FUTURO

Dilemas da Humanidade: 'os mais pobres são mais atingidos, mas impacto humano da crise climática é uma questão global'

Especialistas de diferentes países apontam o socialismo como norte da luta coletiva contra a exploração dos recursos

Brasil de Fato | Joanesburgo (África do Sul) |
Dia de hoje (16) em Joanesburgo foi marcado por debates sobre a defesa da natureza - Rafa Stedile

As conclusões do relatório 'A Anatomia de uma Crise Silenciosa' , produzido pelo Fórum Humanitário Global, indicam que, todos os anos, as alterações climáticas deixam mais de 300 mil pessoas mortas em todo o planeta, 99% delas nos países em desenvolvimento. 

A desigualdade também é econômica: a crise climática gera um prejuízo de US$ 125 bilhões anuais no mundo todo, mas 90% dessas perdas estão no Sul Global, de acordo com o estudo. 

"Os 50 países menos desenvolvidos contribuem com menos de um 1% do total das emissões globais de carbono. Os mais pobres são os mais atingidos, mas o impacto humano das alterações climáticas é uma questão global", pontuou o indiano Tikender Singh Panwar, representante da Cidades para a Inclusão Transformadora de Yarrow, Zing e a Sustentabilidade Ambientalmente Equilibrada (Cityzens).

Panwar foi um dos debatedores desta segunda-feira (16) no terceiro dia da Conferência Internacional Dilemas da Humanidade, que ocorre em Joanesburgo, na África do Sul. O objetivo do principal painel do dia foi apontar caminhos para a defesa da vida e da natureza em meio ao modelo neoliberal de exploração dos recursos naturais. 

Também participaram do diálogo Theodora Pius, da Rede Nacional de Grupos de Agricultores da Tanzânia; Carlos Barrientos, dos Comitês de Unidade Camponesa da Guatemala; Houcine Rhili, da Associação Nomâde, da Tunísia; e Zazi Nsibanyoni Mugambi, do Sindicato Nacional dos Trabalhadores Metalúrgicos da África do Sul

"O relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) salienta que tem de haver uma mudança sistêmica. Sabemos o que significa esta mudança. Significa mudar o atual modelo de produção capitalista para outro modelo, que tem de ser democrático e socialista", completou o ex-vice prefeito da cidade de Shimla.


Tikender Singh Panwar: "o desafio que temos diante de nós não tem precedentes" / Rafa Stedile

Agricultura camponesa

Na Tanzânia, onde 70% da população trabalhadora é camponesa, Theodora Pius, da Rede Nacional de Grupos de Agricultores, explicitou como as mudanças climáticas vêm impactando o continente africano

"Enfrentamos os terríveis efeitos das alterações climáticas, mas o continente africano contribui com apenas 3% das emissões globais de gases com efeito de estufa. Quando falamos de clima e ambiente, além de fazer qualquer análise, temos de compreender que África está numa posição difícil porque a natureza foi transformada numa mercadoria", pontuou Pius.

Segundo ela, as soluções para esse enfrentamento passam pela democratização dos sistemas alimentares e o desenvolvimento da agroecologia. 

"Na Tanzânia, a gente tem o costume de comer comida boa. É uma celebração, é um banquete a comida no nosso país. É assim que a gente se cuida entre a gente. É sempre um ato de cuidado. E é assim que temos que ver o alimento, não como um produto que está à venda no mercado", acrescentou Theodora.

A África, na opinião dela, é hoje um "celeiro para outras nações". "A própria fome está aumentando. Temos a agricultura como a espinha dorsal da maior parte da nossa economia, mas o nosso povo vai para a cama com fome", pontuou para as mais de 400 pessoas presentes.

"A maioria do sistema de roubo de terra acontece na África, porque com a crise de comida global e financeira todo mundo veio para África. Neste momento, 60 milhões de acres de florestas africanas estão sendo negociadas por uma empresa chamada Blue Carbon, que tem as suas raízes nos Emirados Árabes Unidos. Estas florestas estão na Tanzânia, Zimbabué, Zâmbia e Libéria".


