ENTREVISTA

Batucas: escola e grupo de música feita por e para mulheres movimenta o carnaval em Porto Alegre (RS)

A Orquestra Feminina de Bateria e Percussão apresentou-se no bar e casa de show Banda Saldanha

Brasil de Fato | Porto Alegre |
As Batucas – Orquestra Feminina de Bateria e Percussão atua desde 2015 - Foto: Mari Korman

“A luta das batucas acaba sendo dessa forma, em forma de música, de rede de apoio das mulheres, e de amor e vida. A gente acaba fazendo o nosso papel e fazendo a nossa vida disso, de estar aqui, de ensinar mulheres, de botar a mulherada na rua, de fazer música, de ser feliz fazendo isso. Mas sempre desbravando, sempre lutando para estar aqui também sempre querendo um pouco mais, pra justamente que isso siga se espalhando. Não é fácil, mas fazemos.”

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A afirmação é de Raquel Pianta, uma das coordenadoras das Batucas – Orquestra Feminina de Bateria e Percussão, grupo e escola musical feita por e para mulheres em Porto Alegre (RS). Prestes a completar nove anos de trajetória, o coletivo apresentou-se pela primeira vez no bar e casa de show Banda Saldanha no sábado (20). 

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:: Documentário destaca trajetória de Orquestra Feminina de Bateria e Percussão ::

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O Brasil de Fato RS conversou com a idealizadora do grupo, Biba Meira, assim como Júlia e Raquel Pianta, coordenadoras da Batucas. No bate papo a baterista, compositora e professora de bateria Biba, uma das primeiras mulheres bateristas a se destacar na cena musical do rock gaúcho da década de 1980, e integrante da banda DeFalla, fala do início desta história. Também comentam o papel da orquestra no cenário cultural da capital gaúcha.

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Brasil de Fato RS - Como surgiu as Batucas? 

Biba Meira - As batucas surgiu em março de 2015. As gurias ainda não estavam envolvidas, nem a Júlia nem a Raquel, que hoje são coordenadoras junto comigo e o Vini. A Raquel é regente do coral, a Júlia é regente da percussão. 

Foi de uma vontade minha muito grande de colocar as minhas alunas de bateria na rua, para terem bandas, para tocarem, porque eu notava que os únicos que faziam isso eram os meus alunos homens, e elas ficavam sempre na sala de aula. Eu tinha a escola com o Claudio Calcanhotto e no final de 2014 acabamos fazendo um show. Vários alunos e alunas se apresentaram, e a noite foi maravilhosa, estava lotado, elas amaram tocar, aplaudiram elas um monte. Aquilo me deu agonia, tipo assim, só daqui um ano de novo? 

Eu resolvi que faria alguma coisa com elas. Primeiro eu pensei numa banda com oito baterias, claro que não ia dar certo, aí acabou se formando as batucas. Tínhamos um coletivo antes na escola que se chamava bloco batuca, um misto de homens que eu e o Vini coordenávamos, que nunca tinha passado de 12 pessoas, 8, 12, às vezes 5. Foi desse bloco que veio as batucas, um coletivo feminino, as Batucas - Orquestra feminina de bateria e percussão.

:: As Batucas abrem as inscrições para as oficinas de verão, incluindo percussão, pandeiro e grupo vocal ::

Quando eu abri as batucas simplesmente deu uma explosão, a primeira turma lotou, 20 mulheres. Dai eu tive que abrir uma segunda turma, fui abrindo uma terceira, e fomos para o grupo vocal, depois se criou o grupo de pandeiro, e hoje estamos também com a aula de dança. Tornou-se um grande coletivo de mulheres.

BdFRS - Chama atenção de ser um projeto criado só para mulheres. Diante disso queria que vocês comentassem sobre o machismo no meio musical.

B. M - Super machista. Eu comecei a tocar em 1984, naquela época o machismo estava muito mais presente, eu digo presencial mesmo com bandas. Eu era sempre quase que a única mulher a tocar. Naturalizávamos muito isso, tinha muita falta de mulheres, porque só via homens, tanto tocando, quanto na produção, quanto dono de bar, o cara que grava disco, o cara que produz disco, eram só homens. E a coisa melhorou bastante. 

