História

Rádio fundada por Paulo Freire completa 60 anos

Ao longo do tempo, a emissora sofreu intervenção de setores conservadores e reacionários

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A emissora funciona como rádio-escola e tem metade da programação elaborada pela sociedade civil - Reprodução
A ideia é que a gente tenha esse espaço mais horizontalizado

Há 60 anos, a Rádio Universidade entrava de forma definitiva no dial de aparelhos no Recife (PE). A emissora foi fundada por Paulo Freire com proposta de construção de conhecimento e emancipação popular.

“Esse projeto revolucionário e inovador transforma a comunicação em uma ferramenta de pesquisa, de ensino-aprendizagem e de transformação do mundo”, afirma o pesquisador e historiador Dimas Veras Brasileiro, da Cátedra Paulo Freire, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE. 

As primeiras transmissões foram feitas em caráter experimental em agosto de 1962. No dia 29 de setembro do ano seguinte, a rádio foi fundada como um dos braços do Serviço de Extensão Cultural (SEC), da então Universidade do Recife, hoje Universidade Federal de Pernambuco UFPE.

Vinculado à Universidade, Freire coordenava o SEC (embrião da Pró-Reitoria de Extensão e Cultura da UFPE), desenvolvendo um tripé de atividades, que além da emissora, contava com a Revista de Estudos Universitários e o Programa de Alfabetização. 

“Então com esse tripé Paulo Freire queria trazer a Universidade [do Recife] para perto da cultura popular, vendo a educação como uma forma de transformação do combate à desigualdade social. E a Rádio Universidade, então, tinha uma programação toda voltada para essa emancipação”, contextualiza Paula Reis, professora de Comunicação Social da UFPE.   

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Alguns meses antes da inauguração da Rádio Universidade, Paulo Freire tinha iniciado o projeto do Ciclo de Cultura de Angicos, no interior do Rio Grande do Norte, com o método inovador que alfabetizava as pessoas com 40 horas-aulas.

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"As pessoas não tinham sua cidadania plena porque o voto só era acessível para quem fosse alfabetizado. Então mais da metade da população brasileira não podia votar. Então, de repente, vem Paulo Freire com o método revolucionário de alfabetização", relata Dimas Veras. 

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O historiador relata que o momento no país ainda era de uma "euforia democrática", por conta da reabertura política e organização de forças populares após o Estado Novo de Getúlio Vargas, que durou até meados dos anos 1940.

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Na capital pernambucana havia uma efervescência cultural ligada a setores artísticos e de comunicação social, além do crescimento do Movimento de Cultura Popular (MCP).  

Apesar dos contextos no país e na cidade, existia outro polo de poder que marcou a história do Brasil e recortou a trajetória da Rádio Universidade. 

"Em 1963 já se cria um conflito, uma tensão em torno do Golpe Militar. E aí o que acontece? Em 1964, com o Golpe, na imprensa começa a vir logicamente, várias matérias dizendo que era necessário 'descomunizar a Rádio Universidade', que era necessário acabar com aquela 'rádio comunista'. E aí realmente ela sofre, como todo SEC, uma intervenção. Isso vai mudar radicalmente o seu projeto”, conta Paula Reis.  

Além de invadir a sede da emissora, a repressão ditatorial perseguiu as pessoas que tocavam a experiência. "A campanha vai criando essa ideia dos sujeitos e das organizações subversivas. Além de assaltar, depois esses sujeitos são pintados como réus, respondendo a processos por crimes de subversão, mas também corrupção”, afirma Dimas Veras. 

Entre diferentes interesses e disputas, a rádio chegou a ficar fechada mais de uma vez. Além de alterações na missão, a nomenclatura também mudou algumas vezes. Chegou a ser chamada de Rádio Universitária AM e, desde 2018, passou a ser chamada de Rádio Paulo Freire, na proposta de religação com sua origem.

“Paulo Freire nos ensina a ter uma visão crítica sobre o mundo. Então é isso que a gente tem que trazer para a prática da comunicação na rádio. Quais são as disputas? Quais são as tensões? Quais são os conflitos sociais que estão postos? Percebemos que as tecnologias são estratégias de poder e que precisamos nos apropriar e usá-las em benefícios de informação de qualidade. Penso que nessa linha de Paulo Freire, pensando na tecnologia, a gente vai então construir uma comunicação dialógica”, relata Paula Reis, que hoje atua como coordenadora geral e pedagógica da Rádio Paulo Freire.

Rádio-escola

Hoje a emissora funciona como rádio-escola e tem metade da programação elaborada pela sociedade civil. Durante a pandemia de covid-19, foram criados pontos focais com as comunidades através das redes sociais para manter diálogos em período de isolamento social.  

A partir do slogan ‘A rádio que fazemos juntos’, discursos e práticas do dia a dia buscam a inspiração nos postulados freireanos. O "laboratório", como é chamado o estúdio, conta com a presença de estudantes de diferentes cursos da UFPE.

“A ideia é que a gente tenha esse espaço mais horizontalizado, onde exista a possibilidade de dialogar, aprender enquanto faz. Assim criamos uma expectativa de que para frente, para um um ambiente profissional mais geral, exista outra cultura profissional se desenvolvendo, um pouco mais colaborativa e humanizada, e um pouco menos competitiva” conta Igor Cabral, coordenador operacional da Rádio Paulo Freire. 

“A relação sala de aula e de estar aqui na rádio foi um divisor de águas porque mudou minha visão do que era ser radialista e estar em uma rádio. Entendemos a importância da Rádio Paulo Freire, de Paulo Freire e do rádio como  veículo”, afirma Ícaro Souza, estudante da Rádio, TV e Internet da UFPE. 

Próximo passo

A Rádio Paulo Freire permanece instalada no mesmo local de seis décadas atrás, na parte posterior da reitoria da UFPE. Além de seguir a missão inicial, a ideia é avançar em outros sonhos planejados por Freire anteriormente. Por exemplo, instalar a rádio perto das salas de aula, integrando os departamentos da universidade. 

“Nós queremos levar a rádio Paulo Freire para o Centro de Artes e Comunicação, que é a sua missão, realmente estar dentro do Centro de Artes, assim como lá em 1964 foi interrompido o sonho de Paulo Freire. Imagine lá funcionando com a integração de todos os departamentos, a gente fazendo radionovelas educativas, fazendo performances musicais, performance teatrais, com tantos talentos, alunos de vários cursos, de teatro, de música, de artes, de letras”, conta Paula Reis. 

“Estar aqui, vivenciar um pouco disso que a universidade me proporciona. É uma das maiores gratificações de estar dentro da universidade e experimentar tudo que tem a me oferecer, mesmo com sucateamentos dos últimos anos e tá sobrevivendo isso aqui é algo maravilhoso. E eu creio que é o que Paulo Freire tá muito orgulhoso, que apesar das circunstâncias nós estamos produzindo e nós estamos atingindo outras pessoas", afirma Eduarda Nóbrega, aluna de Rádio, TV e Internet da UFPE.

Edição: Rodrigo Durão Coelho