Desenvolvimento

Visita à China é parte da agenda de cooperação para superar sanções, diz ministra venezuelana

Gabriela Jiménez fala sobre os resultados da visita de Estado de Maduro à China em termos de ciência e tecnologia

Beijing | China |
Ministros da Ciência e Tecnologia da China, Wang Zhigang, e da Venezuela, Gabriela Jiménez. - Ministerio del Poder Popular para Ciencia y Tecnología

As áreas de ciência e tecnologia foram as prioridades da quinta visita de Estado do presidente venezuelano Nicolás Maduro à China, que culminou no aprofundamento da relação entre os dois países.

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Nos últimos anos, o governo Maduro vem afirmando a necessidade de que o país faça a transição para uma economia pós-petrolífera. O debate sobre esse desafio não é novo, e o próprio presidente Hugo Chávez, morto em 2013, destacava a necessidade de superar não apenas o modelo capitalista, mas também o “rentístico”.

O mandatário venezuelano tem afirmado que o mercado de hidrocarbonetos continuará tendo um papel importante na economia do país. Afinal, a Venezuela possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, com 303 bilhões de barris. Mas o foco agora é a diversificação. 

Assim, a elevação da relação com a China pode cumprir um papel importante. Um mês antes da viagem para o país asiático, Maduro assinou a criação das Zonas Econômicas Especiais que, segundo a lei, tem entre seus objetivos: “desenvolver um novo modelo produtivo nacional; diversificar e aumentar as exportações; participar de inovações, cadeias produtivas e mercados internacionais; promover o desenvolvimento industrial da Nação e promover a substituição seletiva de importações”.

De acordo com o portal Misión Verdad, o que diferencia esta política de experiências anteriores similares, que envolvem incentivos fiscais, é que desta vez a prioridade não está nas atividades do setor petroleiro.

Um dos acordos assinados na China, foi o plano de desenvolvimento conjunto entre a cidade de Shenzhen e a Zona Económica Especial de La Guaira, umas das quatro recentemente criadas, para receber investimentos, tecnologia e instalação de empresas chinesas.

Shenzhen foi a primeira zona econômica especial criada em 1979 no processo de reforma e abertura liderado por Deng Xiaoping. Hoje a cidade é o polo tecnológico do país e sede das principais empresas de tecnologia chinesas.

A chefe governamental e política desse projeto de desenvolvimento entre as duas zonas será a vice-presidenta do governo de Ciência, Tecnologia, Saúde e Educação e ministra de Ciência e Tecnologia, Gabriela Jiménez.

Em entrevista exclusiva com o Brasil de Fato, a ministra resumiu os avanços em sua área durante a visita, abordou os desafios na América Latina e Caribe para o desenvolvimento da Ciência e Tecnologia e explicou o impacto das sanções e medidas restritivas unilaterais nesse setor. 

Leia a seguir a entrevista na íntegra.

Ministra, esta visita de Estado teve um foco especial nas áreas de ciência e tecnologia, você poderia resumir quais foram os principais avanços nessa agenda com a China?

Nesta agenda de trabalho dedicamos especial atenção à agenda científica, à cooperação em ciência e tecnologia, assinando acordos muito importantes para a Venezuela que têm a ver com a formação de talentos científicos para renovar e orientar os jovens da Venezuela para as carreiras. têm a ver com engenharia, com ciência, com tecnologias para promover uma cultura de inovação.

Temos também um acordo na educação para partilhar plataformas educativas tecnológicas, que nos permitam desenvolver novas capacidades e competências cognitivas para a era digital. E acordos que têm a ver com a utilização e compreensão do Big Data rumo à Terra Digital. Isto nos permite utilizar satélites de detecção remota para determinar parâmetros climáticos, temperatura da superfície do mar, tudo o que tem a ver com alterações climáticas, mas também prever os cenários. Nesta administração da informação, que são dados técnicos e muito valiosos, permite-nos, claro, graças à cooperação que existe com a agência bolivariana para as atividades espaciais, formar talentos em matéria aeroespacial, mas também formar talentos para telemetria e geomática. Isto faz parte, claro, da aplicação do conhecimento científico. Ao nível dos Parques Tecnológicos, fizemos uma importante visita ao parque Fenglin, na cidade de Xangai, que desenvolve tudo o que tem a ver com hospitais inteligentes, aplicação de tecnologias de informação à saúde pública, diagnósticos precoces, plataformas que permitem supostamente fornecer segurança à saúde do paciente.

