Soberania alimentar

Só o campesinato pode solucionar o problema da fome no Brasil, afirma representante do MPA

Saiane Santos fala sobre Dia Mundial da Alimentação e destaca papel da agricultura familiar frente ao agronegócio

Brasil de Fato | Salvador (BA) |
Saiane Santos integra a direção estadual do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) na Bahia - Arquivo pessoal

Nesta segunda-feira (16), é comemorado o Dia Mundial da Alimentação e de Luta pela Soberania Alimentar. Uma data para lembrar quem produz os alimentos que chegam às nossas mesas e para lutar por mais investimentos na agricultura camponesa e popular, pelo direito à alimentação saudável, em quantidade suficiente e de acordo com as culturas alimentares da sociedade brasileira.

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Outubro é marcado por diversas manifestações de movimentos sociais camponeses para chamar atenção para a data. Em entrevista ao Brasil de Fato Bahia, Saiane Santos, da direção estadual do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), destaca as principais lutas dos povos do campo evidenciadas nesta data.

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Jornada de Lutas pela Soberania Alimentar realizada pelo MPA em ocupação na Seagri / Divulgação/MPA

Brasil de Fato Bahia - 16 de outubro é o Dia Mundial da Alimentação e da Soberania Alimentar. Neste momento em que o Brasil volta a enfrentar a fome, quais são os caminhos apontados pelos movimentos sociais camponeses para o combate à fome na Bahia e no Brasil? Quais são as experiências que podem servir de modelo?

Saiane Santos - O MPA e a Via Campesina têm demarcado outubro como mês de Luta em Defesa da Soberania Alimentar e Contra as Empresas Transnacionais. Nesse ano de 2023, o MPA estará realizando sua jornada de luta que tem como lema “MPA e luta por direito, terra e soberania alimentar”. Então, estaremos realizando em diversos estados um conjunto de atividades que busca dialogar com a sociedade sobre a importância do campesinato, a importância da produção de alimentos e também denunciando o que é o modelo agroexportador que o agronegócio produz, que é morte e destruição, envenenamento da Terra e dos nossos corpos. E nessa perspectiva do enfrentamento à fome, o MPA tem afirmado que a fome é estrutural. Ela é consequência do modelo capitalista que temos, que produz mazelas e desigualdades sociais e concentra as riquezas. A fome é estrutural e nós temos afirmado que só a partir da produção de alimentos saudáveis, de qualidade, a partir da reforma agrária, da demarcação dos territórios indígenas também da criação de mecanismos para o abastecimento popular, que permitam que os alimentos que a gente produz chegue na mesa de quem precisa que é o povo trabalhador, que é quem está na periferia, que não tem acesso aos alimentos agroecológicos, possamos avançar nessa dimensão do enfrentamento à fome. As nossas experiências mostram que é possível, sim, a partir desses elementos, avançarmos no enfrentamento da fome. As nossas ações de solidariedade no período da pandemia, a exemplo do Mutirão Contra a Fome, onde a gente buscou impulsionar a produção agroecológica do nosso povo e criar essa rede de distribuição de alimentos e doação de alimentos saudáveis desde as cestas e as cozinhas solidárias comunitárias, em que a gente doa cestas e também doa os alimentos nas marmitas. Isso mostrou como pode ser construída essa rede de produção de abastecimento popular de alimentos, e impulsionar tanto essas experiências, como feiras e mercados populares de alimento. Então, é preciso pensar tanto a produção de alimentos, como o abastecimento popular de alimentos.

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O agronegócio investe muito em propagandear que, sem a sua produção, a fome vai aumentar no país e no mundo. Qual tem sido o real papel do agro no combate à fome?

Isso é uma falácia, né? O agronegócio tem colocado muito, sobretudo a partir das mídias, da comunicação que eles produzem, que, para acabar com a fome no mundo e no país, é preciso a produção do agronegócio. Isso é uma falácia, porque o agronegócio não produz alimentos. Produz commodities, produz para exportação, produz mercadoria. Então, só o campesinato pode cumprir essa tarefa de enfrentar a fome, a partir da produção de alimentos saudáveis, de qualidade. O agronegócio concentra a maioria das terras e recebe a maior fatia de recursos e não produz alimento, né? Não é ele que abastece a mesa do povo trabalhador com a diversidade dos alimentos que chega. Na nossa mesa, mais de 70% dos alimentos quem produz é a agricultura familiar camponesa. Então, a gente tem afirmado que: não, o agronegócio não pode combater a fome, porque ele não produz alimento, pelo contrário, produz desigualdades sociais e econômicas no nosso país.

