Apelação

Zucco e Salles incentivam conflito entre mãe e filho, além de ignorar atentado contra MST no sul da Bahia

Membros da CPI provocaram Vanusa Souza, ex-integrante do MST, para que enfrentasse o filho, ainda membro do movimento

Brasil de Fato | São Paulo (SP) | |
Zucco chega ao assentamento Jacy Rocha - Foto: MST

A diligência da CPI do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) causou uma cena de raro mau gosto em um assentamento do sul da Bahia, nesta sexta-feira (25) ao incentivar o conflito público entre filho e mãe

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Os deputados federais Luciano Zucco (Republicanos-RS) e Ricardo Salles (PL-SP), respectivamente presidente e relator da comissão, levaram a ex-integrante do movimento Vanusa dos Santos de Souza para que enfrentasse seu filho, Cássio Souza Santana, ainda integrante da organização, na frente dos demais assentados e da imprensa no assentamento Fábio Henrique, região de Prado.

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Vanusa foi expulsa do MST após falsificar documentos da associação que administra o assentamento. Seu filho decidiu seguir no movimento. Na diligência, ele fala após ser provocado por Zucco (ver vídeo abaixo).

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“Ela começou a falsificar os documentos, tentando tomar conta da associação e criando tumulto”, disse o filho. “Por quê não chamaram a polícia?”, perguntou a mãe. “Ela e Liva vieram aqui para criar tumulto e vocês estão aqui também para criar tumulto. A senhora sabe que eles estão usando a senhora para atacar o movimento”, encerrou o filho.

A cena constrangedora acaba quando membros do MST pedem que a briga seja encerrada. Na CPI do MST, a mãe chorou e afirmou ter sido agredida por integrantes da organização. Santana, seu filho, a desmentiu.

“Essas questões não são fáceis para mim, mas são verdades que precisam ser ditas, porque constituem  ataque a um coletivo nacional que tem uma importância muito grande nesse país”, afirmou Santana em vídeo.

“Infelizmente, a partir de 2019, aquilo que era um sonho para mim e minha mãe, de ter um pedaço de terra, foi por água abaixo por causa de um direcionamento do ex-presidente da República, Jair Bolsonaro, e pessoas ligadas a ele, como o Liva, que vai depor na CPI”, acusou o integrante do MST.

Liva é Elivaldo da Silva Costa, ex-membro do movimento, acusado por famílias assentadas de comandar um grupo bolsonarista que “aterrorizava” assentamentos do MST no sul da Bahia.

“Infelizmente, minha mãe foi cooptada. Em 2021, Liva e Nil [que também é ex-integrante do movimento], junto com outros antigos acampados aqui [no sul da Bahia], fizeram um ataque a uma caravana do MST que estava vindo de uma atividade, indo para outra. Eles atiraram no ônibus, colocaram fogo, causaram tumulto no acampamento e sequestraram pessoas”, detalhou Santana.

Só um lado

Ele se refere ao incidente de 31 de outubro de 2021, quando 173 famílias do acampamento Fábio Henrique, em Prado, sul da Bahia, foram atacadas por um grupo de homens armados, que fizeram alguns sem terra como reféns e atearam fogo em ônibus que eram utilizados para o transporte de moradores e para levar crianças às escolas.

Integrantes do MST afirmam que o ataque foi articulado por Liva e seu grupo político, que atua em sociedade com bolsonaristas da região de Prado. Para o movimento, a passagem da CPI pelo local ajudaria a compreender a dimensão do dilema que se estabeleceu naquela região.

No entanto, Zucco e Salles decidiram ignorar o incidente e foram embora da Bahia sem conhecer a área e a história do ataque. O deputado federal Marcon (PT-RS) lamentou a decisão do presidente e relator da CPI, que ignoraram a solicitação do movimento, de investigar o incidente de 2021.

Questionado pelo Brasil de Fato, Salles preferiu negar o atentado – veja vídeo que documenta a o caso e desmente o deputado – e atacar o MST.

“Eles não vão lá porque o Liva é da turma do Bolsonaro e o Bolsonaro não quer harmonia, assim como sua turma. Esses da CPI representam bem a política do ódio e da falta de respeito pelo povo brasileiro”, explicou Marcon.

Moradora do assentamento Fábio Henrique, Neia Assunção explicou o que aconteceu no dia 31 de outubro de 2021. “Os bolsonaristas nos atacaram, tocaram fogo nos ônibus, um homem colocou uma espingarda na minha cara e me ameaçou, disse que ia nos matar, se a gente não obedecesse ele.”

Relembre o caso

Edição: Rodrigo Durão Coelho