SOLTANDO O VERBO

Ofensas marcam segundo debate dos candidatos à presidência da Argentina

Milei chama Bullrich de “assassina” e ela diz que Massa não tem autoridade moral, entre outras trocas de farpas

Brasil de Fato | Botucatu (SP) |
Milei, líder nas pesquisas, tratou Bullrich com ironia e agressividade durante o debate - AGUSTIN MARCARIAN / POOL / AFP

A temperatura subiu no segundo debate dos candidatos à presidência da Argentina, realizado neste domingo (9) e focado nos temas segurança, trabalho e meio ambiente. Houve mais provocações e confrontos em relação ao primeiro encontro. Os cinco participantes se arriscaram mais. Mas a sensação é de que nenhum deles terminou como vencedor incontestável, segundo análises de veículos de imprensa locais de tendências ideológicas distintas.

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A corrida presidencial argentina tem cinco candidatos: Javier Milei (extrema direita), Sergio Massa (kirchnerista), Patricia Bullrich (direita), Myriam Bregman (esquerda) e Juan Schiaretti (peronista). Os três primeiros são os mais bem cotados e devem disputar, no próximo dia 22, as duas vagas para o segundo turno.

O primeiro assunto em debate foi segurança e Patricia Bullrich atacou para todo lado. Criticou o kirchnerismo (grupo que governa o país atualmente) por ter "dado celulares e internet aos presos" e Javier Milei por querer liberar o uso de armas, que "acabam nas mãos de traficantes".

O confronto mais acalorado ocorreu quando Sergio Massa mencionou sua atuação como prefeito de Tigre, quatro anos atrás e prometeu "criar um FBI argentino", responsável por questões de corrupção, narcotráfico e tráfico de pessoas. Bullrich o criticou por esquivar-se de falar sobre o atual governo federal — ele é ministro da Economia — e o provocou com o escândalo de corrupção que envolve Martín Insaurralde, um líder do kirchnerismo: "Você não tem autoridade moral."

"Ele cometeu um ato muito grave", respondeu Massa sobre Insaurralde, antes de dar o troco em Bullrich: "Pedi a renúncia dele e que retirasse sua candidatura (a vereador). Mas não somos todos iguais. Você não pediu a Milman para fazer o mesmo." Após o atentado contra a vice-presidenta Cristina Kirchner em 2022, houve indícios de que Gerardo Milman, ex-funcionário de Bullrich quando ela foi ministra de Segurança do governo Mauricio Macri, poderia saber do plano, mas ele nunca foi intimado a prestar declarações perante a Justiça.

Bullrich, que segundo a maioria das pesquisas está em terceiro lugar, portanto precisaria ganhar votos para ter chance de vencer, também atacou Milei. Os temas escolhidos foram as propostas de liberar o uso de armas e desregulamentar o mercado de órgãos. Sobre esta última ela argumentou que "promove o tráfico de pessoas".

Milei, candidato que se diz libertário, respondeu com ironia: "Você está muito tensa, relaxe um pouco." E a acusou de querer promover uma ditadura por causa da sua ideia de gravar conversas entre advogados e prisioneiros. Interessante notar que, no debate anterior, ele havia minimizado o número de desaparecidos durante a ditadura militar na Argentina.

Desrespeito às mulheres

Quando se debateu os outros temas, houve menos confrontos. Com exceção de um momento tenso que envolveu vários candidatos. Bregman descreveu Milei como parte da "velha direita", porém mais "arrumada". O candidato respondeu com uma provocação: "Se os socialistas soubessem de economia, não seriam socialistas." Massa aproveitou para introduzir uma discussão de gênero. "Javier, você foi longe demais, desrespeitou todas as mulheres." Mas Bullrich dispensou a solidariedade do adversário. "As mulheres podem se defender sozinhas."

"Montonera assassina"

Nessa fase, houve novo confronto contundente entre Bullrich e Milei. Quando a candidata de direita mencionou a existência de candidatos corruptos entre os aliados de Milei, seu adversário a chamou de "montonera assassina". Bullrich, que foi da Juventude Peronista na adolescência, é acusada de ter integrado o grupo guerrilheiro “montoneros” nos anos 1970, o que ela nega.

Perdas e ganhos

Nos bastidores, comentava-se que Bullrich, embora não tenha ido tão mal quanto da última vez, ainda parecia travada e incapaz de responder perguntas específicas. Algo semelhante vale para Milei, que, apesar dos rompantes de ironia e agressividade, de modo geral evitou elevar o tom e procurou citar teóricos econômicos diversos. Mas se atrapalhou em alguns momentos, misturando temas e respondendo sobre coisas que não haviam sido perguntadas. Ele lidera as pesquisas.

"Eu não entendi nada. Para mim, ele tirou tudo do Yahoo Respostas", resumiu Myriam Bregman em uma de suas intervenções. Ela e Sergio Massa mostraram alguma solidez e descontração. Schiaretti, que no primeiro debate havia mencionado insistentemente seus feitos como governador de Córdoba — o que gerou inúmeros memes — abandonou essa estratégia e talvez tenha ficado um pouco mais apagado.

 

Com informações do Página 12 e do Clarín.

Edição: Leandro Melito