinas a gás e carvão. O presidente López Obrador prefere depender de combustíveis fósseis em vez de fazer a transição energética.

Durante a visita a Sonora, esse problema não foi discutido, diz Schuh, mas em geral ele é. "Pois faz pouco sentido produzir carros elétricos com eletricidade de usinas a carvão. Em alguns casos, diz, as empresas têm problemas para obter licenças para instalar mais painéis solares nos terrenos das fábricas. "Mas as empresas vêm mesmo assim", diz Schuh. "Porque o México, apesar de tudo, oferece muitas vantagens."