Política e Economia

Milei afirma que economia da Argentina 'vai piorar no curto prazo com ajuste fiscal duro', no discurso de posse

Novo presidente da Argentina defende propriedade privada e livre mercado

|
Presidente e vice da Argentina, Javier Milei e Victoria Villarruel - Juan Mabromata/AFP - 29/11/2023

Após receber os símbolos de comando - a faixa azul e branca e o tradicional bastão presidencial - do chefe de Estado cessante, Alberto Fernández, na Câmara dos Deputados, o novo presidente da Argentina, Javier Milei, discursou aos cidadãos argentinos de costas para o Congresso Nacional, como manda a tradição. 

Após gritos de "liberdade, liberdade" e "Bolsonaro" - fazendo referência ao ex-presidente do Brasil (2018-2022), presente na posse de Milei, o ultraliberal falou pela primeira vez aos argentinos como presidente da República. 

Milei prometeu fazer um “ajuste fiscal duro” no país, salientando que suas políticas econômicas, “no curto prazo”, farão a situação “piorar”, com queda da atividade econômica, no número de empregos e no nível dos salários.

Segundo ele, ainda será observado um aumento nos índices de pobreza e de inflação. “Não há alternativa ao ajuste. Logicamente isso vai impactar o nível de atividade, o emprego, os salários reais, a quantidade de pobres e indigentes. Haverá inflação. Mas não é algo diferente do que aconteceu nos últimos 12 anos", afirmando que esta será a reconstrução da Argentina e que após "esse ajuste macro, a situação começará a melhorar". 

Falando sobre a situação econômica da Argentina, Milei aproveitou o discurso de posse para criticar a Venezuela. 

Segundo o novo presidente, caso tal ajuste fiscal não seja feito, a alternativa seria "a proposta progressista, cuja única fonte de financiamento é a emissão de dinheiro e a consequência seria hiperinflação e espiral decadente como no caso da Venezuela de [Hugo] Chávez e [Nicolás] Maduro" .

"Coletivismo empobrecedor"

Falando sobre o peronismo e o governo anterior, de Alberto Fernández (2019-2023), Milei disse que recebe "o legado de mais de 100 anos de insistência nas ideias erradas. Vou ser muito claro: nenhum governo recebeu uma herança pior do que a que vamos receber".

Afirmando seu governo como início de uma "nova era na Argentina" e em um discurso antissistema, sua fala de posse teve como objetivo "enterrar décadas de fracassos, brigas internas e disputas sem sentido".

O ultraliberal comparou sua chegada ao governo com a queda do Muro de Berlim, em 1989, ao afirmar que sua posse "marca o fim de uma trágica era" e a sua eleição "representou um ponto de virada na história”.

Segundo Milei, a Constituição liberal argentina de 1853 expandiu economicamente o país latino-americano, "o que nos transformou em uma potência mundial", avaliou. 

"Mas em algum momento, os políticos decidiram abandonar o modelo que nos tornou ricos e adotaram as ideias empobrecedoras do coletivismo. Eles insistiram por mais de cem anos em defender um modelo que só produz pobreza. Senhores: esse modelo fracassou", defendeu afirmando que a "deterioração do país" atinge "todas as esferas, como segurança, saúde, educação e infraestrutura". 

De forma similar ao discurso de posse do ex-presidente norte-americano Donald Trump em 2017 quando referiu-se à segurança do país naquele momento como uma "carnificina americana" na qual ele colocaria fim, Milei disse que “a Argentina se tornou um banho de sangue”, ao prometer combater os traficantes de drogas que "sequestraram" as ruas argentinas.  

Referindo-se à sua eleição, Milei disse que os argentinos escolhera "um Novo Contrato Social Liberal", defendendo "propriedade privada, mercados livres de intervenção estatal, livre concorrência, divisão do trabalho e cooperação social".

"Nosso país exige ação e ação imediata. Não será fácil. 100 anos de fracasso não podem ser desfeitos em um dia. Mas um dia você começa e esse dia é hoje", instou.

"Sem perseguição"

O novo mandatário argentino abordou a questão da violência política em seu discurso, afirmando que "não está aqui para perseguir ninguém". 

"Receberemos de braços abertos todos os líderes políticos, sindicais e empresariais que queiram se juntar à nova Argentina. Mas não toleraremos aqueles que usam a violência ou a extorsão para obstruir a mudança", defendeu.

Apesar das declarações, a Equipe de Investigação Política da Revista Crisis, da Argentina, ferramenta criada para identificar e avaliar a crescente violência da extrema direita ao mesmo tempo em que ascende ao poder, prevê que "o esquema de governo elaborado por Milei e a extrema direita argentina inclui uma elevada percentagem de repressão com aspectos inovadores".

Segundo os dados da plataforma, em 2020 houve apenas um ataque atribuído a apoiadores de Milei, em 2021 foram dois, os mesmos de 2022, enquanto em 2023 já foram registados mais de vinte atos violentos perpetrados explicitamente por libertários, o que indica um aumento proporcional da violência política em seu governo. 

O novo presidente terminou o discurso com o slogan que criou durante a campanha: "viva la libertad, carajo".

(*) Com Ansa e Brasil247