Luta pela terra

Território que produz alimentos há mais de 20 anos na periferia de SP pode virar lixão

MST realiza manifestação contra ameaça de despejo da Comuna Irmã Alberta; Sabesp reivindica a área

Brasil de Fato | São Paulo (SP) |
Território já plantou e colheu mais de 10 toneladas somente este ano - © MST

Famílias do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) se reuniram neste sábado em uma manifestação contra a ameaça de despejo sofrida pela Comuna da Terra Irmã Alberta. Situado em Perus, na cidade de São Paulo, o território é a única área de reforma agrária da capital paulista.

O espaço de cerca de 115 hectares foi ocupado há mais de vinte anos, com articulação da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e apoio de Irmã Alberta, ativista histórica homenageada no nome da comuna.

De lá para cá, as famílias passaram a cultivar frutas, verduras e leguminosas para consumo próprio e também como atividade econômica. A terra, que seria destinada para o descarte de lixo dos rios Pinheiros e Tietê, hoje produz mandioca, uva, abacate, entre outras culturas.

Na semana passada, no entanto, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), proprietária formal do terreno, entrou com ação para recuperar a área. A notificação foi entregue por um oficial de justiça, mas ainda não houve decisão judicial final.


Só em 2023, área ocupada pelo MST na cidade de São Paulo produziu 10 toneladas de alimentos / MST

Luciano Carvalho, da coordenação estadual do MST, afirma que o ato marca a primeira movimentação massiva das famílias e o início de uma série mobilizações, "Optamos por fazer primeiro no território e organizar o território, para depois sair. Os próximos passos que vamos viabilizar são as ações de rua. Colocamos agora como objetivo a presença do Grito dos Excluídos", conta.

Carvalho lembra que a luta da comunidade local contra o lixão é antiga. Segundo ele, essa é a sétima tentativa de reintegração de posse da área ocupada pela comuna. "Essa vontade da Sabesp já foi derrotada no passado por nós e pela comunidade do entorno. Essa é uma luta histórica da região".


Comuna abriga cerca de 250 famílias; 70 delas são de imigrantes haitianos / MST

A manifestação deste sábado contou com um ato ecumênico, uma roda de conversa sobre o processo e uma vigília cultural. Nos últimos dias, representantes da comuna foram recebidos pela Fundação Instituto de Terras do Estado de São Paulo (Itesp) e pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) em busca de uma solução.

Somente neste ano, as famílias que integram a Comuna da Terra Irmã Alberta já produziram mais de 10 toneladas de alimentos no local. 

*Com colaboração de Michele de Mello

Edição: Raquel Setz