COMIDA DE VERDADE

Documentário 'Antes do Prato' leva ao cinema um olhar sensível sobre a agroecologia

Filmada na pandemia, obra mostra como fazer comida de verdade é um ato político necessário

São Paulo (SP) | |
Dona Jacira: “Comida e livro você precisa que alguém te oriente, que alguém acenda o seu Sol” - Reprodução

 

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O documentário Antes do Prato, produzido pelo Greenpeace durante a pandemia, chegou recentemente ao cinema e streaming, levando ao público uma visão sensível da agroecologia praticada hoje em diferentes partes do Brasil.

Foram filmadas quatro vivências: o projeto Prato Verde Sustentável, na Zona Norte de São Paulo, a Horta do Hospital São Camilo, em Cotia (SP), a rede Xique Xique, em Mossoró, no Rio Grande do Norte, e o Assentamento Filhos de Sepé (MST), em Viamão, no Rio Grande do Sul.

Também participam do documentário Elisabetta Recine, presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA), Dona Jacira Roque, propagadora de saberes ancestrais, e a cozinheira Paola Carosella, ao lado de vários especialistas conectados à agroecologia e integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

 

 

Paola Carosella aponta as diferenças entre um prato que tem apenas commodity, e um de comida do Pará, com tacacá, jambu e camarão-seco: “Isso aqui não é só comida, é comida é cultura, é sociedade, é saúde”

“Na medida do possível, a gente tentou trazer a representatividade de diferentes regiões, o protagonismo feminino e a agricultura urbana, não só no campo, e foi fazendo essa composição sob diferentes olhares para mostrar que a agroecologia não é uma única agroecologia. Se ela depende da sabedoria e do fazer daquele determinado grupo, elas são várias agroecologias, no plural mesmo”, explica Mariana Campos, coordenadora de agricultura e alimentação do Greenpeace Brasil.

Ela explica que a  pesquisa para o filme, que tem roteiro e direção de Carol Quintanilha, começou muito antes da pandemia, mas a gravação nesse período acabou limitando o mapeamento de territórios que havia sido feito.

Morgana Maselli, integrante da secretaria executiva da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), assistiu ao documentário e acredita que sua linguagem simples e envolvente ajude na compreensão. Difícil não captar, por exemplo, o alcance de Neneide Lima, conselheira presidente da CooperXique, ao dizer que "por mais que as pessoas achem que agroecologia é uma coisa de fundo de quintal, uma coisinha pequena, a gente entende que não é isso".

“Você conservar a natureza não é uma coisa pequena. a gente não destrói. Então como é que é uma coisa pequena uma coisa que alimenta a natureza, que faz com que ela seja preservada?”, questiona. 

Para Maselli, “o filme retrata a agroecologia como ciência, um saber técnico, mas também como uma forma de vida e uma escolha política de lidar com os alimentos, suas formas de produção e distribuição, e os benefícios dessa escolha para o cuidado com a saúde e o ambiente, em oposição ao que promove o agronegócio”.

O documentário traz ainda discussões importantes sobre a conexão da agroecologia com diferentes temas. Além do entendimento de que comer é um ato político, que as escolhas do que comemos têm consequências importantes em muitos aspectos, Antes do Prato ressalta a premissa de que sem acesso à terra não é possível falar em agroecologia, e que por isso é importante haver reforma agrária e cuidado na preservação dos territórios indígenas e de povos e comunidades tradicionais, que são aqueles que garantem a variedade alimentar que desejamos e precisamos na mesa da população.

Antes do Prato também destaca que a não monotonia dos cultivos em sistema agroecológico, com sua variedade de espécies e sem uso de agrotóxicos, garante proteção ao meio ambiente, à água e à saúde do agricultor e dos consumidores do alimento.

Outro ponto é a importância da articulação entre as experiências de agricultura e do trabalho em rede para ampliar a produção, a comercialização e a comunicação sobre os benefícios da agroecologia.

O documentário levanta ainda a necessidade da articulação da agroecologia com a saúde, da oferta de alimentos limpos para todos e da necessidade de que mais profissionais de saúde tenham conhecimentos sobre seus benefícios, como profissionais de nutrição.

Segundo Mariana, a agroecologia é o caminho que o Greenpeace e muitas outras organizações da sociedade civil veem como uma resposta aos problemas que o modelo do agronegócio traz para a sociedade brasileira e o planeta. “Com histórias lindas, cativantes, importantes, necessárias e urgentes, Antes do Prato tenta mostrar que isso é possível.”

Antes do Prato está disponível nas plataformas digitais YouTube, Google Play, iTunes (Apple), Vivo Play e Claro TV e em exibição em festivais de cinema como o Slow Filme e a Maré (Mostra Ambiental de Cinema de Recife). Assista ao trailer:

 


 

 

Edição: Rodrigo Durão Coelho