MAU NEGÓCIO?

UE continua negociações com Mercosul; assunto é sensível para agricultores europeus

Funcionários do setor agrícola da Europa se opõem à assinatura do tratado e criticam possível abertura de mercado

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Muitos no Brasil - e na Europa - se opõe ao acordo de livre comércio - Twitter/France 24

A Comissão Europeia anunciou nesta terça-feira (30/01) que daria continuidade às negociações em curso sobre o tratado de livre comércio com o Mercosul. A declaração acontece um dia após a presidência francesa ter dito que as conversas com Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai iriam acabar. Na França e outros países do bloco, a possibilidade de conclusão do acordo que está sendo renegociado é criticada pelos agricultores.

“As discussões continuam e a União Europeia deve cumprir os seus objetivos de concluir um acordo que respeite os propósitos de sustentabilidade, particularmente na agricultura", disse o porta-voz da Comissão Europeia. Na semana passada, negociadores da UE e do Mercosul se reuniram no Brasil e “as discussões em nível técnico continuarão”, disse Eric Mamer. 

“Atualmente, a análise da Comissão é que as condições para a conclusão das negociações com o Mercosul não estão reunidas”, reconhece, no entanto, o porta-voz da Comissão. A próxima rodada de negociações “depende da análise que vamos fazer, sendo prematuro anunciar a próxima data, se houver nova data, da próxima negociação”, sublinhou.

Entre duas viagens ao exterior – à Índia e à Suécia –, o presidente francês, Emmanuel Macron, levantou a questão em uma reunião de ministros na tarde desta segunda-feira (29/01). Um assessor do Palácio do Eliseu sugeriu que a União Europeia considerava impossível concluir um acordo nas condições atuais. De acordo com a mesma fonte, a Comissão Europeia "instruiu seus negociadores para pôr fim às sessões de negociação que estavam em andamento no Brasil". 

Mais de duas décadas de negociações 

Após 20 anos de negociações, a Comissão Europeia e o Mercosul celebraram um acordo político em junho de 2019. Porém, o processo de ratificação desse tratado comercial está bloqueado desde então, devido a objeções levantadas por estados-membros da UE. 

A França, assim como outros países europeus, enfrenta tensões no setor agrícola e "se opõe claramente" à assinatura de um tratado dessa natureza, como reiterou, na última sexta-feira (26/01), o primeiro-ministro Gabriel Attal, em encontro com agricultores. A declaração foi uma resposta ao movimento de revolta da categoria. A maioria dos produtores rurais franceses estão descontentes com a possível abertura do mercado europeu aos produtos agrícolas sul-americanos. 

Entretanto, como reforça a Comissão Europeia nesta terça, as discussões foram retomadas entre os dois blocos, com os europeus buscando garantias adicionais dos países latino-americanos sobre questões relacionadas com o meio ambiente e o desmatamento. 

Macron deverá discutir medidas em favor dos agricultores europeus em um encontro esta semana com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. Eles irão abordar o acordo comercial entre a UE e o Mercosul, assim como a entrada de produtos ucranianos nos mercados europeus. Os agricultores denunciam que tanto no caso do Brasil quanto da Ucrânia existe uma concorrência "desleal" dos produtos importados, que não são submetidos às mesmas normas de qualidade e ambientais da UE e, por isso, desfrutam de preços mais competitivos.