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Comidas oferecidas a Iemanjá significam equilíbrio e continuidade da vida

A Padroeira dos Pescadores é considerada a "mãe cujo os filhos são peixes"

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Em Salvador e outras cidades brasieliras, as celebrações para Iemanjá são feitas no dia 2 de fevereiro - Jefferson Peixoto/Secom Salvador
O peixe simboliza o equilíbrio. Porque mesmo nadando no cardume, ele não bate um no outro

A Rainha do Mar liga a Mãe África ao Brasil entre tempos, espaços e espiritualidades. Das crenças que atravessaram séculos, continentes e devoções, Iemanjá cruzou muitas águas.

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Do Rio Ogum, de origem do Povo Iorubá, no atual território da Nigéria, fluiu para a costa brasileira.  

"Iemanjá tanto é uma figura das águas doces como das águas salgadas. Das águas salgadas pelo fato de ser filha de Olokun, o grande Rei dos Mares, Senhor dos Mares. E nas águas doce por ter o seu Rio, na Terra de Iorubá, na Nigéria", explica a Ialorixá Rebeca.

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Da origem do seu nome, Iemanjá carrega o simbolismo de ser a “mãe cujos filhos são peixes”. 

Ela também representa o equilíbrio de consciências, entre o emocional e o psíquico. Por isso, os cultos a esse orixá feminino incluem a oferta de alimentos de acordo com a cabeça e energia de cada pessoa, que em iorubá, é chamada de ori.

"[A escolha da comida] vai da necessidade do ori. De todo ritual, a gente utiliza o jogo de búzios e a necessidade de cada filho de dar comida ao seu ori", destaca o babalorixá Maurício de Oxumarê, dirigente do terreiro Ilê Asè Alakatu Dandaredan, localizado no Bairro de Fragoso, em Olinda (PE). 

Alguns dos alimentos ofertados são frutas como maçã, pêra, melão e melancia. Além de manjar, peixe no milho branco, mungunzá, arroz branco, canjica, calda de pêssego ou ameixa. Elas são consideradas funfun, que em iorubá seria "comidas brancas".

"São comidas ancestrais, comidas funfun, cheias de segredos e aromas que servem para fortalecer a nossa cabeça", destaca Rebeca. 

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Assim como os demais orixás, os alimentos e as formas de preparo podem variar de acordo com a tradição de cada comunidade. Em alguns lugares, por exemplo, a comida de Iemanjá pode utilizar temperos típicos dos terreiros, como dendê, camarão seco, cebola e sal.

Através de alimentos ofertados e outros cultos, a Padroeira dos Pescadores também simboliza a ancestralidade. Ela representa da criação do mundo à continuidade da vida. 

"Iemanjá é muito cultuada para a fertilidade. Como mãe, fazemos as oferendas também por esse motivo, para que a mulher possa dar a luz. Quando a mulher é estéril, ela pode pedir os caminhos para Iemanjá", explica a religiosa Amanda Beatriz, do terreiro Ilê Asè Alakatu Dandaredan. 

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Iemanjá é conhecida por nomes como Janaína, Dandalunda, Inaé, Ísis, Marabô, Maria, Mucunã ou Princesa de Aiocá. Na diversidade de rios e mares, o sentido de acolhedora da Mãe cujos filhos são peixes deve ser visto como ensinamento. 

"O peixe simboliza o equilíbrio. Porque mesmo nadando no cardume, ele não bate um no outro", define Amanda. 

Edição: Rebeca Cavalcante