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Protesto de jogadores na República Democrática do Congo denuncia invizibilização de conflito histórico no país

Gesto aconteceu na principal competição africana; país vive em conflito desde 1996

Brasil de Fato | São Paulo (SP) |
Jogadores da República Democrática do Congo protestam antes de jogo da Copa Africana contra o silêncio da mídia internacional sobre os massacres que ocorrem no leste do país
Jogadores da República Democrática do Congo protestam antes de jogo da Copa Africana contra o silêncio da mídia internacional sobre os massacres que ocorrem no leste do país - FRANCK FIFE / AFP

A República Democrática do Congo tem a 15ª maior população do mundo, mas às vezes parece invisível para boa parte do planeta.

Foi com esse espírito que os jogadores da seleção congolesa protestaram na execução do hino do seu país, antes da semifinal da Copa Africana de Nações.

Apontando uma arma metafórica pra cabeça e tapando suas bocas, os jogadores ao mesmo tempo expõem a violência à qual os congoleses têm sido submetidos há décadas e o silêncio que o mundo faz diante do seu sofrimento.

Desde 1996, os mortos são estimados em cerca de 6 milhões.

A região leste do Congo foi desestabilizada desde o genocídio na vizinha Ruanda, nos anos 90.

Radicais hutus, etnia dominante ruandesa, fugiram para o Congo após matarem centenas de milhares de tutsis, levando a uma invasão de Ruanda ao território congolês para caçá-los.

Anos de conflito entre grupos armados e as forças de segurança do Congo se seguiram e levaram à criação do grupo 23 de Março, ou M23, formado por tutsis étnicos e que tem o apoio de Ruanda.

Formado nos anos 2000, o grupo tem tomado partes do leste congolês com violência extrema.

Em 2013, pra conter uma rebelião do M23, a ONU inclusive autorizou uma ofensiva contra o grupo, algo raro.

11 anos depois, os problemas continuam, em especial na província de Kivu do Norte, onde o exército congolês e as forças da ONU não conseguiram segurar novo avanço do M23.

Em 2023, os desabrigados pelo conflito já eram cerca de 7 milhões, e a ONU diz que mais 42 mil se juntaram a eles nesse início de 2024.

Por isso, o atacante congolês Cédric Bakambu, inventor do gesto feito pela seleção, pediu: falem dos massacres com a mesma ênfase do futebol.

O conflito na RD Congo deveria aparecer mais no noticiário, não só pela situação humanitária, mas também pela importância econômica do país: seu solo é rico em minerais essenciais pra indústria tecnológica global.

Daí o apelo dos jogadores no seu momento de maior visibilidade.

Paul Kagame, presidente de Ruanda, sabe bem como o esporte é essencial para projetar uma boa imagem:

Enquanto fecha acordo com o governo conservador do Reino Unido para receber em seu país imigrantes indesejados na Europa, ele patrocina o Arsenal.

Já o Congo, 1ª seleção da África subsaariana a participar da Copa do Mundo (em 1974, ainda com o nome de Zaire), foi uma potência futebolística nos anos 60 e 70.

As conquistas recentes secaram, e o país não chega à final da Copa Africana de Nações há 50 anos.

Não será em 2024.

Em campo, a anfitriã Costa do Marfim, numa campanha de recuperação incrível após estar virtualmente eliminada na 1ª fase, derrotou a RD Congo na semifinal por 1 a 0 e fará a final contra a Nigéria.

Mas os jogadores congoleses fizeram a sua parte, de maneira ainda mais nobre.

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Edição: Thalita Pires