Isto nos permite pensar num horizonte de transformação do sistema nacional de saúde pública, fazendo da ciência e da tecnologia uma ferramenta para renovar as nossas capacidades; e também a formação de médicos especialistas na utilização destes novos equipamentos e destas novas tecnologias que nos permitem abordar processos de diagnóstico mais precisos e reduzir falsos diagnósticos.

Além da agenda de cooperação, temos atividades desenvolvidas em matéria aeroespacial. Como bem sabem, a Lua é o sétimo continente que está em disputa. Mas priorizamos o estudo e a utilização do espaço para fins pacíficos e esta é uma agenda muito importante para a diplomacia de paz da Venezuela: que o conhecimento, a ciência e a tecnologia sejam utilizados para fins pacíficos e que respondem à racionalidade da vida. E, nesta agenda, a Agência Bolivariana de Atividades Espaciais tem o desenvolvimento de novas ferramentas de satélite, mas também a formação de talentos científicos de alto nível e uma agenda de investigação partilhada na Estação Espacial Internacional, com a China. E estamos inclusive contribuindo com as pesquisas que estão sendo desenvolvidas para o projeto da República Popular da China de viajar à Lua em 2030. Fizemos visitas técnicas, agendas de cooperação, definição de documentos para alianças estratégicas, mas também compartilhando os pontos em comum: o que definimos como desenvolvimento em curso na Venezuela, o que a China define como desenvolvimento, mas tudo aponta para um desenvolvimento sustentável global.

Recentemente, quando visitou o Brasil, e se reuniu com a ministra brasileira da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, a senhora falou do déficit na formação e capacitação de engenheiros na região. Como a articulação com a China pode contribuir nesse desafio?

Em matéria de ciência e tecnologia orientada à informação, nossa região latino-americana e caribenha, até 2030, tem previsto um déficit de 2 milhões de engenheiros e profissionais na área de inteligência artificial, segurança informática e tecnologias de telecomunicações. Isso se torna um desafio para nós do ponto de vista social, político e econômico. Se trata do desafio de contar com as capacidades das universidades e dos centros de investigação. E, nas indústrias, elevar e promover as capacidade humanas, cognitivas, mas também orientadas por um uso ético da ciência, da tecnologia e da inteligência artificial. 

Esses dois milhões de pessoas que devemos formar, se torna então uma tarefa que pode ser abordada no âmbito de uma agenda comum da região. Eu proporia, inclusive, que fosse levada a cabo a partir de um Centro de Pesquisa da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), que também é uma iniciativa nossa para agregar nossas capacidades, construir complementaridades. Criar uma agenda que nos permita avançar na transformação digital da região, com elementos fundamentais de inclusão social que nos permita atender aos processos educativos, atender aos processos de saúde, mas também incorporando o acesso democrático às tecnologias de informação e comunicação. E que ninguém, claro, seja deixado para trás nesta matéria. 

Os jovens hoje têm o desafio de viver na era digital. Devem ser formadas, então, habilidades cognitivas, técnicas, que possam dar equilíbrio à utilização racional das tecnologias de informação, porque nada substitui o contato humano. Estas ferramentas devem ser sempre instrumentalizadas ao serviço das necessidades dos nossos povos. E isso faz parte da agenda que definimos também como cooperação com o Ministério da Ciência e Tecnologia da China.

Até poucas décadas atrás seria quase impossível ver duas ministras de ciência e tecnologia de países latino-americanos reunidas, como aconteceu recentemente em sua visita ao Brasil. Como a senhora vê a questão das mulheres nessas áreas em nossa região?


Ministra de Ciência e Tecnologia da Venezuela, Gabriela Jiménez e Ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação do Brasil, Luciana Santos. / Rodrigo Cabral (ASCOM/MCTI)

Veja, a formação em STEM [sigla em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática], em carreiras científicas sempre esteve um pouco desequilibrada em termos da perspectiva de gênero. Na nossa região latino-americana e caribenha, a Venezuela tem indicadores mais favoráveis ​​de participação feminina: 60% da mão de obra e do talento científico nacional são mulheres, formadas na revolução, durante estes 25 anos do governo bolivariano. E isso nos dá uma oportunidade incrível de contribuir também com conhecimento para o trabalho científico da comunidade, com uma perspectiva diferente, um prisma diferente, para o uso do conhecimento, para onde orientar as nossos capacidades científicas e tecnológicas.