Raquel Pianta - Temos um salto na participação das mulheres na música na nossa cena porto-alegrense e riograndense, vendo artistas de modo geral. Ainda vemos bandas e artistas surgindo, o que é natural, que tenham só homens. Contudo está cada vez mais comum ter mulheres entre esses homens, e as pessoas vão pensar: tem uma mulher na banda.  

Temos muitas mulheres trabalhando em volta, em equipe, em produção, fotografia, artes e tudo mais, mas na hora do vamos ver, as pessoas que sobem no palco normalmente são predominantemente homens. 

Temos um salto na participação das mulheres na música na nossa cena porto-alegrense e riograndense

Eu vejo muito das gurias nos procurando para dizer que passaram a vida toda ouvindo de um pai, de um tio, ou do próprio filho, para de cantar, tu é desafinada. Ou algumas alunas: meu pai tocava, mas eu não tinha jeito pra seguir, pra fazer, porque meu próprio pai falou que aquilo ali não funcionava, não estava bom o suficiente. 

Então não é só do que a gente recebe da mídia, mas é a falta de incentivo dentro dos núcleos familiares e de amizades dessas pessoas. E aí muitas dizem: eu acho que eu não posso cantar, porque não sei quem já me falou que eu não afino. Então chegam com a voz cada vez mais enfraquecida, sem querer, sendo que é uma coisa que a pessoa chegou aqui é porque quer cantar, então tem alguma coisa ali que ficou dormente, e isso que o canto é uma coisa imaginada pras mulheres, mas a percussão ainda é um outro universo. 


Da esquerda para direita: Júlia Pianta, Biba Meira e Raquel Pianta / Foto: Fabiana Reinholz

Júlia Pianta - Na percussão geralmente a aluna fala: eu não tenho ritmo para nada, sempre tem alguém também que diz que tentou tocar violão e não deu certo, sempre tem alguém na turma que tentou e não conseguiu. Mas eu acho que o discurso também vem mudando um pouco ao longo dos anos. Acho que deve ter umas características lá no início, era muito mais desbravador do que hoje. Ainda vem muita gente na cara e na coragem, tipo nunca fiz isso, nunca consegui fazer, e estou aqui para tentar. Tem muito mais gurias chegando corajosas, vamos dizer assim, sem tanto receio de estar aqui. 

Acho que isso foi uma coisa que veio mudando ao longo dos anos, não é que ainda não cheguem pessoas com receios, e não é que nunca chegaram pessoas com a cara e a coragem, mas isso ainda bem vem mudando, e é muito louco, porque as Batucas surgiram há 9 anos atrás, e parece outro século. 

Há nove anos era inimaginável, especialmente nesse meio que a gente vive, e hoje em dia ainda já tem um monte de blocos de mulheres, tem um monte de blocos de carnaval, esse assunto está vindo mais à tona.

Acaba também que se torna uma coisa um pouco mais acessível, as mulheres começam a imaginar um pouco mais, tu vai para rua e vê mulher tocando, tu acha no Google, no Instagram, uma amiga tua num bloco, sem aquele receio todo, sem aquele ressentimento. Então é isso, a percussão acaba sendo um lugar muito mais inacessível do que o canto.

Historicamente para as mulheres o canto sempre foi uma posição um pouco mais incentivada, não significa que não tenha dificuldades e machismo, porque tem muito. Mas a percussão é um lugar escanteado. Rola esse receio, é como se as mulheres tivessem que desbravar. Tu tem que ter uma energia, coragem. Tu tem que ir ali te inscrever, e acreditar, mesmo que um monte de gente já tenha dito que tu não possa. 

Eu já tive alunas que fizeram aula em segredo, que não contaram pra ninguém, diziam que vinham pra terapia, algo referente a um momento de autocuidado da semana, e não contavam para ninguém porque não queriam que ninguém soubesse. Isso é uma coisa que é desse universo das mulheres mesmo, fazendo as coisas porque querem muito fazer, não necessariamente porque vão ter apoio das pessoas. E no fim acaba todo mundo conseguindo, acho que isso é o que faz a gente seguir, porque dá tudo certo, todo mundo sobrevive, todo mundo consegue ficar feliz tocando, cantando, dançando. 


As Batucas – Orquestra Feminina de Bateria e Percussão / Foto: Diego Lopes

B. M. - O que eu acho bacana é o fato de ser coordenada por três mulheres. Então é um lugar que elas se sentem mais seguras, com certeza mais seguras do que entrar numa aula de uma escola qualquer, que seja coordenada por um homem, que os professores são homens. Aqui tem toda uma dinâmica diferente, toda uma programação diferente, porque é conduzido por mulheres, então é diferente, não tem como não ser. 

