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Como Cuba se tornou um dos países mais seguros a partir da vigilância popular nos bairros

Experiência teve origem no bairro popular Fanguito na capital Havana e se tornou modelo para a ilha

Havana (Cuba) |
Rua Hanana - Brasil de Fato

Com o início da noite, quando o calor caribenho começa a diminuir, as ruas dos bairros de Havana se enchem de pessoas que passam as últimas horas do dia com seus vizinhos. Mesas de jogo são montadas e é comum ver pessoas jogando dominó - o jogo nacional por excelência - ou xadrez até tarde. Enquanto as portas das casas são deixadas abertas para ajudar o ar entrar e refrescar o interior.  

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Há poucas capitais onde as pessoas ainda mantêm uma relação tão próxima com a rua. Mais ainda, são poucas as cidades em que qualquer pessoa que caminhe pela rua pode ver portas e janelas abertas até tarde da noite. 

Em um desses bairros, a poucos metros do Rio Almendares, Silvia Natacha Almanza e seus vizinhos da comunidade do Fanguito decoram o quarteirão com guirlandas e bandeiras enquanto preparam uma caldosa - um tipo de sopa tradicional que fica cozinhando por horas. O bairro está em festa. A população comemora o aniversário da criação dos Comitês em Defesa da Revolução (CDR), uma organização territorial que reúne os moradores de cada bairro para realizar diferentes atividades sociais e que está espalhada por toda a ilha.

El Fanguito é um bairro popular de Havana. As primeiras construções foram improvisadas à beira do rio, com chapas de metal e madeira, principalmente por pessoas que viajavam do interior do país para a capital em busca de oportunidades de trabalho. Seu nome se deve às enchentes do rio que inundavam as casas e ruas de lama (fango em espanhol). Um bairro popular que, por muito tempo, foi considerado "marginal".

Atualmente, Silvia Natacha Almanza, ou "Naty", como seus vizinhos a chamam, é a líder de seu CDR. Trata-se de um cargo voluntário, eleito em uma assembleia pelos moradores do bairro.   

"Nós cuidamos do que é nosso e do que pertence a todos nós", diz Naty ao Brasil de Fato. "Cuidamos do que você tem na sua casa, porque nos custou muito esforço para conseguir, mas também do que está na bodega, onde está a comida que todos nós compramos, das escolas onde os filhos de todos estudam, da casa do vizinho, porque acreditamos que o vizinho mais próximo também é como seu irmão. E entre todos nós, voluntariamente, não permitimos que nenhum crime ou violência ocorra".

A bodega, citada por Naty, é a maneira como os cubanos se referem a um armazém administrado pelo Estado, onde uma cesta básica de alimentos - altamente subsidiada - é distribuída mensalmente para pessoas ou núcleos familiares. Uma cesta básica que o Estado garante e que faz parte do modelo socialista da ilha. 

O cuidado de que fala não é apenas em um sentido metafórico. Por meio dos Comitês em Defesa da Revolução (CDR), em cada bairro, os vizinhos assumem diferentes tipos de trabalho social: desde cuidar de idosos ou doentes que precisam de ajuda até realizar tarefas de vigilância e segurança na vizinhança. 

" De maneira rotativa e voluntária, fazemos o papel de guardas que, à noite, vigiam o bairro e alertam a polícia se algo acontecer, desde um acidente até um ato criminoso", explica Naty. "Os Comitês em Defesa da Revolução são uma grande família. Somos um grupo de pessoas, organizadas por bairros, que apóiam o país. E os cederistas tomam iniciativas espontaneamente e fazem propostas sobre como resolver os problemas". 

"Cuba é um país pacífico. Temos nossos problemas como todo mundo. Mas é um país sem violência. Também somos organizados e fazemos isso com amor, por amor ao próximo: nossos vizinhos, nossos parentes, nossos amigos, nossos colegas. Ajudamos e cuidamos uns dos outros. Não permitimos que ninguém venha à vizinhança para interromper essa paz", diz ela.

Os Comitês em Defesa da Revolução

Cuba contrasta fortemente com uma região e um continente com altos índices de violência. Apesar de ser um país de grande carência e privação econômica, a ilha conseguiu manter baixos níveis de violência. Não há áreas tomadas por traficantes de drogas ou gangues criminosas, e os crimes violentos envolvendo o uso de armas são muito raros. 

Mas esse nem sempre foi o caso. Antes do triunfo da Revolução em 1959, o país caribenho não só era um dos países mais violentos da região, como também estava começando a ser controlado por várias máfias.  

"Durante as décadas de 1940 e 1950, era comum que diferentes facções políticas estivessem ligadas a negócios ilegais e dirigissem grupos parapoliciais que garantiam essas atividades", disse o historiador Frank Josué Soler ao Brasil de Fato. "Naquela época, era até comum que houvesse confrontos entre esses grupos parapoliciais no centro de Havana, buscando garantir os negócios ilegais. Nesse contexto, o assassinato de líderes sociais era uma prática relativamente comum. Antes da revolução, Cuba era uma terra de corrupção e violência".