De modo que respondem a uma identidade e a uma visão de mundo específicas do nosso território, e não que sejam impostas pelo modelo eurocêntrico. No caso da Europa, e no caso norte-americano, menos de 30% da mão de obra, dos talentos e das contribuições científicas são desenvolvidos por mulheres. E isso é reconhecido pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) como uma brecha de gênero significativa. Para nós, na Venezuela e no Brasil, mais de 50% da mão de obra científica são mulheres, que contribuem com programas de mestrado de pós-graduação. Então isso nos permite direcionar políticas de pesquisa com uma visão mais equilibrada, e claro, inclusiva. 

A agenda com a China parte por exemplo, de lideranças científicas mulheres formadas sob o nosso esquema, e que vão participar (algumas já estão participando), em projetos de biotecnologia em cooperação com a China. Novos projetos serão aprofundados, incluindo o envio de sementes para o espaço. 

É fundamental formar e facilitar o acesso para nossas mulheres às tecnologias de informação, assim como também em Engenharia de Materiais, nanotecnologia, desenvolvimento de novos materiais para biomedicina. Isso também faz parte de uma agenda conjunta que definimos no convênio de cooperação para o intercâmbio de jovens em ciência e tecnologia.

Acho que aí a ferramenta fundamental é a educação, como o maior elemento transformador da humanidade e que responde, claro, aos princípios éticos de respeitar a identidade do nosso povo e, claro, à nossa estética e à nossa verdade.

Durante esta visita de Estado, a China tem reafirmado seu posicionamento de denúncia contra as sanções e medidas coercitivas implementadas contra a Venezuela. Qual é o impacto dessas medidas para as possibilidades de desenvolvimento da ciência e tecnologia da Venezuela? 

Esse é um ponto doloroso para nós, mas é uma realidade contundente: o efeito de mais de 930 sanções afeta o desenvolvimento nacional, o nosso direito ao desenvolvimento, à educação, à saúde, ao acesso a serviços públicos de qualidade, mas também à ciência e à tecnologia como parte dos processos sociais de criação, de inventividade, de poder dar respostas a nossos problemas locais.

Nesse sentido, nós temos uma série de sanções que afetam o acesso aos equipamentos tecnológicos e aos equipamentos médicos. Isso aconteceu também com as vacinas, vimos como foram bloqueadas transações do fundo Gavi para pagar vacinas durante a pandemia, que foi uma crise humanitária global. Limitar e afetar um país assim é um ato de terrorismo, é um ato que atenta contra a vida.

E em relação às plataformas tecnológicas, recentemente há um ano, a relatora de Direitos Humanos, Elena Duhan fez um relatório nas Nações Unidas à Vice-Presidência da República dos Estados Unidos para que alertasse a empresa Thermo Fisher que, por favor, entregasse os filamentos destinados aos microscópios eletrônicos na Venezuela. Isso foi um contrato feito em 2017, onde a nossa República honrou o compromisso econômico e os equipamentos chegaram incompletos, o que não nos permitiu utilizar os microscópios eletrônicos. Isso, claro, afeta a formação do talento humano na área da microscopia, mas, além disso, o desenvolvimento da pesquisa científica em biomedicina e materiais, em minerais, e, inclusive, a saúde pública.

A Venezuela era um Estado de referência para a produção científica de material de microscópio eletrônico, de varredura, de transmissão, de efeito de tunelamento. E, neste momento, tem prejudicada sua produtividade científica e o desenvolvimento de seus produtos tecnológicos devido a essas medidas coercitivas unilaterais.

Os microscópios estão na República, estão nas universidades, estão nos centros de pesquisa, mas você não pode ligá-los porque os dispositivos, as plataformas e os filamentos não foram entregues às universidades e centros de pesquisa. Com isso querem atacar a nossa capacidade de gerar conhecimento, nossa capacidade inventiva.

Portanto, você não forma os talentos, os equipamentos não estão operacionais, você não consegue fazer os estudos e diagnósticos, e não consegue desenvolver os produtos da ciência necessários para o bem-estar do povo venezuelano.

Isso também acontece com os equipamentos médicos, ou com os reagentes químicos. E isso também acontece com Cuba. Cuba também passa por essa situação, que é muito dolorosa. Diante disto, o que o presidente Nicolás Maduro nos recomenda? Fazer mais ciência, nos reinventar, construir complementaridade. E a visita do presidente Nicolás Maduro à República Popular da China se insere nessa agenda de cooperação e complementaridade para superar as dificuldades que significam as medidas coercitivas unilaterais.

Edição: Rodrigo Gomes