ENSINO MÉDIO

'Notas mil' na redação do Enem mostram a desigualdade na educação brasileira

Apenas 60 estudantes atingiram a nota máxima na dissertação; destes, apenas quatro estudaram na rede pública

Brasil de Fato | Recife (PE) |
"Eles não têm essa formação, não são provocados a pensar", comenta diretora da cultura da UNE sobre alunos do novo ensino médio - Divulgação

A região com o maior número de notas mil na redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) foi a região Nordeste, com destaque para o Rio Grande do Norte, onde seis estudantes alcançaram tal resultado. O tema foi “Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil”

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Ao todo, 60 candidatos de todo o Brasil atingiram 1.000, a nota máxima na prova. Apenas 4 deles vieram da escola pública, ainda que 46,7% dos 2,7 milhões de participantes da prova fossem da rede pública.

A secretária para assuntos educacionais do Sindicato dos Trabalhadores da Educação  de Pernambuco (SINTEPE), Marília Cibelle, afirma que a baixa contribuição para as notas máximas na redação é resquício da pandemia, mas também da política educacional adotada desde o governo Temer e aprofundada com o governo Bolsonaro, com esvaziamento do Ministério da Educação e retirada de investimentos.

De acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), metade dos jovens que concluíram o ensino médio em 2023 participaram do exame. Quando se observa apenas o ensino público, o número é um pouco menor: 46% dos estudantes concluintes de escolas públicas fizeram o Enem 2023.

A diretora da cultura da União Nacional dos Estudantes (UNE), Maya de Sena aponta que os últimos resultados do Enem escancaram as desigualdades entre o  ensino público e privado, principalmente porque esta juventude que está nas escolas públicas “tem que se dividir entre estudar e trabalhar, priorizando cada vez mais o trabalho”.

Diante dos dados que apontam a dificuldade dos estudantes concluírem o ensino médio nos últimos anos, o Governo Federal criou o Programa Pé de Meia, que consiste em um incentivo financeiro para estimular a permanência no ensino médio e a realização do Enem pelos estudantes da rede pública.

Marília Cibelle acredita que o programa “vai impulsionar, mas não podemos esquecer que não se assegura a permanência desses estudantes na sala de aula se não garantir condições de trabalho para esse professor, se não garantir para ele uma carreira e atrair jovens para a docência, para a licenciatura”.

No âmbito estadual, a diretora do SINTEPE aponta que as poucas notas máximas na redação refletem a ausência de uma política educacional direcionada. Pernambuco é o estado que mais possui escolas em tempo integral, “mas a gente vê que isso não se reflete na retomada das políticas de valorização dos trabalhadores e na política de permanência desses estudantes”, conclui.

Invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pelas mulheres

Como de costume, o tema da redação do Enem foi assunto de debate no fim de 2023. A questão da invisibilidade do trabalho do cuidado realizado pelas mulheres dividiu opiniões. Houve incompreensões sobre sua relevância.

Para Betânia Ávila, socióloga e militante da ONG feminista SOS Corpo, essa é uma grande questão para a sociedade, pois faz parte do cotidiano e “é também um trabalho que do ponto de vista do sistema que a gente vive - esse sistema capitalista, racista e patriarcal -, é um trabalho cuja invisibilidade favorece a acumulação capitalista. Porque o fato dele não ser visto, faz ele não ser valorizado, não ser entendido como um trabalho.” Ela ressalta como a escolha do tema coloca milhares de jovens para refletirem sobre ele.

A média nacional das redações foi de 641,6, o que pode indicar uma dificuldade dos estudantes em dissertarem sobre o assunto. “Acho que é uma forma de aprendizado, porque a reflexão sobre algo, escrever sobre algo, é uma maneira de você dizer o que sabe, mas há um momento de compreensão que eleva o seu grau de conhecimento e também de sensibilidade sobre aquela temática”, conclui.

Diante da média, Maya de Sena lembra que essa juventude que fez o Enem 2023 é a mesma que vivenciou a implementação do Novo Ensino Médio, projeto educacional que secundariza a reflexão política e social dentro das escolas. “Eles não têm essa formação, não são provocados a pensar. Como que a gente supera isso?", indaga.

Fonte: BdF Pernambuco

Edição: Vinícius Sobreira