COMUNIDADE E LUTA

REPORTAGEM. Então é sobre este tal de futuro

Crianças e jovens de comunidades e áreas de ocupação falam um pouco sobre suas expectativas e sonhos

No audio source provided.
E, se pudesse hoje falar diretamente com o poder público, pediria o asfaltamento da maioria das ruas | Crédito: Pedro Carrano

Todo mundo sabe. O Dia das Crianças talvez seja a data mais articulada e organizada nos bairros de Curitiba. Em cada esquina, em cada quebrada, de cada comunidade, a cena do dia 12 de outubro é comum. São brinquedos, atividades e alguma cama elástica instalada. Palhaçaria, jogos, som, brincadeiras, festas. Oficinas e criatividade. O que leva ao seguinte pensamento: em meio a tantas dificuldades, a ideia de um futuro e de direito das crianças está sendo preservada, como um tesouro latente.

Não está fácil. Afinal, a atual crise climática, ambiental, sanitária, econômica, política e social, aprofundada no plano do capitalismo financeirizado, preocupa e faz pensar em soluções para garantia de um futuro para a humanidade e para as novas gerações.

Mas, enquanto uma elite global busca destruir o planeta, insuflando guerras em nome do lucro, em Curitiba e região os movimentos populares de bairro e de luta por moradia organizam suas atividades. No dia a dia das comunidades, a presença das crianças é sempre marcante, de alguma forma participando da vida comunitária, vivendo as questões da luta pela terra urbana, aprendendo desde cedo as dificuldades, mas também os caminhos para uma vida com felicidade e realizações.

Na ocupação Britanite, por exemplo, cerca de 200 crianças conformam este espaço ocupado por 407 famílias. Lutas são várias e a coordenação da ocupação prioriza a situação dos menores de idade. A cozinha comunitária oferece todos os dias café da manhã antes da piazada ir pra aula. Ao mesmo tempo, uma das pautas da comunidade é o acesso escolar. Eram, ao todo, de acordo com o mapeamento da coordenação da Britanite, de fevereiro deste ano, 36 jovens sem vagas na rede estadual e 22 crianças aguardando vaga na rede municipal – o que tem sido constantemente denunciado a sindicatos e ao Ministério Público – Promotoria de Comunidades.


Atividades de biblioteca e reforço escolar movimentam a criançada no pátio da ocupação / Pedro Carrano

Atividades na comunidade

Por outro lado, atividades de biblioteca e reforço escolar movimentam a criançada no pátio da ocupação. Ali é praticamente certo encontrar as irmãs Sara, de 10 anos, e Lara, de 6 anos, alunas da escola municipal Leonel Brizola, no Tatuquara. Sara conta que adora as aulas de arte e de matemática. Seu sonho é conseguir um dia ajudar os moradores em situação de rua, ela conta. Lara, sua irmã, afirma que gosta de morar na Britanite e não quer sair dali onde “sempre tem muita coisa pra fazer”. As duas moram com os pais e mais dois irmãos na ocupação, iniciada em 2020. No pátio, estão sempre acompanhadas dos cães Tirolê e Mel. Ao lado da amiga Maria Isadora, que recorda que as festas juninas na comunidade são muito boas.

Vila Pantanal e a necessidade de melhorias

Na Vila Pantanal, que é uma ocupação mais antiga, hoje na divisa entre Curitiba e São José dos Pinhais, no bairro Alto Boqueirão, o jovem Gabriel Felipe de Deus, 13 anos, gosta da possibilidade de jogar futebol e jogos eletrônicos com os amigos. “E aqui conheço quase todo mundo”.

Ele praticamente nasceu na comunidade, onde mudou-se com um ano de idade. E, se pudesse hoje falar diretamente com o poder público, pediria o asfaltamento da maioria das ruas, que ainda é de terra, mesmo numa das comunidades mais conhecidas de Curitiba. Recentemente, seus pais participam da retomada da associação de moradores e da cozinha comunitária. E sente-se participando desse processo de mudanças e solidariedade.

 

Editado por: Lia Bianchini

|

Newsletter