Ideologia

A esquerda não morreu

Historiador justifica por que campo ideológico progressista ainda está de pé, porém aponta também suas atuais fraquezas

Brasil de Fato | São Paulo (SP) |
A manifestação 8M reúne pessoas em luta por direitos femininos no Dia Internacional da Mulher, no Centro do Rio de Janeiro - Fernando Frazão/Agência Brasil

"A coragem é a luz da adversidade"

- Ditado popular português 

Concluir que a esquerda morreu no Brasil é um exagero por, pelo menos, duas razões fundamentais: (a) porque ganhou quatro eleições presidenciais seguidas desde 2002, e confirmou que preservava autoridade levando a candidatura Lula ao segundo turno em 2022, vencendo o bolsonarismo, ainda que por uma estreita margem; (b) porque mantém implantação social no movimento sindical dos trabalhadores, nos movimentos populares agrários e urbanos, nos movimentos feministas, negros LGBT1s, ambientalistas, de direitos humanos, da cultura, e na juventude estudantil. Tem força social, política e eleitoral. Quem tem força, está vivo. Aliás, sendo rigorosos, a esquerda brasileira, tanto a moderada, como a radical, está entre as mais influentes do mundo. 

Mas é verdade que a esquerda mudou, qualitativamente, no Brasil e no mundo, e alguns partidos são quase irreconhecíveis. Acontece que esta realidade tem trinta anos, não três anos, portanto, não é surpresa alguma. Desde a derrota histórica da restauração capitalista e o fim da União Soviética, entre 1989 e 1991, ocorreu um processo devastador que deixou “mortos, feridos e mutantes” pelo caminho. Os velhos partidos comunistas desapareceram ou “socialdemocratizaram”. A social democracia se converteu a diferentes versões de social-liberalismo. A esquerda radical se fragmentou ou “canibalizou”. O impacto de décadas de situações reacionárias ou defensivas levou a regressões programáticas, e até à transformação do vocabulário, tanto da esquerda mais moderada quanto da revolucionária. É deseducativo afirmar que a esquerda morreu. É uma “boutade”, expressão francesa para um gracejo, algo meio irônico e ferino ao mesmo tempo, mas não inocente. Não deve ser levado a sério. Não é nem correto, nem justo. Estimula um ceticismo perigoso entre os jovens, e um cinismo insolente entre os veteranos. O que precisamos é de coragem. 

Esquerda e direita são conceitos da nossa linguagem coloquial, mas são aproximativos e, em geral, imprecisos. São muito usados e, nessa medida, úteis. A esquerda é múltipla e plural. Há várias correntes na esquerda. Portanto, não é sinônimo ser de esquerda e ser marxista. Tampouco é sinônimo abraçar uma estratégia revolucionária. Aliás, no Brasil e no mundo, a imensa maioria das pessoas que simpatizam com a esquerda não é marxista, nem apoia um projeto revolucionário. Quem é marxista não deveria ser tão sectário que não possa aceitar que é possível ser de esquerda, sem ser marxista ou revolucionário. Portanto, é no mínimo um ex abrupto afirmar que a esquerda “morreu”, se foi Lula, a principal liderança de esquerda no Brasil, há quarenta anos, quem derrotou Bolsonaro, e não a candidatura liberal da “terceira via”. Lula é um moderado, um reformista, um gradualista, mas é de esquerda. Venceu por uma pequena diferença, mas venceu. O PT é um dos maiores partidos de esquerda do mundo. Se a esquerda tem força, não morreu. Mas uma parcela da esquerda radical, não somente nos meios intelectuais, começou a flertar com a ideia de que quem não é super-revolucionário, não é de esquerda. Nessa chave, o PT não seria mais um partido de classe trabalhadora, mas um dos partidos burgueses. Não se trata somente de um exagero, mas uma conclusão teórica e, politicamente, errada. Sem uma frente única com o PT e os movimentos onde tem grande influência não é possível derrotar o neofascismo

É verdade que a esquerda marxista é minoritária, mas, tampouco, é justo avaliar que a esquerda “radical” morreu. Em especial no Brasil, onde temos o MST e o MTST, além do PSOL e correntes da esquerda do PT que mantêm mandatos em todas as esferas, conquistaram posições na direção grandes sindicatos, têm representação na UNE, estão à frente de alguns grandes coletivos feministas, negros e LGBT’s, influência no ambientalismo, nos movimentos de direitos humanos e da cultura. Não fosse tudo isso significativo, Boulos é candidato a prefeito em São Paulo, e recebe o apoio do principal partido de esquerda. Esse apoio foi conquistado, não foi dado. Foi o desfecho de um processo e, também, uma disputa com a esquerda moderada pela liderança. Uma avaliação de que as posições de Boulos não seriam radicais o bastante para merecer o reconhecimento de que é parte da esquerda radical não pode ser levada a sério. Se o critério for que, só poder ser considerado como revolucionário quem concorda cem por cento com cada um de nós, perdemos o juízo.   

