Coluna

Anatomia de um fiasco

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Apesar das investidas de Benjamin Netanyahu, Lula saiu maior do que entrou da crise diplomática inflada pela mídia - Ronen Zvulun / Pool / AFP
Raros são os erros de cálculo tão grandes quanto o cometido pela mídia brasileira esta semana

Olá!

Lula saiu maior do que entrou da crise diplomática inflada pela mídia. E os que tentaram surfar esta onda, deram com os burros n’água.

.Faltou combinar com os yankees. Raros são os erros de cálculo tão grandes quanto o cometido pela mídia brasileira esta semana. Foram três dias de fogo cerrado contra Lula, que em discurso no domingo (18) comparou a ação de Israel em Gaza à de Hitler contra os judeus. Nos veículos internacionais, o caso teve repercussão passageira e limitada, afinal Lula só falou o óbvio, recebeu apoio de diversos países do sul global e ninguém saiu em defesa de Israel. Em contraste, aqui os jornalões preferiram aproveitar a oportunidade para inflar a crise e sangrar o governo. Esquecendo-se que foi Benjamin Netanyahu quem certa vez inocentou Hitler do holocausto, a mídia nacional escandalizou-se com a suposta irresponsabilidade, improviso e erro de cálculo de Lula. Tudo isso, é claro, ignorando a coerência da diplomacia brasileira, que não só passou a liderar a oposição internacional ao genocídio em Gaza mas vem reposicionando o país no cenário geopolítico mundial. O recado dos jornalões era claro: o presidente deveria voltar atrás e pedir desculpas a Israel. A sorte é que a mídia não ficou sozinha no fiasco. Afoito, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, apressou-se em condenar a fala de Lula e levou uma invertida de Omar Aziz. Mas também teve aliados, como Jaques Wagner, querendo se afastar da crise com uma condenação mais sutil às palavras do presidente. Pior do que eles, só os deputados da oposição que acreditaram que o caso poderia render um pedido de impeachment. E o cúmulo do viralatismo foi a certeza de que o secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken, enquadraria Lula assim que chegasse ao Brasil. Porém, como os Estados Unidos tem mais com o que se preocupar, a reunião com Blinken foi amigável, sem cobranças e reafirmou o compromisso mútuo com a criação de um Estado palestino. Certamente a força da militância de esquerda nas redes também ajudou a desmascarar a farsa e a suposta crise desapareceu na quinta-feira (22). E o encontro do G20 confirmou o acerto da estratégia do governo brasileiro, ao reafirmar a necessidade de reforma dos organismos multilaterais para enfrentar um cenário internacional cada vez mais conflituoso.

.Amanhã será maior? No meio da gritaria, o único adversário a realmente lucrar com a polêmica entre Lula e Israel foi Jair Bolsonaro. Ao cogitar a participação do embaixador israelense Daniel Zonshine no ato do próximo dia 25, o núcleo bolsonarista se movimentou para transformar o evento em defesa do ex-capitão em um ato antigoverno e anti-Lula. Na prática, Bolsonaro sabe que colocar milhares nas ruas não afrouxa o cerco do STF e da PF - no máximo, enquadra seus aliados que queiram pular fora do barco com alguma delação diante das investigações. O que realmente importa é demonstrar que não há espaço eleitoral para a direita sem Jair. Se a manifestação for robusta, Bolsonaro enquadra dois devedores paulistas e absolutos desconhecidos até há alguns anos, o governador Tarcísio e o rapaz aquele que é prefeito-da-capital-mas-ninguém-sabe-o-nome. A aposta é mais arriscada para Ricardo Nunes. Se o ato bolsonarista falhar, Tarcísio ainda tem três anos para se reposicionar. Já o prefeito da capital, tem apenas alguns meses. Mas não são apenas os mandatários paulistanos que têm seu destino atrelado a Bolsonaro. Ex-colega de chapa e um dos mais fieis entre os militares golpistas, Braga Netto está descobrindo que os companheiros de farda não pensam duas vezes ao abandonar um colega, começando pelo próprio Bolsonaro, que  já cogita entregar o general para salvar a própria pele. E até as forças armadas já trabalham com a ideia de que a impunidade acabou: celas VIPs estão sendo preparadas para acomodar os futuros generais presos em Brasília.
 

