Execução

'Ela morreu na frente dos dois netos', lamenta filho de Mãe Bernadete

Desde que passou a receber ameaças de morte, a líder quilombola instalou câmeras no terreiro e o crime foi gravado

São Paulo | SP |

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Mãe Bernadete lutava há seis anos pela responsabilização dos envolvidos no assassinato de seu filho, Binho do Quilombo - Conaq

Passava de 20h quando Jurandir Pacífico recebeu a notícia da morte de sua mãe, Maria Bernadete Pacífico, líder do Quilombo Pitanga dos Palmares, em Simões Filho, região metropolitana de Salvador, na Bahia.

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“Eu tinha acabado de falar com minha mãe, ela me pediu pra levar uma garrafa térmica, eu disse que não iria, estava chovendo muito em Salvador”, disse Jurandir ao Brasil de Fato.

“Meu sobrinho ligou, ele presenciou tudo. Ela morreu na frente dos dois netos. Ele me ligou com urgência, pedindo pra eu ir pra lá.”

Quando chegou ao local, Jurandir ainda encontrou o corpo de sua mãe. “Crime com requinte de crueldade, execução, executaram meu irmão e agora minha mãe. Crime de execução”, lamenta.

De acordo com o relato dos familiares de Bernadete, dois homens chegaram de moto ao local e entraram de capacete no terreiro. Quando encontraram a líder quilombola, dispararam diversas vezes, na frente dos três netos.

O crime foi gravado pelas câmeras do terreiro. De acordo com Jurandir, as imagens foram entregues à Polícia Civil. Desde que passou a receber ameaças, em 2021, Mãe Bernadete mandou instalar câmeras em sua casa e no terreiro.

Nos últimos anos, Bernadete lutava para que os mandantes do assassinato do seu filho, Flávio Gabriel Pacífico dos Santos, conhecido como Binho do Quilombo, em 2017, fossem conhecidos.

“Há cinco anos, teve um grande empreendimento que custou a vida de meu irmão, custou a vida de Binho. Binho foi lá, bloqueou a obra e no dia seguinte morreu”. O “empreendimento” a que se refere Jurandir é um aterro sanitário, o Águas Claras Ambiental, do Grupo Solvís Essencis. O Brasil de Fato procurou a empresa, mas não recebeu resposta até o momento. Caso haja, o texto será atualizado.

Desde 2021, Bernadete afirmava sofrer ameaças de morte. Para Jurandir, por trás dos ataques está a especulação imobiliária na região. “Aqui, dentro do quilombo, tem empreendimento para todo lado.”

Para Vercilene Dias, coordenadora jurídica da Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos (Conaq), “as ameaças que dona Bernadete denunciava era dos empreendimentos que queriam atuar dentro do território, inclusive o empreendimento que deu fim a vida do filho dela, que era o aterro sanitário.”

Biko, coordenador nacional da Conaq, falou sobre o conflito fundiário em Simões Filho. “Os quilombos são a fronteira que impede a voracidade do capital. Não fosse essa fronteira, o capital já teria destruído tudo. Nossas áreas são assediadas pelo agro e pela especulação imobiliária.”

Sobre a morte de Bernadete, Biko afirmou: “É uma notícia muito grave e triste, é a perda de uma liderança e de uma mulher de terreiro, que tinha sua luta travada no território. Veja, ela perdeu o filho há seis anos defendendo o território."

"Para nós, é importante dizer que o governo e o Estado brasileiro façam, de fato, a regularização dos territórios quilombolas. Não podemos continuar perdendo os nossos. O presidente Lula precisa tomar medidas urgente e colocar na rua uma política para o povo quilombola.”

Edição: Rodrigo Durão Coelho