Solidariedade

Manifestação em apoio ao povo palestino reúne milhares em Havana

Cuba mantém uma posição oficial de apoio à Palestina, defendendo "uma solução ampla, justa e duradoura" para o conflit

Brasil de Fato | São Paulo (SP) |
Manifestantes em Havana, capital de Cuba, durante ato de apio à Palestina - Gaston Bejas

Milhares de pessoas marcharam pelas ruas de Havana na quinta-feira (23) exigindo o "fim do genocídio contra o povo palestino". A iniciativa foi convocada pela União de Jovens Comunistas de Cuba (UJC).

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Encabeçada pelo presidente cubano Miguel Díaz-Canel, a mobilização contou com a participação de Manuel Marrero, primeiro-ministro cubano, e Akram Samhan, embaixador palestino em Cuba. A marcha percorreu o Malecon de Havana e culminou em um evento cultural na área conhecida como La Piragua, perto do Hotel Nacional.

"Chegamos até aqui porque, diante do fascismo, do assassinato e do genocídio contra o povo palestino, não podemos ficar de braços cruzados", disse Raul Alejandro Palmero, secretário do Comitê Provincial de Havana da UJC, no seu discurso de abertura. 

Sob o sol intenso e diante de uma multidão que entoava slogans, Palmero afirmou que "esse massacre não começou no mês passado, como a mídia ocidental tentou vender, ele já custou mais de 120 mil vidas e a apropriação de mais de 78% do território palestino nos últimos 75 anos. Não se trata de um conflito armado, mas sim do maior e mais longo genocídio contínuo da história".

Com um discurso emotivo, Meyvis Estévez Echeverría, segunda secretária da UJC Nacional, enfatizou que "cada ferida naquele país é também uma ferida no coração de Cuba. Cada mulher, idoso ou criança martirizada lá nos abala profundamente. Cada casa destruída nos consterna e nos incita a continuar defendendo a nobre causa palestina".

A mobilização fez parte de uma série de atividades que vêm ocorrendo em Cuba desde que o Estado de Israel começou a bombardear a população palestina na Faixa de Gaza. Desde meados da década de 1970, o governo cubano tem fornecido bolsas de estudo para jovens palestinos estudarem na universidade. Todos os anos, a ilha recebe uma centena de jovens palestinos de Gaza, da Cisjordânia ou de campos de refugiados em outros países.

Historicamente, Cuba tem mantido uma posição oficial de apoio à Palestina, defendendo "uma solução ampla, justa e duradoura para o conflito israelense-palestino, com base na criação de dois Estados, o que permitiria ao povo palestino exercer seu direito à autodeterminação e ter um Estado independente e soberano dentro das fronteiras anteriores a 1967".

Comitê de estudantes em apoio à Palestina

"Cuba tem uma longa tradição de apoiar causas justas e esta não poderia ser uma exceção", diz Amalia Díaz para o Brasil de Fato. "Além do apoio institucional que Cuba tem dado à Palestina, acreditamos que também é necessário nos unirmos, nos manifestarmos e termos um lugar onde possamos sentir essa dor juntos".

Amalia Díaz é uma jovem ativista da Universidade de Havana. Junto com seus colegas, ela vem promovendo diferentes atividades culturais e políticas em apoio à causa palestina. Foi uma das lideranças que promoveram a mobilização.

"Desde o primeiro momento, pensamos nessa mobilização passando em frente à embaixada dos EUA. Para fazer uma tribuna anti-imperialista. Porque no pano de fundo de tudo isso estão os interesses imperialistas dos Estados Unidos na região", explica ela.

A aliança de Israel com os Estados Unidos tem um caráter estratégico. Todos os anos, Washington concede uma média de US$ 3,8 bilhões em financiamento militar externo a Israel, que é o país que mais recebe dinheiro dos EUA. 

Desde o início da escalada de violência na região, os EUA vetaram as resoluções do Conselho de Segurança da ONU que pediam um cessar-fogo e ajuda humanitária para a Faixa de Gaza. Entre elas, as propostas apresentadas pelo Brasil. Por sua vez, Israel é o único país na Assembleia Geral da ONU que, desde 1992, tem votado consistentemente contra a exigência da comunidade internacional de pôr fim ao bloqueio cubano.

Na véspera da mobilização, Amalia Díaz percorreu as salas de aula e os corredores da universidade buscando conscientizar e envolver os alunos nas atividades. A iniciativa surgiu a partir de várias reuniões que realizaram com estudantes palestinos, nas quais Amalia destaca a presença de Aleida Guevara - filha de Che - que os motivou a realizar a mobilização.

"Pesquisando nos arquivos da universidade, descobrimos que após a Nakba, o deslocamento forçado e a destruição de vilas sofridos pelo povo palestino - foi criado um 'comitê pró-palestino'. Foi esse descobrimento que nos levou a recriar esse espaço frente às agressões atuais do Estado de Israel", diz Amalia.

Junto com o comitê, os jovens ativistas, além da mobilização, organizam conferências, atividades artísticas e intervenções culturais para aumentar a conscientização sobre a causa palestina. O comitê tem como objetivo "despertar sentimentos de solidariedade e internacionalismo, para não ficar indiferente".

"A luta do povo palestino é uma luta contra a colonização e o imperialismo. Essas lutas estão no coração de nossos países do terceiro mundo. E a colonização faz parte de um sistema contra o qual nós, em Cuba, sempre lutamos, porque o capitalismo precisa da colonização e do imperialismo".

Edição: Leandro Melito