Quando a Revolução conseguiu derrubar a ditadura de Batista, teve de enfrentar tanto os grupos criminosos que controlavam territórios inteiros quanto os grupos contrarrevolucionários que começaram a realizar sabotagens e ataques terroristas. Aviões emitidos pelos EUA foram usados para bombardear plantações de açúcar - o principal setor econômico de Cuba na época.  Em 21 de outubro daquele ano, uma metralhadora abriu fogo contra a população a partir de um avião leve que sobrevoava Havana. Esses ataques continuaram sem interrupção nos anos seguintes.  

No dia 28 de setembro de 1960, uma multidão se concentrou frente ao antigo Palácio Presidencial, onde hoje está localizado o Museu da Revolução. Desde o balcão do Palácio, Fidel Castro, com apenas 34 anos de idade, se dirigia às pessoas que haviam se reunido para ouvir sobre sua recente viagem à ONU quando, no meio de seu discurso, começaram a soar os primeiros estrondos de explosões. Foi no calor daquela noite, no meio de seu discurso incendiário, que Fidel convocou o povo a defender sua revolução criando milícias de segurança.

O direito de cuidar do próximo

"A ideia do CDR surgiu em um momento em que tínhamos que cuidar das pessoas, do povo e da revolução", disse Eusebio Vázquez Medina ao Brasil de Fato. "Porque o povo é a revolução e a revolução é o povo. Foi Fidel quem disse que o povo tinha que cuidar de sua revolução. E nós somos o povo."

Medina vive com sua família em Fanguito. Seus olhos se enchem de orgulho quando ele nos conta que é um cederista de primeira hora. Apesar de sua avançada idade, Eusebio e sua esposa, Dalia Izada Cabane, não perdem o entusiasmo e continuam a participar como voluntários nas tarefas de vigilância e segurança no bairro.   

"É muito importante que mulheres e homens façam a guarda igualmente, porque é muito importante que sejamos iguais", acrescenta Dalia Izada Cabane. "Porque todos nós temos o direito de cuidar da revolução. Todos nós temos o direito de cuidar uns dos outros. Porque pertencemos a esta revolução, à revolução de Fidel".

"Agora não há mais aquelas coisas que aconteciam antes, quando tínhamos de estar vigilantes porque bombas estavam sendo plantadas. Tudo isso mudou com o tempo. Agora fazemos trabalho comunitário, como a limpeza do bairro ou a festa que estamos organizando para as crianças brincarem", acrescenta com um sorriso.

Segurança com uma abordagem comunitária 

Cuba é um dos países que mais investem em saúde, educação e acesso à cultura. Mais de 12% de seu Produto Interno Bruto (PIB) é destinado ao acesso à educação, o que representa o dobro do investimento na maioria dos países da região. Essa é uma das chaves que possibilitaram que Cuba seja hoje um país com baixos níveis de violência.  

No entanto, por mais de seis décadas, a ilha tem sido forçada a enfrentar um bloqueio que sufoca sua economia. De acordo com um relatório preparado para a ONU em 2022, Cuba calcula que, nos últimos 60 anos, o bloqueio lhe custou um total de 148 bilhões de dólares. De 1992 até hoje, a grande maioria dos países pertencentes à ONU condena, ano após ano, o bloqueio que os Estados Unidos mantêm sobre Cuba, considerando essa prática como uma interferência externa que viola o direito internacional. 

 "Cuba é frequentemente acusada de ser uma ditadura. Não entendo do que estão falando, ditadura é o que Pinochet fez. Aqui você não vai ver um policial matando alguém como acontece em muitos lugares hoje", diz Iris Mercedes Sanchez, para o Brasil de Fato.  

Sanchez vive com sua mãe - uma senhora idosa com problemas de saúde - em um corredor em Fanguito. Os cuidados necessários com a saúde de sua mãe às vezes a impossibilitam de dedicar tempo ao trabalho voluntário do CDR. Muitas vezes, conseguir os medicamentos de que sua mãe precisa se torna uma tarefa difícil. As sanções impostas ao país fazem com que seja difícil para Cuba importar o que precisa. As empresas preferem não vender para Cuba por medo das sanções econômicas e o mesmo acontece com os fornecedores que levam as importações para a ilha. As embarcações que tocam os portos cubanos ficam impossibilitadas de viajar para os Estados Unidos por vários meses. 

"Esta é a nossa casa e nós nos auto-organizamos. Como Toni disse em suas canções: há mudanças que minha casa precisa, mas eu faço as mudanças em minha casa. Ninguém de fora precisa vir e fazê-las. E sim: queremos que muitas coisas mudem e melhorem. Mas queremos fazer as mudanças nós mesmos. Não queremos que alguém de fora venha e organize nossa casa". 

Edição: Leandro Melito