Nas últimas semanas, o país foi atingido por diversos eventos que são consequência das mudanças climáticas. Como esses eventos podem impactar a produção de alimentos e o que isso tem a ver com o modelo de produção?

Nós temos feito a leitura que isso tem um impacto gigantesco na produção de alimentos. Porque o aumento das temperaturas provoca as secas intensas,  que têm acontecido mais frequentemente na região sul, por exemplo, e também o excesso de chuvas em outras regiões, têm causado muita quebra de safra, perda de safra da produção. E quando você tem diminuição da produção de alimentos, você tem aumento do preço. Então já se tem um impacto nessa questão do preço, né? E essa dimensão [do aumento dos preços] vai além da questão das mudanças climáticas, porque tem o impacto nos sistemas alimentares pra saúde, devido à contaminação dos alimentos por agrotóxicos e também o aumento [do consumo] dos alimentos ultraprocessados. Isso é consequência do modelo de produção que tem gerado e tem aumentado as mudanças climáticas. O desmatamento, a perda dos ecossistemas também têm resultado no aumento de doenças contagiosas. É possível que uma das causas da pandemia da covid-19 foi por conta desse modelo de produção que a gente tem no mundo, né? Então, a gente tem feito essa leitura também, e que a crise climática retroalimenta a fome, a desnutrição, a obesidade.

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Na década de 1990, a Via Campesina passa a adotar o termo "soberania alimentar" em contraposição à "segurança alimentar". Pode explicar pra gente qual a diferença de um pra outro e por que o MPA e outros movimentos defendem o conceito de soberania alimentar?

Para nós, a diferença entre segurança alimentar e a soberania alimentar é que a soberania alimentar tem a ver com os alimentos saudáveis, com a cultura, com os hábitos alimentares e com os sistemas locais, com respeito à natureza. É mais que ter a comida no prato, é a gente saber quem produz, como produz, quais são as condições que o campesinato tem para produzir, como que esses alimentos chegam na mesa de quem produz. Não é só ter a segurança que vai ter o café, o almoço, a janta, mas qual é essa alimentação que está sendo consumida, de onde está vindo essa alimentação, que projeto de sociedade a gente está fortalecendo com essa comida que chega na mesa do nosso povo, né? Nós estamos afirmando a produção de alimentos saudáveis, com quantidade necessária e suficiente para o nosso povo se nutrir e que essa produção seja a partir de sistemas diversificados. Então, é comida boa, é comida de verdade e é comida para todos e todas. E pensar que uma nação soberana é aquela que é dona do seu próprio destino. E quando ela tem alimentação suficiente para todo seu povo comer bem e com estoque, pensado para períodos como foi o período da pandemia, significa soberania alimentar. Então, partirmos dessa dimensão que é mais que ter a segurança, se vai comer ou não, mas é que alimento está sendo consumido.

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Saiane, neste ano, durante a jornada de lutas que marca o dia 16, vamos ter o Acampamento da Juventude Camponesa em Brasília, que pretende reunir milhares de jovens camponeses de todo o país. Qual a importância da juventude do campo na construção da soberania alimentar e no combate à fome?

De 13 a 17 de outubro, a juventude camponesa estará em luta por terra e soberania alimentar, no Acampamento da Juventude da Via Campesina. Esse é um espaço massivo, que vai reunir mais de cinco mil jovens pra pensar processo de formação, pensar reafirmação da juventude camponesa, afirmar a juventude como fundamental pro campesinato, pra produção de alimentos, pra reforma agrária. Também é uma ação que busca denunciar essas crises do capitalismo e como o capitalismo busca sair dessas crises, que é concentrando riqueza, concentrando a natureza, explorando a força de trabalho da classe trabalhadora. Afirmando a importância da juventude, a importância da luta, a importância da soberania alimentar, da reforma agrária e da demarcação dos territórios indígenas e quilombola. Então, a jornada de luta do MPA, o acampamento da Via Campesina e diversas atividades que estarão sendo realizadas agora no mês de outubro buscam, nessa conjuntura que estamos vivendo, reafirmar a importância da agricultura camponesa, dos indígenas, dos quilombolas, nessa dimensão da soberania alimentar.

Fonte: BdF Bahia

Edição: Alfredo Portugal