 Acontece que estamos em uma situação reacionária, no contexto de uma relação social de forças desfavorável. Isso significa que viemos de muitos anos de acumulação de derrotas, desde o golpe institucional de 2016. A classe trabalhadora e seus aliados entre os oprimidos perderam confiança na sua capacidade de lutar para vencer. A vitória eleitoral foi gigante, mas não reverteu o ceticismo. A esquerda não morreu, mas é verdade que não está bem. Não está bem por três razões fundamentais: (a) primeiro porque perdeu, qualitativamente, quando em comparação histórica, força social de choque, ou seja, a capacidade de se apoiar na mobilização de massas superior à extrema-direita; (b) segundo, porque o governo Lula abraçou uma estratégia de governabilidade que depende, exclusivamente, de acordos com o Centrão no Congresso, e prevalece na maioria da esquerda sob influência do lulismo uma estratégia quietista de renúncia à luta pelas reivindicações populares; (c) terceiro, porque a imensa maioria da esquerda, inclusive na esquerda radical, desencorajou do projeto estratégico, o socialismo.  

O governo Lula não é um governo de esquerda. Além da presença de Alckmin na vice-presidência, trata-se um governo de coalizão com a fração capitalista que tentou construir uma terceira via com Simone Tebet, e incorporou representantes dos partidos de direita, historicamente, posicionados com o Centrão. Mantém intacta, no que é mais fundamental, uma estratégia econômica de gestão do capitalismo semiperiférico que responde aos dogmas neoliberais de ajuste fiscal para alcançar um déficit primário zero e reduzir a inflação, ainda que com “descontos”. Nem sequer uma orientação desenvolvimentista de políticas anticíclicas para impulsionar o crescimento foi considerada. Não fosse o bastante o governo decidiu não enfrentar a questão militar. Mesmo depois da incrível cumplicidade do alto comando das Forças Armadas com a ameaça golpista que culminou na semi-insurreição de 8 de janeiro de 2023. 

Ser de esquerda não obriga ninguém a ser oposição ao governo Lula. Tudo o que o governo faz ou deixa de fazer no que diz respeito aos interesses dos trabalhadores merece e deve ser criticado. Mas não é o bastante para legitimar uma tática de oposição de esquerda ao governo Lula. Não seria nem realista, nem inteligente, nem responsável um posicionamento na oposição ao governo Lula, porque, na atual relação social e política de forças, este espaço já está ocupado pelo bolsonarismo.

Os riscos colocados pelo neofascismo permanecem enormes. A classe dominante está dividida no Brasil. Uma fração apoia, criticamente, o governo Lula, outra apoia Bolsonaro. Não se pode lutar, ao mesmo tempo, com igual intensidade as duas. Há que explorar a divisão. A demonstração de força de Bolsonaro no recente domingo 25 de fevereiro confirma que o perigo é real e iminente. A resposta à contraofensiva da extrema-direita terá que ser construída, nas redes, nas ruas, na institucionalidade, em todos os terrenos em unidade com o PT. Mais, exigindo que seja liderada por Lula, presencialmente, para que possa ser o maior possível. Quem não estiver construindo a mobilização nos próximos 8 de março, 14 de março por Marielle e no sábado 23 de março, pode bater no peito que é da esquerda “verdadeira”. Mas perdeu a bússola de classe.  

É verdade que a natureza do governo Lula, tampouco justifica uma tática de disputar o destino do governo por dentro. Não porque não haja lutas políticas importantes dentro governo. É evidente que elas existem e, na surdina, se ouvem os ecos dos debates. Mas porque essas discussões estão aprisionadas pela decisão estratégica de preservar a aliança da Frente Ampla erguida para o segundo turno. O papel da esquerda radical é uma presença incansável na organização das lutas. 

Entretanto, é verdade que, apesar de tudo, toda a esquerda, mais moderada ou mais radical, compartilha quatro premissas ou escolhas comuns. Em primeiro lugar, ser de esquerda é uma escolha moral. Ao ser de esquerda abraçamos uma visão do mundo que considera todas as formas de exploração e opressão indignas. Quem explora ou oprime alguém não pode ser livre. Não é possível a liberdade entre desiguais. Em segundo lugar, ser de esquerda é uma escolha de classe. Ao ser de esquerda abraçamos uma visão do mundo que considera que o movimento dos trabalhadores é a nossa referência de esperança, e suas lutas são as nossas. Em terceiro lugar, ser de esquerda é uma escolha política. Ao ser de esquerda abraçamos um projeto de luta pela transformação da sociedade. Queremos mudar o mundo em função da satisfação das necessidades da maioria. Por último, ser de esquerda é uma escolha ideológica. Ao ser de esquerda abraçamos um projeto histórico, o socialismo como programa, ou seja, defendemos uma sociedade em que deveremos ser socialmente iguais, humanamente diferentes, e totalmente livres. O que nos une não é pouca coisa.

* Valerio Arcary é professor titular no Instituto Federal de São Paulo (IFSP), militante da Resistência/PSol, e autor de O Martelo da história, entre outros livros.

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.

 

Edição: Matheus Alves de Almeida