.Foco, força e fé. Não há conflito no mundo que distraia Arthur Lira dos seus objetivos. Apesar do chororô pré-carnaval e das ameaças de sempre, o presidente da Câmara parece ter seus temores apaziguados depois do indicativo do governo de que apoiaria seu preferido, provavelmente Elmar Nascimento (União Brasil-BA), para sua sucessão. Por isso, Lira reconvocou a reunião dos líderes com Fernando Haddad que havia cancelado por pura birra. Do lado do governo, há quem desconverse, que diga que não há nada certo, o que anima Eunício Oliveira (MDB-CE) a pleitear a indicação governista. Além deles, os deputados Marcos Pereira (Republicanos-SP), Antônio Brito (PSD-BA) e Isnaldo Bulhões (MDB-AL), também disputam a unção tanto do governo, quanto do líder do centrão. Até lá, Lira tenta manter o poder na base da sua capacidade de arrancar emendas em ano eleitoral, enquanto teme ter o mesmo destino de Rodrigo Maia, que não conseguiu eleger o sucessor e mergulhou no ostracismo. A antecipação da corrida eleitoral pela presidência da Câmara bagunçou inclusive o próprio Congresso, uma vez que deputados fieis a Lira temem perder espaços já acertados nas comissões para novos adeptos. O certo é que, na escaramuça, mais uma vez quem saiu chamuscado foi Alexandre Padilha, enquanto o pouco simpático Rui Costaganhou espaço nas articulações parlamentares. Entre mortos e feridos, no geral, o governo não cedeu tanto quanto Lira queria, viu a tentativa de explorar a fuga dos presídios naufragar no estilo discreto do novo ministro da Justiça Ricardo Lewandowski e até o natimorto pedido de impeachment serviu para mapear a oposição e identificar seus flancos. Trinta por cento dos deputados do PL não assinaram o pedido e, entre os partidos da base governista, prevaleceram os estranhos no ninho, como Kim Kataguiri. Noves fora, a oposição reuniu apenas 120 assinaturas. E enquanto os cães ladram, a caravana do governo comemora a sinalização de dias melhores na economia e a maior arrecadação dos últimos 24 anos.

 

.Ponto Final: nossas recomendações.

.A sociologia brasileira perde Luiz Werneck Vianna. No Portal Grabois, Theófilo Rodrigues registra a contribuição teórica e política do intelectual brasileiro.

.Lógica sionista. Na Jacobina, um artigo histórico de Malcolm X em defesa da Palestina e denunciando o sionismo.

.O destino de Assange e o fim do jornalismo. Chris Hedges escreve sobre a importância do julgamento de Julian Assange e porque sua extradição é prejudicial para a humanidade. No Outras Palavras.

.Uber e Audi usaram créditos de carbono gerados em área com trabalho escravo. No Repórter Brasil, a fazenda com trabalho escravo que lucra vendendo crédito de carbono para a indústria automobilística.

.O país precisa saber o que faz o Batalhão de Operações Psicológicas do Exército. Na Agência Pública, Rubens Valente pergunta para quem são e o que fazem estas forças secretas do Exército.

.Por que a Vai Vai incomoda(ou)?  No Jornal da USP, o professor Dennis de Oliveira sai em defesa da escola de samba contra a polícia e a grande mídia.

.'We are the world': De quem a África realmente precisa ser salva? No Intercept, como a canção dos astros pop ajudou mais a Pepsi do que a África.

.A Revolução palestina de 1936 a 1939: antecedentes, detalhes e análise. A Expressão Popular publica um clássico do mais importante autor palestino Ghassan Kanafani, com prefácio de Breno Altman.

 

Ponto é editado por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.

Edição: Vivian Virissimo