J. P. - Eu fico pensando que quando tu criou as batucas, tu não sabia o que estava fazendo exatamente, porque isso é um impasse na história na real, as pessoas estão fazendo as revoluções, sem necessariamente saber o que estão fazendo, ou o que vai acontecer. Ou que tem outras pessoas em outros lugares fazendo a mesma coisa ao mesmo tempo. Acho que foi isso que aconteceu, dessa onda dos últimos anos da galera meter a boca e falar mesmo, e buscar os seus espaços, e botar na TV, botar na mídia, dar entrevista e fazer evento na cara e na coragem.

E acaba que vai cada um fazendo assim do seu canto, e quando tu olha para trás, muitas coisas acontecendo nos últimos 10 anos, que não necessariamente estava todo mundo se conversando. Mas acabou que deu certo, porque, justamente, eu acho que tinha muitas pessoas fazendo ao mesmo tempo, e vindo nessa onda sem necessariamente saber onde que ia dar, mas sentindo essa necessidade. 

R. P. - Meu pai que é músico, é pai da Júlia também, cresci com a Biba, que era baterista nos anos 1980, que fez eu e a Júlia nem questionar pelo fato de ser mulher, será que eu posso tocar ou qualquer coisa. Acho que muitos lugares já deviam estar começando isso, porque tinham outras mulheres criando seus filhos. A gente vem em uma geração que está fazendo as gurias não só tocarem, como ensinarem. Eu adoro dar aula para gurias, guris, crianças, pré-adolescentes e adolescentes que estão aprendendo, porque acho muito legal eles aprenderem guitarra com uma mulher. Com que cara que tu aprendeu? Eu aprendi com a Raquel, eu acho isso muito legal, porque essas pessoas vão ser a próxima geração. 

Eu acho que as batucas não surgiriam num outro momento, porque não teria eu e a Júlia, ou outras mulheres dos 40, 30, 50, fazendo isso coletivamente, porque não ia ter tanta gente. Mas as batucas existem desde que a Biba começou, é isso, é uma coisa que vai crescendo. 

B. M. - É importante ter uma referência, tu saber: aquela ali é mulher, ela está coordenando o vocal, aquela ali é mulher, ela está coordenando o pandeiro, aquela ali é mulher, ela toca bateria desde os anos 1980, é tu te enxergar também nessas mulheres.

BdFRS - Essa questão da representatividade também, acho que faltou um pouco nas gerações passadas. E isso do contexto familiar, social onde tu estás inserido influencia...

R. P. - Acho que a gente tem um privilégio geral. A Biba tem uma história que a gente sempre fala que é de privilégio em relação a tocar e tudo mais, que os pais dela apoiaram a ser baterista. E isso é fundamental, é muito raro. Ali já começa uma base sólida de isso aqui pode ser feito, ter esse incentivo. Só que isso é um privilégio, é muito difícil ter umas batucas a cada esquina. Porque às vezes precisa de um núcleo consolidado para trazer à tona.

Acho que foi muito genuíno o que a Biba fez, deixa a coisa toda consolidada para gente ir crescendo e ir funcionando. A gente é muito privilegiada por ter crescido numa casa de músicos, musicistas, enfim. E poder pegar essas pessoas, que muitas delas não tiveram acesso nenhum, e acolher, e estar aqui com a gente, e passar isso, porque agora elas são um núcleo musical dentro da casa delas, não importa o nível.

Não precisa ser musicista profissional para tu fazer música. Não são só 200 mulheres ou sei lá quantas já passaram por aqui. Mas são esses números em família, são 200 famílias, são 200 núcleos, 200 amizades. E mesmo que uma mulher não queira tocar, porque a mulher pode querer ou não querer, fazer o que quiser, ela sabe que se ela quisesse ela poderia, porque a amiga dela é das batucas, ou é de um coletivo que está rolando aí, que tem vários e que são maravilhosos. É satisfatório saber que apesar de que não existam tantos núcleos que acolham a arte feita por mulheres, é bom saber a gente conseguiu e consegue atingir novos núcleos. 


Da esquerda para direita: Raquel, Biba e Júlia / Foto: Fabiana Reinholz

BdFRS - No dia 20 de janeiro vocês têm a apresentação em alusão ao carnaval na Banda Saldanha.