Theodora Pius: "precisamos criar um sistema alimentar baseado nas práticas locais, como na troca de sementes, no cuidado da biodiversidade." / Rafa Stedile

Lutas coletivas

Carlos Barrientos, dos Comitês de Unidade Camponesa da Guatemala, pontuou que o enfrentamento às empresas transnacionais nos países mais pobres passa por um entendimento sistemático do esgotamento do modelo neoliberal.

Segundo ele, o capitalismo por natureza é "predador". E não será possível deter a crise gerada por ele sem a mudança do sistema.

"A luta pelos bens comuns é uma luta que está ligada ao socialismo. Não um socialismo que repete um modelo de consumo e desperdício, mas que recupere a relação dos seres humanos com a mãe terra. Temos que entender que nós somos filhos e filhas da mãe terra e o que nos corresponde é lutar pela vida e pelo socialismo", salientou Barrentos em sua fala.

"As nossas lutas são coletivas, e os protagonistas são os povos. A classe trabalhadora organizada, os povos originários, as mulheres, que estão na linha de frente na defesa dos bens da terra", completou o guatemalteco.

Segundo o relatório do Fórum Humanitário Global, apresentado no painel de hoje (16), as mulheres representam dois terços da população pobre no mundo e cerca de sete em cada dez trabalhadores agrícolas. E, junto com as crianças, são as mais afetadas pelos fenômenos meteorológicos extremos no mundo.

"As mulheres estão lá. A agricultura é atividade delas todos os dias da semana. Precisamos desenvolver o feminismo camponês. Saber como unir a questão da terra, da violência contras as mulheres, tudo numa causa só", colocou Theodora Pius.


Carlos Barrientos: “A luta pelos bens comuns é uma luta que está ligada ao socialismo" / Rafa Stedile

Congressos internacionais sobre o clima

Houcine Rhili, da Associação Nomâde, da Tunísia, fez uma crítica à última edição da COP27 em Sharm El Sheikh, no Egipto, e à falta de efetividade do fundo de financiamento climático criado para ajudar as populações afetadas pela crise climática.

"A COP 28, nos Emirados Árabes Unidos, criará um fundo semelhante, mas todos esses fundos são apenas tinta no papel, as pessoas não receberão um centavo desse dinheiro”, colocou. 

"Todos estes congressos estão a tentar polir a imagem do capitalismo, mostram que o capitalismo está tentando limitar as emissões de gases. A natureza está sendo mercantilizada nestas conferências, transformada em mercadoria", completou o tunisiano.

A liderança também criticou às energias classificadas como renováveis na atualidade, como é o caso das eólicas e do hidrogênio verde.

"Temos sol, temos vento, mas são as empresas transnacionais que vão extrair esses recursos e transformá-los para uso próprio através de cabos e meios tecnológicos muito desenvolvidos. Há 6 meses que sofremos com a falta de água e recebemos água apenas num número limitado de dias", lamentou Houcine Rhili.

"O Egito, a Líbia, a Tunísia e todos os países da África Subsaariana testemunharão uma enorme extração de recursos das suas terras e até mesmo a perda de terras. A extração de hidrogênio verde requer enormes quantidades de água, posso assegurar que essas empresas transnacionais utilizarão a nossa água e gases do mar e do oceano, a fim de fornecerem energias alternativas claras para si próprios. Serão incapazes de fornecer água para garantir a nossa dignidade. Não há dignidade sem água, água é vida", completou .

Dilemas

Ao todo, 120 organizações de 72 países participam da Conferência Internacional Dilemas da Humanidade, organizada pela Assembleia Internacional dos Povos (AIP) entre os dias 14 e 18 de outubro em Joanesburgo.

O evento dá prosseguimento a um ciclo que teve duas edições no Brasil, organizadas pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST), sendo uma em 2004, no Rio de Janeiro, e outra em 2015, na Escola Nacional Florestan Fernandes (Enff), em Guararema, interior paulista.

"O capitalismo explora os povos. Não podemos esperar que esses exploradores para cuidar do nosso meio ambiente de forma sustentável e, quando o que eles buscam é maximizar os lucros e seu poder. Aqui na conferência precisamos criar uma resposta socialista. O desenvolvimento do Norte Global é fruto do subdesenvolvimento do Sul Global", destacou Zazi Nsibanyoni Mugambi, do Sindicato Nacional dos Trabalhadores Metalúrgicos da África do Sul.

Edição: Thalita Pires