B. M. - O carnaval em janeiro já é tradicional nas batucas, desde janeiro de 2017. É o grande momento de comemoração de todas as turmas, de confraternização. Vamos reunir o grupo vocal, do pandeiro, as turmas de percussão, e a parte de dança também. Vai ser uma grande festa reunindo todas. 

R. P. - E o carnaval acaba sendo esse lugar, essa festa aberta ao público, que tem um pouquinho de cada coisa das batucas, porque ao longo do ano tem um show da turma de percussão, tem um show do pandeiro com o grupo vocal. A dança ainda não teve o seu momento porque não tem tempo suficiente para isso, começou recentemente. Mas cada momento do ano tem ali um momento desses grupos apresentarem o seu trabalho, mais focado naquelas turmas, naquele processo.

O carnaval acaba sendo a oportunidade do público e das gurias verem um pouco de cada. A gente está numa expectativa muito grande, vai ser o maior número de batucas já participando de alguma coisa, com certeza vai ser o maior público. Teremos DJ também, então vai ser festança… 

J. P. - É um pouco de cada, para todo mundo ter um gostinho. Voltando um pouco naquele lance das mulheres irem para rua, que surgiu lá com a minha mãe querendo botar as mulheres na rua. O carnaval é mais um desses momentos que tu vai lá e convida o filho, a filha, a esposa, o tio, a amiga, o amigo, para ir te assistir e para tu ver um monte de mulher no palco. Para tu ver um monte de mulher produzindo o carnaval, inteiramente produzido por mulheres, nossa assessora de imprensa, nossa produtora, as professoras, as que vão participar, quem está organizando as comidas e tudo mais. Então 90% da equipe toda por trás do carnaval é por mulheres.

É uma oportunidade também de divulgar e ver as mulheres, e realmente participar de um evento que é nessa vibe, uma mulherada metendo a mão e fazendo tudo, que é uma coisa que hoje em dia também não é tão comum assim. Melhoramos a presença das mulheres, mas isso é uma coisa muito da nossa bolha. É muito desbravamento ainda, por isso que esses eventos são importantes, não só deles acontecerem, como das pessoas apoiarem de fato, estarem ali, baterem palma, gritarem, tomarem uma caipirinha com as mulheres organizando as coisas, porque também é assim que a gente faz a roda girar. 

R. P. - A luta das batucas acaba sendo dessa forma, em forma de música, de rede de apoio das mulheres, e de amor e vida. A gente acaba fazendo o nosso papel e fazendo a nossa vida disso, de estar aqui, de ensinar mulheres, de botar a mulherada na rua, de fazer música, de ser feliz fazendo isso. Mas sempre desbravando, sempre lutando para estar aqui também sempre querendo um pouco mais, pra justamente que isso siga se espalhando. Não é fácil, mas fazemos. 

BdFRS - Tem uma mensagem final para as mulheres que desejam cantar ou tocar?

B. M. - Mulheres, metam a cara em tudo que tu queira fazer!

R. P. - A mensagem que eu vou passar é uma que eu ouvi de uma professora de dança que dava aula comigo em outro local, e ela falou isso: o que a pessoa precisa ter para dançar? E ela disse que precisa ter um corpo, ela não disse como é ou onde é, e vontade. E é isso, e o que eu posso dizer o que precisa para fazer música? É ter vontade de fazer música. Obviamente a gente passa por uma coisa ou outra, tem algumas dificuldades nisso e aquilo, mas todo o jeito é um jeito de fazer música. É só querer, se dá jeito e se tem formas, e não precisa ser perfeito para ser suficiente, para ser o que a pessoa precisa, o que as mulheres precisam. 

J. P. - Eu vou dar o recado pra todo mundo que chegar a conhecer as batucas, ou souber do carnaval, para ir esse sábado na Saldanha, ver essa mulherada toda no palco. Sentir um pouco desse gostinho das batucas, querendo participar com batucas ou não. Porque realmente é uma festa, aquilo ali vai ser um momento maravilhoso. Para quem gosta de carnaval, para quem gosta de música, para quem gosta de percussão, esteja na Saldanha, sábado dia 20 de janeiro, porque vai ser uma festa muito massa.

Fonte: BdF Rio Grande do Sul

Edição: Katia Marko